Valor Econômico, Especial, p. A14
Autor: YPERSELE, Jean-Pascal van
02 de Set de 2015
"Emissão líquida de CO2 reduzida a zero"
O físico belga Jean-Pascal van Ypersele, de 58 anos, é vice-presidente do IPCC desde 2008. Especializado em climatologia, focou seus trabalhos nos aspectos socioeconômicos da mudança climática e na interface com o desenvolvimento - há 16 anos preside o Conselho Federal de Desenvolvimento Sustentável belga.
Van Ypersele estudou modelagem do gelo marinho e a mudança climática regional na Europa, Groenlândia e África.
Esse é o motivo de sua visita, neste mês, ao Brasil - ele estará entre os 120 especialistas de 55 países que irão participar do workshop sobre projeções climáticas regionais promovido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). "Os países terão que sentir que o acordo de Paris é justo, para que tenha chance de conseguir amplo apoio", diz, sobre o resultado da conferência da ONU em dezembro, na França.
Valor: Quais as prioridades que dará ao IPCC se for eleito?
Jean-Pascal van Ypersele : Para que continue sendo politicamente relevante, mas neutro em relação às escolhas políticas dos países, precisamos de um IPCC mais aberto e colaborativo. Como presidente, gostaria de fortalecer a inclusão: trabalharei de forma a aumentar a participação de cientistas de países em desenvolvimento nos processos do painel. Meu sonho é construir um IPCC dinâmico, onde todos se sintam realmente respeitados, as mulheres tenham um papel maior e os mais jovens se beneficiem da experiência e do rigor dos autores mais experientes.
Valor: Quais os desafios da cooperação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento nesse tema?
Van Ypersele : A cooperação científica pode se beneficiar de processos mais inclusivos do IPCC, como descrevi acima.
Valor: O que o senhor espera da conferência de Paris?
Van Ypersele : Espero que o acordo a ser adotado em Paris seja baseado na ciência, da melhor forma possível, usando de modo amplo as conclusões do último relatório do IPCC. Os países têm que achar o acordo justo. Só assim terá chance de ter muito apoio.
Valor: As eleições americanas serão mais importantes para a mudança do clima do que a CoP-21?
Van Ypersele : O IPCC não comenta eleições de seus países-membros, mas claro que o que os EUA estão fazendo em política climática é muito importante. Outros países seguem os passos dos EUA e isso representa uma parcela significativa das emissões globais. É animador ver que um número importante de iniciativas estão sendo tomadas na esfera federal, estadual e no nível local. Mas não posso fazer comentários sobre as eleições americanas.
Valor: O Brasil deveria deixar o petróleo do pré-sal no mar?
Van Ypersele : Não me cabe, como vice-presidente do IPCC, comentar decisões dos países, mas o que a ciência nos diz é que limitar os riscos da mudança do clima irá exigir que as emissões globais líquidas de CO2 das atividades humanas [da queima de combustíveis fósseis ou pelo desmatamento] sejam reduzidas a zero.
Valor: Quais as conexões entre a Amazônia e a mudança do clima?
Van Ypersele : As relações entre a floresta amazônica e o clima são complexas e a mudança do clima não é o único fator envolvido: desmatamento e incêndios florestais têm seu papel também. A temperatura irá aumentar na maioria da região, mas há incerteza ainda na evolução das chuvas e duração das secas. Há risco de a floresta mudar abruptamente para uma cobertura vegetal diferente, mais adaptada à seca e aos incêndios. Isso aumentaria os riscos à biodiversidade e poderia também lançar carbono à atmosfera. As consequências seriam grandes, mas o IPCC ainda não tem certeza na avaliação desse risco. Outro elo com o clima é o desmatamento em si: mesmo se as taxas caíram no Brasil, a mudança do uso do solo ainda é um grande contribuidor para as emissões de carbono em escala global.
Valor: O que se deve entender ao pensar na ameaça climática?
Van Ypersele : A mudança do clima ameaça as condições de habitar o planeta. Os ecossistemas mais frágeis são afetados antes, mas se a humanidade não lidar com essas questões adequadamente, todas as pessoas e os organismos vivos terão que enfrentar tempos duros. Mas, como o IPCC mostrou nos relatórios, há muitas oportunidades para integrar políticas climáticas com políticas que visam erradicar a pobreza e promover o desenvolvimento sustentável.
Valor Econômico, 02/09/2015, Especial, p. A14
http://www.valor.com.br/internacional/4206352/emissao-liquida-de-co2-re…
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