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Emergência ambiental ganha visões divergentes

O Globo, Economia, p. 38
15 de Ago de 2010

O diálogo entre economia e meio ambiente
De André Lara Resende a Delfim Netto, 15 especialistas destacam, em livro, a importância da sustentabilidade

Emanuel Alencar

Delfim Netto é contundente: "Nunca imaginei que fôssemos viver um período em que a evidência da finitude dos recursos fosse visível". André Lara Resende lamenta que talvez seja tarde demais para a recuperação do planeta.
Eduardo Gianetti acha que "estamos presos a uma corrida armamentista de consumo". Bresser Pereira ressalta a importância do ambientalismo. Foram meses de encontros, desencontros e muito bate-papo. O resultado é um registro inédito que reúne, lado a lado, pensadores econômicos engajados com a causa ambiental com estudiosos não habituados a falar sobre o assunto.
"O que os economistas pensam sobre sustentabilidade", organizado pelo jornalista Ricardo Arnt, será lançado no próximo dia 31, pela Editora 34, em São Paulo (R$ 34).
Arnt conta que levou cinco meses para encerrar todas as entrevistas com 15 economistas do mainstream - Antonio Delfim Netto, André Lara Resende, Edmar Bacha, Eduardo Giannetti, Luciano Coutinho,
Gustavo Franco, José Roberto Mendonça de Barros, José Eli da Veiga, Luiz Gonzaga Belluzzo, Maílson da Nóbrega, Aloizio Mercadante, Sérgio Besserman Vianna, Pérsio Arida, Luiz Carlos Bresser Pereira e Ricardo Abramovay.
No debate, floresta em pé e pegada ecológica
As conversas, conta o jornalista, foram de bate-pronto, o que conferiu às respostas um caráter genuíno e coloquial.
- Não deu tempo de ninguém se preparar previamente. A meu ver, isso contribuiu muito para a legitimidade da discussão. O mundo está com problema de insustentabilidade, isso é claro. Mas o tema ainda é muito difuso, sujeito às mais variadas interpretações. Não vejo, entretanto, os grandes economistas se manifestarem sobre o assunto. O papel do livro é esse: oferecer ao leitor um painel pluralista - comenta.
O organizador tentou fazer um lançamento no Rio, mas a impossibilidade de conciliar agendas foi o empecilho:
- Infelizmente não conseguimos uma data. Mas, de qualquer maneira, ele chegará a todas as livrarias.
Em 287 páginas, economistas - considerados pelo organizador como "grandes formadores de opinião" - são provocados a falar de assuntos como floresta em pé, economia de baixo carbono e pegada ecológica. Ricardo Arnt faz perguntas chaves a todos os interlocutores e vai adaptando o questionário aqui e ali, conduzindo e sendo levado.
-Aprendi uma enormidade entrevistando esses pensadores. Espero contribuir para elevar a discussão do tema - afirma o organizador.

"Emergência ambiental" ganha visões divergentes
Para Bresser, é o novo "socialismo" dos jovens. Delfim pede inteligência

Autor de 15 livros - muitos deles sobre a temática da sustentabilidade - José Eli da Veiga, professor da USP, lembra que o consenso da "emergência ambiental", que fica evidente no livro, é um fato que merece destaque. Segundo ele, em um passado não muito remoto, não era bem assim: - Olha, demorou 30 anos para uma turma admitir a importância da sustentabilidade. Economistas de esquerda e de direita diziam que era perfumaria, uma bobagem.
Essa mudança de atitude mostra que a questão é séria, ganhou a agenda mundial - diz José Eli, que participará de um debate em São Paulo, com André Lara Resende e Rubens Ricupero, no dia do lançamento do livro.
- Acredito que, no livro, temos posições de três vertentes.
Uma é a visão convencional, que diz que só se deve se preocupar com sustentabilidade quando a sociedade puder se dar ao luxo de cuidar do assunto. Há também uma visão ecológica, segundo a qual, para prosperarmos, precisamos parar de crescer. E os que defendem uma terceira via, um caminho alternativo - completa.
Já Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp, lembra que o assunto não é novo, mas que ganha peso em ano eleitoral: - O livro tem a enorme importância de esclarecer pontos ligados à sustentabilidade - afirma.
A obra traz argumentações capazes de satisfazer os mais variados pontos de vista. Tiradas bem-humoradas permeiam o bombardeio de informações. O ex-ministro da Fazenda Bresser Pereira, por exemplo, ao ser questionado se a busca pela sustentabilidade é uma moda, ideologia ou necessidade, dispara: "Acho o ambientalismo muito importante. Muitos jovens que antes se preocupavam com o socialismo e com a justiça social migraram para o ambientalismo, mas acho que deveriam ficar com os dois, seria mais razoável".
É possível conferir, também, Delfim Netto afinado com o discurso verde: "O mínimo a fazer é tomar precauções com inteligência. Precisamos de uma política para eliminar os efeitos antrópicos do aquecimento. A tecnologia pode fazer isso. Fazer o eixo da Terra girar de outra forma não pode".

O Globo, 15/08/2010, Economia, p. 38

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