O Globo, Economia, p. 34
18 de Nov de 2007
Empresas pegam carona na onda verde
Para associar imagem a combate ao aquecimento global, produtos lançados estimulam plantio de árvores
Liana Melo e Bruno Rosa
Estima-se que cada pessoa produza, anualmente, 22 toneladas de gás carbônico (CO2), o principal responsável pelo efeito estufa. A co-responsabilidade no aquecimento global tem feito empresas e consumidores optarem por produtos mais amigáveis ao meio ambiente. Ainda que a postura seja nobre, estudiosos do tema têm dúvidas quanto à real eficácia de algumas iniciativas. O impacto de programas de neutralização de carbono, por exemplo, é residual, comparado ao volume de emissões do Brasil: 1,141 bilhão de toneladas em 2006. Sem contar a contribuição da União Européia, o Brasil é o quinto maior poluidor do mundo.
- A prática mais comum é a plantação de um número determinado de árvores que "consumiriam" o carbono produzido pela atividade humana em questão. É como se estivéssemos pagando nossa dívida com a floresta, para poder continuar com nossas atividades. Talvez devêssemos parar de pagar "multas" e começar a agir com mais responsabilidade, reduzindo nosso consumo de água e de energia - analisa Ana Lúcia Berndt, diretora de Novos Projetos da Soma Agência de Comunicação Sustentável.
Menor consumo de energia é essencial, diz especialista
Ana Lúcia está convencida de que os programas de neutralização só são eficazes se acompanhados de projetos de eficiência energética dentro das empresas. Caso contrário, é puro marketing, diz ela.
A Ipiranga, do grupo Ultra, investiu R$ 6 milhões na compra de cinco mil toneladas de créditos de carbono da MaxAmbiental, dona das marcas Carbono Neutro e Carbono Zero no Brasil desde 2003. O Cartão Ipiranga Carbono Zero, lançado em agosto, visa a zerar todo o CO2 que é de responsabilidade do consumidor a cada ida ao posto de gasolina.
O consumidor troca suas emissões de CO2 por árvores plantadas em Pato Bragado, na região Oeste do Paraná. A cidade é dona de um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) abaixo da média nacional. O replantio visa a recobrar a mata ciliar, o que vai possibilitar a recuperação da malha hidrográfica da cidade.
- Em 2006, administramos 20 projetos de neutralização de carbono. Nos dez primeiros meses deste ano, esse número pulou para cem - calcula Eduardo Petit, principal executivo da MaxAmbiental, comentando que esses projetos, juntos, emitem 30 mil toneladas de CO2, e para neutralizálos é necessário o plantio de 150 mil árvores.
Petit calcula que, para cada 3,8 litros de combustível queimado por um carro, são liberados dez quilos de CO2. Já em um hectare é possível plantar duas mil árvores, neutralizando até 400 toneladas de carbono. A Organização das Nações Unidas foi a primeira a impulsionar o processo de neutralização em seus eventos sobre mudanças climáticas. A prática, difundida pelas empresas européias, chegou ao Brasil em 2006.
A metodologia usada para esses cálculos não tem qualquer comprovação científica.
São verdadeiras caixas-pretas - acredita Roberto Schaeffer, coordenador do Programa Energético da Coppe e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês).
Bancos investem em produtos e ações
Segundo cálculos feitos pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e adotados pelo HSBC, cada carro de grande porte e que rode cerca de 50 quilômetros por dia com gasolina produz cerca de quatro toneladas de CO2 por ano. No caso das residências, o cálculo médio de emissões de poluentes é de duas toneladas de CO2. Para compensar essas emissões, seria necessário o plantio de árvores de mata nativa de 88 metros quadrados e 44 metros quadrados, respectivamente.
- O Seguro Carbono Neutro é uma ação do HSBC em prol da sustentabilidade - conclui Marcelo Teixeira, diretor-executivo da HSBC Seguros, acrescentando que o banco lançou dois produtos (seguros de carro e casa), em meados de outubro, que consumiram investimentos de R$ 3,5 milhões.
Após investir R$ 168 milhões em ações de responsabilidade ambiental no ano passado, o Bradesco decidiu criar o Banco do Planeta. A idéia do programa é desenvolver iniciativas que ajudem no combate ao aquecimento global e que estimulem o relacionamento dos clientes com o meio ambiente. Para isso, diz a instituição, serão criados novos produtos e ações voltados para o meio ambiente.
Um dos pilares do projeto é a parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica, que já viabilizou o plantio de mais de 21,5 milhões de mudas nativas em pouco menos de duas décadas. Além disso, no fim do ano passado, o banco implantou um programa de neutralização de carbono, plantando outras 37 mil árvores para compensar a emissão de gases poluentes em sua sede.
- Com isso, poderemos organizar de maneira completa os temas relacionados à sustentabilidade. O Banco do Planeta foca nossos esforços e recursos no assunto de maior relevância deste milênio - explica Luca Cavalcanti, diretor de Marketing do Bradesco, lembrando que o banco já oferece produtos como cartões de afinidade com parte dos recursos repassada para apoiar iniciativas ambientais e linhas de créditos, como o Ecofinanciamento de Veículos e o Capital de Giro Ambiental.
Se as empresas investem, os consumidores aprovam. O aposentado Antônio Carlos Tofano é o que se pode chamar de cidadão responsável. Em sua casa, o consumo de energia elétrica é controlado, com o uso de lâmpadas frias. O lixo é separado.
Parte da coleta vai diretamente para postos de reciclagem.
- Ao abastecer meu veículo, ofereceram-me um cartão de crédito ambiental. Achei a idéia válida. Se eu posso ajudar ainda mais, vou fazer de tudo para fazer do planeta um lugar melhor para nossos filhos e netos.
Mas, claro, é importante confiar nos projetos - diz Tofano.
O Globo, 18/11/2007, Economia, p. 34
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.