OESP, Metrópole, p. C3
18 de Out de 2011
Enchente pode render ficha-suja para governantes
Promotor quer responsabilizar autoridades por alagamentos que ocorrerem em áreas com problemas conhecidos há mais de 3 anos
Diego Zanchetta
Rodrigo Burgarelli
O Ministério Público Estadual (MPE) quer tornar "ficha-suja" as autoridades responsáveis por áreas que voltarem a alagar em São Paulo no próximo período de chuvas. Oito anos após começar a apurar as responsabilidades pelas enchentes, a Promotoria diz que subprefeitos, secretários e até o prefeito Gilberto Kassab (PSD) serão processados por improbidade, caso áreas famosas pelos alagamentos - como Pompeia e Bom Retiro - voltem a ficar debaixo d'água.
"Houve tempo suficiente para que as autoridades realizassem obras para evitar enchentes constantes em pontos como o Jardim Helena, na zona leste, ou na Rua Turiaçu, ao lado do Palmeiras. São inundações que se repetem a cada chuva. Ou o agente público não fez a obra ou a obra foi feita e o dinheiro mal empregado. Agora esse agente precisa responder por isso na Justiça", afirma o promotor Mauricio Antonio Ribeiro Lopes.
Um mapeamento com os principais pontos de alagamento da cidade está sendo montado pelo promotor, a partir de dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e dos 18 volumes do inquérito das enchentes. Também estão sendo incluídas denúncias de cidadãos encaminhadas à Promotoria. Quando for constatada a reincidência de alagamento, Lopes afirma que será movida uma ação civil pública, pedindo reparação de danos materiais e morais para os moradores do local afetado.
Caso ganhe a ação, o MP vai destinar o dinheiro para o Fundo Estadual de Reparação dos Direitos Difusos e Coletivos, que planeja ações antienchentes. Se um morador quiser processar o Poder Público, pedindo reparação de danos, será necessária a abertura de processo individual na Promotoria de Habitação. "A ação do MPE visa a sujar a ficha do agente público que não resolveu um problema que já era de seu conhecimento há pelo menos três anos", acrescenta o promotor.
Um ofício para oito secretarias municipais e 31 subprefeituras, para o gabinete do prefeito e para a Secretaria Estadual de Recursos foi enviado pela Promotoria de Habitação em 15 de julho. "Pedimos um raio X dos recursos investidos no combate aos alagamentos nos últimos anos e das obras em andamento", disse Lopes. O promotor ressalta que o objetivo da ação "é trocar um cargo de confiança por um de competência técnica".
Início. O inquérito sobre as enchentes na capital foi aberto no dia 26 de fevereiro de 2003, pelo promotor Mauro Augusto Falachias. A denúncia inicial era sobre a construção de um condomínio em área de preservação do Horto Florestal, bairro da zona norte. Nesses oito anos, os promotores que passaram pelo caso pediram a remoção de moradores de nove áreas de risco que foram reurbanizadas e a canalização de três córregos.
Mesmo assim, durante todo esse período nenhuma ação civil pública contra gestores públicos foi ajuizada pelo Ministério Público. Só agora, oito anos depois, é que a Promotoria ameaçou pela primeira vez recorrer à Justiça para tentar diminuir a ocorrência de alagamentos na capital. Atualmente, as denúncias que mais chegam ao MPE sobre enchentes se referem aos alagamentos constantes da zona oeste e das enchentes no Jardim Helena e na região de M'Boi Mirim, na zona sul.
Silêncio. Procurada, a Prefeitura de São Paulo informou que não se manifestaria sobre a notificação do MPE. Para o orçamento de 2012, Kassab reservou R$ 160 milhões para obras antienchentes.
Como denunciar
Qualquer cidadão pode enviar provas e denúncias ao ministério público estadual sobre alguma área da capital que ficou alagada nos últimos anos. Basta reunir o material (fotos, vídeos, relatos, etc) ou protocolos de reclamações feitos nas subprefeituras para o e-mail pjhurb@mp.sp.gov.br. Com base nessas reclamações, o MPE poderá acionar a justiça caso essa área alague novamente no próximo verão.
Para lembrar
Obras ficam só no papel
Os principais projetos antienchente do governo estadual e da Prefeitura para a capital vão continuar no papel por mais um verão. Como o Estado mostrou na última semana, obras como as muretas de proteção para o Rio Tietê parar de transbordar e piscinões no centro e na periferia da cidade, prometidas pelo governo estadual, não ficarão prontas até o fim do ano.
O mesmo vai acontecer com projetos prometidos pela Prefeitura (mais informações na galeria de fotos ao lado). No total, tanto o Estado quanto o Município não haviam contratado sequer 30% do previsto para o ano em obras antienchente até o fim de setembro.
OESP, 18/10/2011, Metrópole, p. C3
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