Agencia Barsil
Autor: Marcela Rebelo
16 de Jul de 2007
Em Nova Espera, quilombolas aguardam políticas "saírem do papel"
Marcela Rebelo
Enviada Especial*
Alcântara (MA) - Como se trata de política para pobre e negro, tem muito preconceito, teoriza o coordenador-geral do Movimento dos Atingidos pela Base Espacial (Mabe), Inaldo Faustino Silva. "Demora mais para sair do papel". A 20 quilômetros do Centro de Lançamento de Alcântara, principal obra do programa espacial brasileiro, a Agrovila Nova Espera não tem água ou esgoto. Lá vivem as famílias, remanescentes de quilombos, que foram retiradas para a construção da base.
Metade do orçamento destinado a políticas públicas nas comunidades quilombolas não foi utilizado nos últimos três anos, segundo levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc). A ministra da Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Matilde Ribeiro, reconhece o problema e afirma que ele é causado por combinação de vários fatores.
O Centro de Lançamanto afirma ter mais de 80 contratos em andamento - em áreas como manutenção de infra-estrutura - que empregam a população local das agrovilas e das cidades. Mas esses programas, e até os de transferência de renda mantidos pelo governo federal, são criticados pelo movimento. "Queremos ter a dignidade de, com o nosso próprio suor, colocar o sustento para nossos filhos. Até porque não nos sentimos incapazes e sim impossibilitados de fazer com que isso aconteça", defende Inaldo Silva. "As comunidades hoje estão inviáveis de conseguir o seu próprio sustento".
A falta de acesso à água, as más condições do solo e a maior distância do mar, fonte de pesca, são os principais problemas da área para a qual foram deslocados os quilombolas. Não queria sair de lá não, porque tudo era mais fácil. Era o babaçu, era a água. A água aqui ou vai buscar em uma distância imensa ou então tem que pagar, lamenta João Batista, um dos agricultores que vivem em Nova Espera. . Sem pesca, João Barroso, outro morador, tira seu sustento do arroz plantado na pequena área cedida pela Aeronáutica e da aposentadoria de um salário mínimo. Aqui é difícil a pescaria e a alimentação, porque lá a gente pescava e não comprava. E aqui tudo é comprado, afirma. Além da distância do mar, os moradores criticam a proibição de pesca durante os períodos de lançamento, que não é acompanhada de nenhuma contrapartida pelo governo.
Além dos problemas práticos, Nova Espera convive com outro obstáculo, segundo Inaldo Silva. O desalento provocado por mais de 20 anos de inércia. "[Os moradores] se acham inválidos, não por saúde, mas por fracasso. No caso de Inaldo Silva, as desilusões começaram aos 26 anos, quando tiveram início as negociações para transferência de local. "Na época, como era muito jovem, a gente acreditava que alguma coisa pudesse mudar para melhor. Porque houve uma negociação e a gente passou a acreditar que a negociação fosse ser cumprida e dar um impulso a essas comunidades. Mas não foi isso que aconteceu, afirma.
Em agosto de 2004, o governo federal criou um grupo interministerial para criar políticas para as comunidades quilombolas de Alcântara. Esse grupo é responsável por atividades voltadas ao desenvolvimento local e sustentável e à regularização fundiária, explicou o diretor do Centro de Lançamento de Alcântara, Rogério Veríssimo.
O coordenador do Mabe reconhece o esforço do governo em criar o grupo, mas diz que poucas ações foram concretizadas. Isso tudo é fruto de uma luta e de uma grande discussão, disse Inaldo Silva. Enquanto as ações não saem do papel, seu João Batista continuará vivendo da roça e dos R$ 50 que recebe dos programas de transferência de renda do governo federal. Todo dia levanto, faço meu café, amolo meu facão e toco pra roça.
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