O Globo, Economia, p. 33
22 de Dez de 2007
Em dez anos, lavouras crescem 275% no Norte
Fronteira agrícola avança sobre Amazônia. Pastagens também crescem na região. No Brasil, plantio aumentou 83,5%
Cássia Almeida
A agricultura e a pecuária avançam na Região Norte, ocupando áreas de mata. Essa foi uma das principais constatações do Censo Agropecuário, primeiro grande levantamento sobre o setor em dez anos, divulgado ontem pelo IBGE. O crescimento da fronteira agrícola foi de 275,6% na Região Norte e respondeu por 15% de toda a alta na área plantada do Brasil, que foi de 83,5%. Considerando a Amazônia Legal, a participação da região no avanço da fronteira agrícola foi de 36%, com mais de 12 milhões de hectares anexados ao plantio.
A área de pastagens perdeu espaço no Brasil, mas não na Região Norte. Lá, mais 8,2 milhões de hectares foram acrescentados às pastagens em dez anos, numa expansão de 33,8%, enquanto no Brasil, a área foi reduzida em 3%.
- Tanto o censo como a contagem da população (também divulgada ontem pelo IBGE) mostram um fluxo econômico e populacional para essas áreas (da Região Norte). É importante adotar políticas preventivas para evitar o desmatamento e garantir um crescimento sustentável - alertou o presidente do IBGE, Eduardo Nunes.
Área de matas cresceu fora da Região Norte
O censo mostrou o real tamanho dessa atividade econômica. As estatísticas anteriores não captavam o avanço da agropecuária no período em que ela mais cresceu.
- Não podemos esquecer que, no fim da década de 90, havia um déficit nas contas externas de US$ 10 bilhões. Graças ao desempenho da agropecuária, isso mudou. E as estatísticas não retratavam isso - disse Nunes.
O comportamento do setor no restante do país foi diferente da tendência verificada na Região Norte. As lavouras ganharam espaço, mas ocupando áreas de pastagens. E as matas cresceram, por força do reflorestamento, segundo Antonio Florido, gerente do censo: - Sem dúvida, já estamos vendo ocupações em floresta.
Em Rondônia, isso é claro. Em 1996, a ocupação limitava-se ao entorno da rodovia. O restante é área de proteção ambiental e terra indígena. Quer dizer, era área protegida. Agora está tomada pela agropecuária.
Segundo o economista Fábio Silveira, da RC Consultores, o censo permitirá estabelecer melhor a aplicação dos recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) na infra-estrutura necessária ao agronegócio.
Temíamos que a malha rodoviária não fosse devidamente compatibilizada com o avanço econômico.
Para ele, houve uma revolução silenciosa na agropecuária brasileira, com uma vantagem comparativa sem par no mundo. Atualmente, são 5,2 milhões de fazendas no Brasil, numa alta de 7,1% frente a 96.
Rebanho bovino pode superar 180 milhões
Os resultados preliminares do censo dão conta de que o rebanho bovino é de 169,9 milhões de cabeças, o que representa quase um boi para cada brasileiro. Mais exatamente, 0,92 boi por cidadão.
Porém, essa proporção poderá passar de uma cabeça de gado para cada um dos 183,9 milhões de brasileiros: - Ainda estamos esperando resposta de 4 mil estabelecimentos, em sua maioria grandes. Devemos chegar a um rebanho de 180 milhões ou mais diz Florido.
O aumento no rebanho bovino foi de 11%. Enquanto isso, o número de suínos cresceu 14,9% de 1996 a 2006, somando 31,9 milhões de cabeças.
- A pecuária brasileira ganhou eficiência, pois o rebanho aumentou, e a área de pastagens diminuiu. Estão intensificando a pecuária, criando mais bois em menos espaço ou confinados.
A maior alta aconteceu entre as aves. O crescimento foi de 73,2%, somando 1,2 milhão de franguinhos.
Só 8,9% dos brasileiros produzem alimentos
Atividade perdeu 1,5 milhão de trabalhadores em 10 anos. Agricultura familiar ganha espaço
Letícia Lins e Cássia Almeida
Somente 8,9% da população brasileira produzem toda a comida que o Brasil consome. Isso representa 16,4 milhões de pessoas trabalhando no campo. Número que vem se mantendo praticamente estável em 36 anos, de acordo com o Censo Agropecuário, divulgado ontem pelo IBGE.
- Como o número de trabalhadores vem se mantendo no mesmo nível e a população, crescendo, essa proporção vem caindo de ano a ano - explica Antonio Florido, gerente da pesquisa.
Em 1970, a parcela de trabalhadores para trazer comida para a mesa do brasileiro era mais que o dobro: 18,8%.
A mecanização crescente no campo e o processo de urbanização explicam o fenômeno que mudou a vida de um grupo de ex-cortadores de cana no Recife. Eles nasceram no campo, trabalharam na lavoura, foram expulsos dos engenhos, perderam empregos, viraram sem-terra e terminaram sem-teto. Carlos dos Santos Silva, de 49 anos, e outros 11 trabalhadores vivem hoje às margens da Avenida Recife, na capital pernambucana. Engrossam um contingente de 150 mil pessoas que perderam seus postos de trabalho a partir da década de 90, quando 17 usinas encerraram suas atividades na região canavieira de Pernambuco.
- Já fui cortador de cana, cambiteiro, carreteiro. Eu num engenho faço tudo, mas hoje vivo na pobreza, de biscate -diz Carlos Santos da Silva.
Essa redução no contingente de trabalhadores agrícolas foi dimensionada nos dados do censo. A população ocupada no campo caiu 8,5%. Houve queda de 1,516 milhão de trabalhadores na atividade.
De acordo com Florido, do IBGE, outra mudança no mercado de trabalho agrícola foi o aumento da participação da agricultura familiar. Em 1996, data do censo anterior, representavam 72% da mão-de-obra no campo. Em 2006, essa participação subiu para 78%: - No Nordeste, isso foi mais forte. Os assentamentos ocuparam áreas abandonadas da usinas de cana.
No lugar da cana-de-açúcar, roçado de hortaliças
O casal Severino Soares de Lima, de 34 anos, e Silvânia Alves dos Santos, de 29 anos, tem um passado nos canaviais.
Mas vive hoje de forma bem diferente em Vitória de Santo Antão, Pernambuco. Severino e Silvânia são filhos de pais que trabalhavam em canaviais, mas abandonaram os engenhos para viver de seus próprios roçados. Por mês, eles ganham mais de um salário mínimo com hortaliças vendidas em feiras de municípios vizinhos. A cana não dá futuro não - afirma Severino.
Um milhão em trabalho sazonal
Mais de 1 milhão de trabalhadores viajam pelo Brasil em busca de trabalho nas fazendas, ocupados em empreitadas temporárias durante as colheitas. São usados, principalmente, na lavoura de cana-de-açúcar.
Segundo Antonio Florido, gerente do Censo Agropecuário do IBGE, a pesquisa não capta os trabalhadores contratados por essa via. Mas, comparando os dados do Censo com os de outro levantamento do IBGE, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), há uma diferença de cerca de um milhão de ocupados. Esses seriam os trabalhadores volantes.
- Esse contingente são os empregados sazonais, que seguem as safras, viajando pelo Brasil com os empreiteiros - explica Florido. (C.A.)
O Globo, 22/12/2007, Economia, p. 33
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