OESP, Economia, p. B16
05 de Set de 2007
Empresas limitam emissões
Depois da onda de plantar árvores, companhias controlam poluição
Andrea Vialli
A prática 'carbon free' - em que empresas passaram a financiar o plantio de árvores para depois se promoverem com um marketing 'verde' - virou moda no Brasil. Mas, agora, está surgindo uma nova tendência. Aos poucos, a iniciativa privada começa a entrar num novo patamar: de fixar metas reais de redução dos gases de efeito estufa. A idéia é se antecipar a uma obrigatoriedade que poderá vir nos próximos anos, dentro do Protocolo de Kyoto, acordo internacional de combate às mudanças climáticas.
Um exemplo dessa tendência é a fabricante de cosméticos Natura, que anuncia hoje, em Cajamar (SP), sua estratégia de neutralização de gases de efeito estufa. A empresa fixou a meta de reduzir suas emissões em 33% nos próximos cinco anos, em relação aos níveis atuais, após mapear a poluição gerada nas fábricas e também ao longo da cadeia produtiva - da extração da matéria-prima até o descarte das embalagens dos cosméticos.
A cadeia de negócios da empresa foi responsável pela emissão, na atmosfera, de cerca de 270 mil toneladas de gás carbônico em 2006. Para chegar a esse número, a empresa desenvolveu um método usando uma ferramenta de cálculo de poluentes reconhecida pela ONU - o GHG Protocol - e contou também com a ajuda de uma instituição britânica, a Carbon Trust, que auxilia empresas a contabilizarem suas emissões.
'Esse modelo avalia não só as instalações industriais da empresa e seus sistemas de transporte, mas também analisa o ciclo de vida do produto, da matéria-prima ao descarte dos resíduos. Podemos dizer que não só a fábrica, mas os produtos serão neutros em carbono daqui para a frente', diz Eduardo Luppi, vice-presidente de inovação da Natura.
A neutralização dessas emissões virá, segundo Luppi, de redução das emissões nos sistemas produtivos, que já vendo sendo feitas. Um exemplo é a substituição de componentes minerais - que emitem mais carbono na sua extração - por vegetais, nas fórmulas dos cosméticos. A empresa também pretende compensar a poluição que não puder ser reduzida nos processos industriais e logísticos. Para isso, vai patrocinar projetos nas áreas de reflorestamento e energias renováveis. 'Uma das frentes é estimular os fornecedores a adotarem uma matriz energética mais limpa' , diz Luppi. No Brasil, Petrobrás, Grupo Votorantim e os bancos Bradesco, ABN Amro Real e HSBC estão entre as empresas que fazem inventário de suas emissões de poluentes.
RESSACA
De um ano para cá, houve uma onda de neutralização de carbono, que já começa a dar sinais de esgotamento. Empresas exploraram à exaustão a fórmula de plantar árvores para compensar a poluição que produziam. 'Houve muito oba-oba. Muitas empresas nos procuraram com a ilusão que plantariam uma floresta inteira com R$ 2 mil. O custo de uma só árvore é da ordem de R$ 10', afirma Adauto Basílio, diretor de captação de recursos da Fundação SOS Mata Atlântica.
Segundo Basílio, nos últimos dois meses caiu a procura por parte das empresas que querem neutralizar suas emissões. 'Talvez esse marketing já tenha se esgotado, ou as empresas estão em busca de ações mais abrangentes.' A neutralização do carbono por meio de plantio de árvores é contestada por especialistas, pois só surte efeito a longo prazo, à medida em que a árvore cresce.
Como funciona
Inventário de emissões: As empresas fazem o levantamento do quanto emitem de gases causadores do efeito estufa, por meio de ferramentas matemáticas utilizadas internacionalmente
Redução: A partir dos dados sobre o impacto de suas atividades na atmosfera, as empresas podem reduzir suas emissões de poluentes. Para isso, podem mudar a matriz energética. Podem ainda tornar seus processos de produção mais limpos, reduzindo o desperdício de matéria-prima e energia. Outra opção é fazer mudanças nas estrutura de transporte e logística
Compensação: A maior parte das empresas, no entanto, opta pelo caminho mais fácil, que é investir no plantio de árvores para compensar a poluição gerada por suas atividades. Essa alternativa, porém, não neutraliza as emissões de gás carbônico no curto prazo, pois a árvore só tira carbono da atmosfera à medida em que cresce
OESP, 05/09/2007, Economia, p. B16
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