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Em SP, sonho é viver sem sobressaltos

OESP, Metrópole, p. C5
16 de Mai de 2007

Em SP, sonho é viver sem sobressaltos
Pesquisa do Ibope mostra que paulistanos não têm utopia e se contentam com menos violência, poluição e miséria

Luanda Nera

O paulistano não consegue sonhar. A falta de utopias provocada pelo excesso de preocupações faz com que o desejo maior seja o fim das tragédias do dia-a-dia. A conclusão está na pesquisa qualitativa realizada pelo Ibope em abril e divulgada ontem, que também marca o lançamento do Movimento Nossa São Paulo: Outra Cidade, já apoiado por dezenas de empresas, lideranças sociais e ONGs.

Segundo Márcia Cavallari, diretora-executiva do Ibope, uma das metas era descobrir o que chamou de 'ideário comum' dos cidadãos que vivem na capital paulista. O resultado surpreendeu os pesquisadores: 'O paulistano não tem utopia. O sonho está limitado à negação do pesadelo. As pessoas querem menos violência, menos poluição, menos miséria. A satisfação aparece como o oposto das tragédias.'

Apartidário e articulado como uma grande rede, o movimento tem a meta de transformar a metrópole num lugar melhor para se viver. Para isso, conta com a ajuda da população, que será chamada a apresentar propostas que contribuam para o desenvolvimento sustentável da cidade em diferentes áreas: educação, meio ambiente, segurança, lazer e cultura, trabalho, transporte, moradia, saúde e serviços.

A pesquisa do Ibope dá subsídios para a articulação do movimento. A proposta do chamado estudo exploratório foi mapear as principais frustrações e expectativas do paulistano em relação à cidade. Foram ouvidos grupos de diversas faixas etárias e classes sociais, além de lideranças comunitárias e representantes de movimentos da sociedade civil.

Outra conclusão relevante da pesquisa do Ibope é a referência ao tempo perdido no trânsito da cidade e nas filas, que refletem a dificuldade de acesso aos serviços públicos e privados. 'O tempo entrou na lista das necessidades básicas da população. É o tirano do dia-a-dia dos paulistanos', analisa Cavallari.

Na opinião dos entrevistados, o pouco tempo livre dificulta a mobilização para as questões sociais. Individualismo, materialismo exacerbado e até narcisismo foram citados como justificativas para a acomodação. 'Os raros momentos livres que sobram entre o trabalho, o trânsito e as obrigações são usados para o cuidado com a família, com a casa e com o corpo.'

TIRANIA DO TEMPO

A violência, a tirania do tempo, a segregação em classes sociais, o desemprego, a poluição e a degradação ambiental, educação e saúde caóticas e a descontinuidade das políticas públicas são as características de São Paulo mais criticadas pelos cidadãos. 'A diversidade deve ser ressaltada em seu aspecto de mais oportunidades e acessos, e não apenas nas conseqüências negativas, desigualdade e preconceito. É isso que o paulistano quer', sintetiza Márcia Cavallari.

'Excluídos somos todos nós. Se continuar como está, São Paulo vai virar uma cidade de ninguém'. Com declarações como essa, Oded Grajew, presidente do conselho deliberativo do Instituto Ethos e idealizador do Movimento Nossa São Paulo: Outra Cidade, vem conquistando o apoio de dezenas de lideranças da sociedade civil, do universo empresarial e do poder público.

A idéia do movimento é inspirada na experiência bem-sucedida de Bogotá, na Colômbia. A cidade, de 7,5 milhões de habitantes, conseguiu reverter índices recordes de violência e conflitos sociais com o apoio da população. 'Prefeitos e ex-prefeitos estão engajados na recuperação de Bogotá. O resultado é surpreendente. Entre outras coisas, houve a priorização do espaço público e a transparência na prestação de contas à população', conta Maria Alice Setúbal, diretora-presidente da Fundação Tide Setúbal, que visitou a capital colombiana com Oded Grajew e com outros integrantes do movimento.

Em São Paulo, a idéia é fazer um acompanhamento de perto e contínuo dos indicadores e metas dos poderes executivo e legislativo municipais, visando a contribuir para a eficácia e transparência das políticas públicas. Tudo isso com a participação da sociedade civil, tanto na elaboração de propostas quanto no monitoramento dos órgãos governamentais.

'Não adianta fazer a cidade crescer, ficar mais rica. Queremos ser mais felizes, isso sim. Para isso, temos que ser parceiros do poder público, fortalecendo-o', afirma Oded Grajew. E enfatizou: 'Ninguém sabe o que esperar de cada gestão. Precisamos ter metas claras para cada região, cada subprefeitura. Não dá para traçarmos planos comuns para a cidade toda.'

Quem quiser aderir ao Movimento Nossa São Paulo deve entrar no site e preencher uma ficha. Em breve, haverá fóruns de discussão e serão emitidos informativos periódicos sobre as ações do movimento. Em um mês, o site deve estar no ar. Inspirado na experiência colombiana, vai apresentar avaliações, indicadores e pesquisas.

OESP, 16/05/2007, Metrópole, p. C5

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