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Empresas investem em cana transgênica

OESP, Economia, p. B4
05 de Set de 2011

Empresas investem em cana transgênica
Intenção é lançar no Brasil o primeiro produto do mundo em escala comercial

Sabrina Valle / RIO

Gigantes do setor agrícola estão investindo centenas de milhões de dólares na corrida para o lançamento, no Brasil, da primeira cana-de-açúcar transgênica do mundo em escala comercial.
Desenvolvedores prometem uma revolução, com variedades mais resistentes a pragas, à seca, com maior teor de açúcar e facilidades para produção de etanol. Segundo eles, isso pode significar uma alternativa aos recorrentes problemas de quebra de safra, que prejudicam o mercado de revenda de combustíveis.
Por causa das perdas na colheita, a partir de outubro o governo vai reduzir o porcentual de álcool misturado na gasolina de 25% para 20%. A Petrobrás, que deve importar mais de 3 milhões de litros de gasolina para suprir a demanda interna superaquecida, também entrou no páreo para a cana transgênica.
A demanda crescente fez o novo ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, determinar ao presidente da Embrapa, Pedro Arraes, que avance nas pesquisas para evitar uma redução maior da oferta de etanol no futuro. O governo também quer minimizar o quase monopólio das pesquisas por multinacionais como Monsanto e Syngenta, como na soja. "A ideia é que a Embrapa, como empresa pública, seja o fiel da balança de um mercado com presença crescente de multinacionais", diz o pesquisador da Embrapa, Hugo Molinari, que lançou recentemente a primeira variedade brasileira de cana transgênica, agora em análise.
Dianteira. Mas, na corrida, as multinacionais largaram na frente. A suíça Syngenta aplicou, desde o ano passado, US$ 100 milhões (75% já gastos) no desenvolvimento de quatro plantas de cana transgênica para o mercado brasileiro. As mudas estão prontas em laboratórios nos Estados Unidos, mas precisam vencer um processo burocrático para serem aprovadas no Brasil.
Os investimentos da Monsanto não ficam abaixo desse patamar. Custos com aplicação podem mais que dobrar as cifras. Já a Embrapa reparte, entre cinco culturas (cana, soja, milho, algodão e eucalipto), um minguado orçamento de R$ 4 milhões em pesquisa ao longo de três anos.
Hoje, estão autorizadas no Brasil as culturas transgênicas de soja, milho e algodão. No próximo dia 15, o primeiro feijão transgênico deve ser aprovado pelo Comitê Técnico Nacional de Biossegurança (CTNBio).
"A cana ficou largada por muitos anos e agora finalmente está recebendo a atenção que precisa", diz Daniel Bachner, responsável pela área de cana-de-açúcar da Syngenta.
As expectativas são de que as primeiras variedades entrem no mercado em quatro anos. A Petrobrás trabalha com esse horizonte, a Syngenta garante que a revolução no mercado não passa de cinco anos. Já a Embrapa prevê de sete a oito anos.
Há vários melhoramentos genéticos em curso. A Monsanto concentra as pesquisas em resistência a insetos e tolerância a herbicidas, o que promete maior produção de açúcar por hectare. A tecnologia do herbicida roundup já é usada na soja e no milho. "Estamos falando da mesma tecnologia, agora aplicada à cana", diz José Carlos Carramate, líder de Negócios da CanaVialis, marca de melhoramento e tecnologias em cana da Monsanto.
Entre as apostas da Syngenta estão uma variedade com um teor de açúcar na planta até 40% maior. Também se pesquisa uma variedade com modificação da parede celular da planta para facilitar a produção de etanol de celulose, de segunda geração.
A Embrapa foca na resistência à seca, considerando que a alteração climática pode levar a perdas entre 10% e 50%. "A seca do ano passado sacrificou a safra atual e também deve afetar a próxima", exemplifica Molinari.
Além da tolerância à seca e resistência a pragas e doenças, a Petrobrás Biocombustível foca suas pesquisas na cana para etanol de segunda geração. "A meta é estabelecer ganhos de produtividade numa perspectiva integrada ao conceito de biorrefinaria", disse a estatal, em nota.

ONGs reclamam de processo de aprovação

Sabrina Valle
RIO

O processo de aprovação da primeira cana-de-açúcar transgênica deve passar pelas mesmas críticas aplicadas à soja, ao milho e ao algodão. A AS-PTA, associação civil de agricultura familiar, diz que as principais promessas relativas a transgênicos, como aumento de produtividade ou redução de uso de agrotóxicos, não foram cumpridas. O assessor técnico Gabriel Fernandes cita um estudo da Union of Concerned Scientists mostrando que transgênicos não aumentaram a produtividade; outro da Embrapa Agropecuária Oeste apontando que produzir soja convencional é mais barato do que produzir a geneticamente modificada; e dados da Anvisa mostrando que depois da autorização da soja RR (Monsanto) no Brasil o consumo de herbicidas à base de glifosato (roundup) disparou. "Uma das vantagens das multinacionais é a venda casada das sementes com agrotóxicos."
A assessora jurídica da ONG Terra de Direitos, Larissa Packer, diz que faltam estudos sobre riscos ambientais e alimentares e sobre fluxo gênico. Ela afirma que as aprovações pela CTNBio têm sido ilegais, ferindo o Anexo 3 do Protocolo de Cartagena.

OESP, 05/09/2011, Economia, p. B4

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