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Em Quase Líquido, a fluidez do tempo

OESP, Caderno 2 p. 12
26 de Mar de 2008

Em Quase Líquido, a fluidez do tempo
A era vertiginosa e veloz é o mote dos trabalhos presentes na mostra abrigada no Itaú Cultural e na Marginal do Rio Tietê

Camila Molina

Na obra Experiência de Cinema, de Rosangela Rennó, imagens fotográficas são projetadas em uma cortina de fumaça. Dessa maneira, em segundos, cada uma das imagens da seqüência selecionada pela artista se torna fugidia e se esvai sobre o vapor - podemos apreendê-la por tão pouco tempo e por pouco a fotografia não se torna sólida (o filme, também, será feito apenas na cabeça de cada espectador e ele poderá ser diferente dependendo de quem o vê). Experiência de Cinema é uma das 22 obras, de 14 artistas, que integram a exposição Quase Líquido, que será inaugurada hoje para convidados e amanhã para o público no Itaú Cultural. Com curadoria de Cauê Alves, a mostra trata das idéias tão presentes na simbologia do estado líquido. 'Ele pressupõe a inconstância, a mobilidade e a fluidez', define o curador.

É a passagem do tempo, enfim, a tônica da grande maioria das obras presentes na exposição - basta lembrar a frase de Heráclito: 'tudo flui como um rio', ou a passagem da citação dela por Platão: 'todas as coisas passam e nada permanece e, comparando os entes ao fluxo de um rio, você não pode entrar duas vezes no mesmo rio'. Na Experiência de Cinema, de Rosangela Rennó, a imagem é efêmera assim como no vídeo Inventário das Pequenas Mortes (Sopro), de Rivane Neuenschwander e Cao Guimarães, é a vida da bolha de sabão que flutua durante cinco minutos pelo ar. Mas há também outras passagens, como a do tempo que corrói construções, registradas nas fotografias da série Súbitas Paisagens, de Rubens Mano; ou da cidade que fica na memória, como nas Vitrines de Ana Maria Tavares, que guardam imagens antigas do Rio de Janeiro.

A base do conceito da exposição foi o livro Modernidade Líquida, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. 'O momento atual, segundo ele, seria uma era em que o poder é exercido de modo evasivo, escorregadio e flexível. Os celulares, a internet sem fio e todo o mundo portátil e leve associado aos equipamentos de comunicação estão entre os responsáveis pela aceleração vertiginosa do tempo', afirma Cauê Alves. 'Lendo o livro percebi também que algumas das noções que ele coloca como presentes no mundo atual não funcionam muito bem aqui no Brasil. Fizemos um passeio pelo Rio Tietê,o que foi importante. O estado desse rio é emblemático de nossa situação urbana e de nosso estado de modernização inconseqüente', completa o curador.

Segundo Alves, houve no País, principalmente, na década de 1950, apenas uma 'utopia de transformação' - a vontade de 'atingirmos uma nação desenvolvida.' A mostra, dessa maneira, parte da 'constatação de certas contradições de nosso processo de modernização e de reconhecer que a situação está insustentável. Basta passar na Marginal Tietê em horário de pico', diz o curador - segundo ele, a própria consistência do Tietê, 'quase líquida, gelatinosa', serviu de inspiração para o título da exposição.

Tanto que uma das instalações que fazem parte da exposição, criada pelo artista Eduardo Srur, está abrigada no próprio Tietê, entre as pontes do Limão e da Casa Verde, zona norte de São Paulo. Preocupado em denunciar a poluição, Srur colocou 20 grandes esculturas de vinil, coloridas e que remetem a gigantescas garrafas PET, em uma extensão de 1,5 quilômetro das margens do rio. À noite, as esculturas ficam acesas. 'Seu trabalho é direto, como um outdoor, e provoca uma reflexão', afirma Alves - a obra não foi concebida especialmente para a exposição, era um projeto que já existia e que foi acoplado.

Mas, enfim, não é o tom de denúncia que prevalece nas obras da exposição. As obras que lidam com o tempo se fazem pelo caminho mais do s poético e fluido e a cidade ou a aproximação mais evidente com as questões urbanas estão presentes em trabalhos como o de Zezão (registros de seus grafites azuis nos esgotos, córregos e bueiros de São Paulo), da dupla Louise Ganz e Tatiana Ferraz, de Ricardo Basbaum, do catalão Martí Peran e de Débora Bolsoni.

Serviço
Quase Líquido e H2Olhos. Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, tels. 2168-1776/1777. 3.ª a 6.ª, 10 h às 21 h (sáb. e dom. até 19 h). Grátis. Agendamento para embarcação que percorre a obra de Eduardo Srur no Rio Tietê pelo tel. 5094-4480. Até 25/5. Abertura hoje, para convidados

OESP, 26/03/2008, Caderno 2 p. 12

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