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Em nome de Chico Mendes

Valor Econômico, EU&Fim de Semana, p. 26-27
11 de Dez de 2015

Em nome de Chico Mendes

John Lyons

O seringueiro Chico Mendes tornou-se um ícone do movimento ambientalista mundial depois que foi morto, em 1988, enquanto defendia sua terra natal, a Amazônia. O que menos gente sabe é que seus assassinos, o fazendeiro Darly Alves e o filho dele, Darci, poderiam ter escapado, não fosse o depoimento de um adolescente que vivia na fazenda deles na época. O rapaz, Genésio Ferreira da Silva, quase não pôde participar do julgamento. Recebeu ameaças de morte depois de ter concordado em testemunhar contra os fazendeiros. Mas um jornalista brasileiro fez de tudo para protegê-lo e, em 1990, Ferreira da Silva disse, num tribunal lotado no Acre, que tinha presenciado os Alves planejando o assassinato de Mendes. Pai e filho foram condenados a 19 anos de prisão.
Depois do julgamento, Ferreira da Silva viveu um rápido momento de fama. Foi retratado no filme para televisão "Amazônia em Chamas", de 1994. Depois, caiu no esquecimento - até agora.
Ferreira da Silva, que hoje está com 40 anos, é solteiro e mora em Rio Branco, publicou recentemente um improvável livro de memórias, "Pássaro Sem Rumo". O livro oferece uma nova visão dos bastidores do assassinato de Chico Mendes. A narrativa franca também capta a violência banal que reinava na fronteira amazônica nos anos 80 e que ainda assola partes da região.
O livro de memórias foi publicado pelo Instituto Vladimir Herzog, que é sediado em São Paulo e defende jornalistas e os direitos humanos. Os editores esperam traduzir o livro para o inglês e o espanhol.
"Tive uma vida dura, mas sempre acreditei que teria uma chance de contar minha história", disse Ferreira da Silva, que esteve no Rio de Janeiro recentemente para um pequeno evento de lançamento do livro, o qual atraiu expoentes da Amazônia, como a ex-candidata a presidente e ativista ambiental Marina Silva. No palco, Marina segurou a mão de Ferreira da Silva em todos os momentos em que ele se emocionou.
Os riscos que Ferreira da Silva enfrentou ao testemunhar foram enormes. Na época, era comum que fazendeiros da Amazônia empregassem homens armados para resolver disputas. Os Alves mataram Mendes porque ele estava organizando barreiras humanas para impedir que os pecuaristas queimassem a floresta para expandir seus pastos. Mas Mendes não foi o primeiro - nem o último - ativista morto na Amazônia. Os Alves foram julgados, em parte, devido à pressão internacional.
Quando chegou à fazenda dos Alves, aos sete anos, Ferreira da Silva era um menino pobre, que não ia à escola e vivia sob os cuidados de uma irmã que se casou com um membro da família dos fazendeiros.
Dois de seus amigos da fazenda foram assassinados, um deles por roubar pesticida de uma propriedade vizinha, ele escreve no livro.
Mas Ferreira da Silva também aprendeu a amansar cavalos e a trabalhar com o gado. No seu aniversário de 13 anos, a família lhe deu de presente uma pistola e munição, símbolos de se tornar adulto na vida brutal de um trabalhador de fazenda na Amazônia. Depois daquilo, escreveu, ia para a cidade armado, como os homens da família Alves.
Naquele mesmo ano, Darci Alves atiraria em Mendes, seguindo ordens de seu pai, Darly. Logo depois, a mãe de Ferreira da Silva o convenceu a testemunhar contra a família. As ameaças de morte começaram a circular e ele se refugiou na delegacia de polícia de Xapuri, cidade do Acre onde ocorreu o assassinato.
"Quando cheguei a Xapuri, a primeira coisa que vi foi esse menino sentado na escada da delegacia de polícia e perguntei quem ele era", diz o jornalista Zuenir Ventura, de 84 anos, que cobriu o assassinato de Mendes para o "Jornal do Brasil". O delegado disse a Zuenir que se sentia impotente para evitar o que parecia inevitável: que homens armados solidários à família Alves matassem o menino. "Tive que decidir entre escrever sobre outra morte ou tentar salvar uma vida", diz Zuenir. Então, com autorização da mãe do adolescente, ele o levou para morar com sua família no Rio de Janeiro. Mas essa história não termina como um conto de fadas. Mesmo depois do julgamento, era muito perigoso para Ferreira da Silva voltar para casa, na Amazônia, e ele ficou sob a guarda de Zuenir até completar 21 anos.
Com a permissão de um juiz, Zuenir levou Ferreira da Silva de avião para um quartel do Exército na Amazônia, onde acreditava que o menino estaria seguro. Mas o comandante do quartel informou ao jornalista que temia que o menino pudesse ser assassinado ali também.
Para um menino criado para carregar uma arma, a transição para a vida no Rio de Janeiro foi chocante.
Ferreira da Silva diz ter sido expulso de escolas e ter bebido demais. Na esperança de que uma mudança de ambiente pudesse ajudar, foi transferido para uma escola rural católica, mas, mais uma vez, teve problemas. Quando completou 21 anos, Ferreira da Silva pegou uma pequena quantia em dinheiro que Zuenir tinha guardado para ele, fruto da venda dos direitos para um filme. Contra a vontade de Zuenir, Ferreira da Silva voltou para o mundo que melhor conhecia, a fronteira amazônica.
Aos poucos, foram perdendo contato. Anos se passaram e, em 2014, Zuenir e um grupo de amigos foram à procura dele, encontrando-o em uma cidade não muito longe do lugar onde Mendes foi assassinado.
Ferreira da Silva ficou um pouco envergonhado, diz agora, por causa do estado em que vivia. Tinha gastado todo o seu dinheiro e lutava contra o alcoolismo. Também tinha escrito um livro, preenchendo quase 400 páginas de um caderno, frente e verso. Deu o manuscrito a Zuenir e aos amigos, que ficaram impressionados com seus relatos pessoais e sua maneira direta.
Elson Marins, jornalista que trabalha na Amazônia e que também cobriu o julgamento dos Alves, ajudou a editar o livro de memórias. "O importante era torná-lo legível, mas manter intacta a linguagem crua e rural de Genésio", diz. Cada capítulo tem uma amostra do manuscrito original de Ferreira da Silva.

Valor Econômico, 11/12/2015, EU&Fim de Semana, p. 26-27

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