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Em defesa da Amazonia

CB, Brasil, p.11
03 de nov de 2004

Em defesa da Amazônia
Trezentos oficiais do Exército participam desde ontem de ação para proteger o maior patrimônio natural brasileiro de possível invasão

O Comando Militar da Amazônia iniciou ontem a Operação Ajuricaba III, manobra para treinar militares do Exército brasileiro na execução de operações de defesa da Amazônia, além de estabelecer atualização dos planejamentos operacionais para o emprego de forças na região. A operação vai até 15 de novembro. A ação começa pelo município de Nova Timboteua, nordeste do Pará. Ao todo, 300 oficiais participam do treinamento.
Esta operação é uma preparação para uma outra maior, que vai acontecer no ano que vem e deve envolver toda a tropa, explicou o Major Falcão. O exercício militar tem a participação de comandos e tropas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e contará com apoio da Marinha do Brasil e da Força Aérea Brasileira. Sua execução permitirá a avaliação de procedimentos operacionais em áreas urbanas e rurais, controle de deslocamento terrestre, comando, inteligência, assuntos civis, apoio logístico e comunicações.
O nome da operação é uma homenagem ao índio Ajuricaba, chefe da tribo Manaés, que, no século 18, resistiu à tentativa portuguesa de escravizar a população indígena na Amazônia. Depois de muita resistência, Ajuricaba foi aprisionado e, ao ser conduzido para Belém, onde seria julgado, preferiu a morte à escravidão, jogando-se, ainda acorrentado, às águas do rio Amazonas.
Contra os EUA
A Operação Ajuricaba tem como objetivo preparar o Brasil para uma possível invasão da Amazônia por estrangeiros, conforme revelou o Estado de Minas em 10 de outubro deste ano. As Forças Armadas não admitem oficialmente, mas o perfil do invasor — um país militarmente muito mais forte — e o conhecido interesse norte-americano pela Amazônia indicam que os Estados Unidos são o inimigo hipotético.
A operação é do Exército, com apoio da Marinha e da Aeronáutica, e já teve duas etapas. A primeira foi no fim de 2002, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, e serviu para colher informações sobre a região. Na segunda etapa, ocorrida em novembro de 2003, foi feita uma simulação de combate.
O número de homens e o equipamento empregados na Operação Ajuricaba II mostram como a ameaça de invasão da Amazônia é levada a sério pelos militares brasileiros. O exercício envolveu três mil soldados, 35 aviões, 170 embarcações e 200 veículos de combate terrestre.

Mudança de orientação
A preparação para defender a Amazônia de uma invasão dos Estados Unidos reflete uma mudança de orientação das Forças Armadas do Brasil, iniciada em meados dos anos 80. Por mais de um século, os militares brasileiros alimentaram a hipótese de uma guerra com a Argentina.
A redemocratização do país vizinho, em 1985, e o início de uma parceria que resultou na criação do Mercosul fizeram com que as Forças Armadas mudassem o foco do planejamento militar e passassem a reforçar a segurança da Amazônia. Parte das tropas estacionadas na região Sul foram transferidas para o Norte. Os argentinos deixaram o posto de inimigo hipotético, agora ocupado pelos norte-americanos.
O planejamento das Forças Armadas brasileiras para a hipotética guerra na Amazônia prevê a transformação da região em um novo Vietnã. Assim como ocorreu no país asiático, nas décadas de 60 e 70, uma invasão norte-americana resultaria no confronto entre duas forças militares desiguais.
Por isso, os militares brasileiros planejam reproduzir, se necessário, a estratégia utilizada pelos vietnamitas, ou seja, minar o inimigo com o prolongamento do conflito, táticas de guerrilha.
Na simulação realizada em 2003, os invasores foram chamados de Partido Vermelho e representados por tropas de Goiás, Pernambuco, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro. Militares baseados nos estados da Amazônia, muitos deles de origem indígena, formaram o Partido Azul, que representou os brasileiros. A operação foi realizada em seis estados (Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Amapá e Acre), numa área de 2,6 milhões de quilômetros quadrados.

CB, 03/11/2004, p. 11

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