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'Energia nuclear é a melhor opção'

OESP, Vida, p. A14
Autor: LOVELOCK, James
07 de Fev de 2007

'Energia nuclear é a melhor opção'
Entrevista
James Lovelock, cientista inglês
Em seu novo livro, James Lovelock diz que resta pouca alternativa para combater o aquecimento global

Daniel Piza

James Lovelock é um cientista inglês que se tornou best-seller mundial graças à sua Teoria de Gaia, que defendeu em diversos livros. Sua obra mais recente, A Vingança de Gaia (ed. Intrínseca, 160 págs., R$ 29,90), retoma suas idéias com o foco principal num assunto literalmente quente no noticiário: o aquecimento global.Ao contrário de muitos ambientalistas, porém, Lovelock não vê com bons olhos medidas como o Protocolo de Kyoto, que considera mais um "gesto político" do que uma solução definitiva dos problemas. Para tanto, defende outra opinião controversa: a energia nuclear deveria ser a principal matriz do planeta, porque é a mais limpa e viável entre todas. Por motivo semelhante, também critica a moda dos alimentos orgânicos, que não enfrentaria o verdadeiro problema da agricultura: a extensão de terras cultivadas, inadequada para a sobrevivência da biosfera.

Lovelock consegue, portanto, fazer sucesso sem dizer o que a maioria espera ouvir. Não à toa esse simpático senhor de 86 anos diz, em entrevista ao Estado por telefone, que é um "otimista por definição".

A imprensa anunciou que este ano deve ser o mais quente em muito tempo. Temos conhecimento suficiente do clima para afirmar que ele vai esquentar ano a ano e por quanto tempo?

Está claro que, se não fizermos nada, o clima tende a esquentar cada vez mais. Prever o clima futuro é diferente de prever o tempo no futuro, de dizer com certeza se vai chover num determinado dia daqui a alguns anos. Mas podemos dizer com certeza que o aumento do dióxido de carbono inevitavelmente causará uma profunda mudança do clima.

O sr. escolheu a palavra "Gaia" para designar o planeta Terra. Escreveu que "Gaia está ficando zangada" e, se a humanidade não tomar jeito, ela nos expulsará. Isso não soa muito apocalíptico ou, ao menos, religioso?

É uma metáfora, evidentemente. Pode-se fazer objeção à palavra, mas não ao argumento. Gaia é a fina matéria de vida que recobre o planeta, o que alguns chamam de biosfera. Foi graças a esse conceito que pudemos medir os danos aos ecossistemas oceânicos causados pelo aquecimento, que tira os nutrientes das algas. Não se trata de religião. Precisamos realmente nos dar conta de que a Terra não suportará 8 bilhões de habitantes da forma como estamos vivendo.

A defesa do ambiente é um tema diário na mídia e as pessoas do mundo todo se dizem preocupadas com ela. Mas o sr. diz que todo dia estamos destruindo-o com nosso modo de vida. Como mudar?

É extremamente difícil. O tema está na moda, mas isso não significa que o problema vá ser combatido de verdade. Acho que há pequenas coisas que todo mundo poderia fazer. As pessoas são sedentárias, comem mal e só vivem no ambiente urbano. Para isso, cultivamos mais da metade da superfície da Terra, o que é inviável, mesmo que seja com alimentos orgânicos. Retiramos oxigênio da atmosfera e depois nos perguntamos por que tantas pessoas morrem de câncer. Acho que precisamos começar a pensar seriamente em sintetizar alimentos.

Se países como China e Índia continuarem crescendo como estão, em direção ao modo de vida de países mais industrializados como os da Europa e Estados Unidos, como o planeta poderá suportar isso?

Não poderá. Algo precisa ser feito. A China não é uma democracia, então fica complicado a existência da pressão que pode haver numa democracia. Mas eu acredito que é possível conscientizar essas populações de que elas podem combinar o desenvolvimento econômico com o respeito ao ambiente.

Alguns cientistas importantes não concordam com o Protocolo de Kyoto. Dizem que é caro e que seria melhor investir em tecnologias alternativas, em novas fontes de energia. O que o sr. acha?

Eu concordo com essa visão. Acho que o protocolo é um gesto político, acima de tudo. Se tem alguma importância, é essa.

O que fazer, então?

Acho que é preciso reduzir, sim, a emissão de gases. Mas o mais importante é adotar a energia nuclear como fonte principal.

A população tem uma visão ruim da energia nuclear, pois acredita que seja perigosa e poluente. Como mudar esse conceito?

Acho que ele já está mudando. A energia nuclear é a menos poluente e boas soluções para o lixo radioativo estão sendo encontradas. Acho que essa visão vem da 2ª Guerra Mundial, da associação entre energia nuclear e destruição. Mas ela é o único meio de superar a catástrofe do aquecimento global e criar um modo de vida que preserve Gaia. Sou um otimista por definição.

O sr. conhece a questão ambiental brasileira?

Sim. Estive no País há alguns anos, visitando a Amazônia.

Há uma antiga discussão sobre explorar a Amazônia ou deixá-la intocada.

Acho que, na dúvida, é melhor deixar a floresta amazônica intocada.

Mas e os milhões de habitantes que vivem ali? E as riquezas em minérios, remédios, cosméticos, que poderiam ser exploradas de forma sustentável?

Não sei. Acho perigoso. Essas pessoas devem encontrar formas de subsistência, mas não se pode industrializar a região, do modo como foi feito em Manaus.

O ENTREVISTADO

James Lovelock é pesquisador visitante honorário do Green College (Inglaterra) há 12 anos. Embora sua formação seja em Medicina, criou instrumentos para as sondas espaciais Viking, que pousaram em Marte. É o criador da Teoria de Gaia, que diz que a Terra se comporta como um único organismo

OESP, 07/02/2007, Vida, p. A14

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