O Globo, Ciência, p. 27
30 de Abr de 2013
Em defesa das abelhas
Europa proíbe pesticida ligado à mortandade de insetos para evitar crise na agricultura
DUILO VICTOR
duilo.victor@oglobo.com.br
A Comissão Europeia proibiu ontem, por dois anos, o uso de três dos pesticidas mais usados no mundo, todos à base de neonicotinoides. A decisão foi motivada pelo temor de que a substância, no mercado desde os anos 90, ponha em risco a sobrevivência das abelhas do continente. Não se trata apenas de defender a espécie, mas também a agroindústria. O inseto é polinizador de muitas culturas cultivadas comercialmente na Europa, sobretudo de frutas. No Brasil, a substância pode ser usada, mas com restrições. A Comissão Europeia propôs a proibição em janeiro, depois do parecer de cientistas europeus sobre o risco agudo do pesticida na população de abelhas.
A Comissão de Meio Ambiente do Parlamento britânico, por exemplo, assegura que pelo menos 60% das espécies do inseto tiveram sua população reduzida. Os neonicotinoides são mais eficientes do que outros agrotóxicos no controle de pragas - produzidos principalmente pela alemã Bayer e a Syngenta, da Suíça -, mas cobram um preço ambiental alto. Eles afetam o sistema nervoso de insetos polinizadores, o que restringe a área de atuação da espécie e, assim, o rendimento de diversas culturas. Resíduos de agrotóxico foram encontrados em plantações de girassol, algodão e milho, onde as abelhas são comuns.
COLAPSO DAS ABELHAS
Nos EUA, a destruição das colmeias atingiu 23% de todas as criações entre 2006 e 2007. Na União Europeia o estudo "A saúde das abelhas melíferas", de 2011, informa que a média anual de baixas nas colmeias chegou a 30%, quando a mortalidade natural é de 10%. O uso de pesticidas seria o motivo. No lado oposto, fabricantes de pesticidas e alguns cientistas dizem que nenhuma ligação foi comprovada entre o uso dos neonicotinoides e o acentuado declínio no número de abelhas na Europa nos últimos anos, fenômeno conhecido como "colapso das abelhas". De acordo com a Confederação Brasileira de Apicultores (CBA), a agroindústria tem um ganho de 20% em sua produção por causa da polinização natural de abelhas e aves. No Brasil, desde o ano passado, o IBAMA e o Ministério da Agricultura estabeleceram regras para o uso de pesticidas à base de neonicotinoides. A aplicação dos agrotóxicos Imidacloprido, Tiametoxam, Clotianidina e Fipronil - apenas o último não está entre os proibidos na Europa - não pode ser feita por aviões agrícolas, salvo algumas exceções válidas excepcionalmente até junho: culturas de algodão, soja, cana-de-açúcar, trigo e arroz. Nestes casos, o pesticida é permitido, desde que se respeite o período de visitação das abelhas e que apicultores da região afetada sejam comunicados com antecedência. Cristiano João Arioli, agrônomo pesquisador do efeito de pesticidas em abelhas na Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), explica que o composto químico, à base de nicotina sintética, não mata diretamente a abelha, mas desorienta o inseto. Quando entra em contato com a substância, o sistema nervoso da abelha deixa de reconhecer o caminho de volta para a colmeia. Desfalcada de parte de sua comunidade, as abelhas que restam na colmeia ficam mais suscetíveis a estresse e vulneráveis a pragas e infecções. - Não dá para saber precisamente o impacto de uma suposta ausência, mas é possível dizer que haveria um colapso na produção de alimentos sem o efeito polinizador das abelhas - diz o agrônomo. - Claro que, sem os agroquímicos, não teríamos a produção de alimentos que temos hoje, mas é necessário um equilíbrio. O especialista pondera que o efeito deste tipo de pesticida ainda não foi estudado de forma suficiente no Brasil. Em nosso território predominam as abelhas híbridas, uma mistura entre espécies europeias e africanas. As espécies de abelhas brasileiras são responsáveis, inclusive, pela polinização de forragens usadas na agropecuária. Ontem, na Europa, 15 países da UE votaram a favor - dois a mais que a última vez que os governos votaram sobre a questão, em março -, mas eles não conseguiram alcançar a maioria necessária para adotar a proibição total e, por isso, a decisão passou à Comissão Europeia. A proibição se aplica ao uso de neonicotinoides em todas as culturas, exceto em cereais de inverno e plantas não atraentes para as abelhas, como a beterraba sacarina. - A decisão na Europa tem que ser o ponto de partida para que tenhamos uma proibição deste tipo no Brasil. Para um país que tem o agronegócio como uma das bases da economia, usar neonicotinoides é um tiro no pé - disse José Cunha, presidente da CBA.
Números
60% DAS ESPÉCIES DE ABELHAS do Reino Unido tiveram redução de suas populações, segundo o Parlamento britânico
30% É A MÉDIA ANUAL de mortalidade das colmeias na Europa
O OUTRO LADO
INDÚSTRIA REAGE À PROIBIÇÃO
A indústria de pesticidas já reagiu. A Bayer, uma das principais produtoras de neonicotinoides, lançou um comunicado ontem em que chama a decisão da Comissão Europeia de "draconiana". De acordo com a companhia, a proibição recai em uma "interpretação conservadora" do princípio da precaução e representa uma chance perdida de alcançar uma justa e "proporcional solução". Quando surgiu a proposta de banir a substância, em janeiro, a mesma empresa já havia se manifestado contra a acusação de que o produto seria a causa da mortandade de abelhas. Segundo a Bayer, a redução na população de abelhas se dá principalmente pela ação de um parasita, a "Varroa mite". Mas pesquisadores questionam se a ação deste parasita ocorre a partir da fragilização das colmeias afetadas pelo agrotóxico. De acordo com especialistas, os pesticidas feitos com base na nicotina sintética agem no sistema nervoso de insetos, mas oferecem, segundo especialistas, uma menor ameaça à saúde de mamíferos e ao ambiente que outros tipos de agrotóxicos. Isso ocorre porque a concentração de veneno usada para o efeito pesticida é cerca de um quinto da aplicada em produtos com outros princípios ativos. No entanto, são solúveis em água, o que significa que podem se infiltrar no solo e de lá para sistemas aquáticos subterrâneos, onde sua composição química compromete outras formas de vida. Nos EUA, os níveis mais elevados de contaminação foram registrados na Califórnia. No entanto, alguns países europeus, como a Holanda, têm índices ainda maiores. Já um estudo contratado pela Conservação de Aves Americanas (ABC, na sigla em inglês), de Pierre Mineau, um dos toxicologistas mais conhecidos do mundo, para compilar 200 estudos relacionados a neonicotinoides, afirma que "um grão de milho revestido com o composto é suficiente para matar um pássaro".
O Globo, 30/04/2013, Ciência, p. 27
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