OESP, Vida, p. A20
29 de Jan de 2008
Em Cumaru, devastação chega aos morros
Sem a proteção das raízes das plantas, encostas registram deslizamentos
João Domingos
Cumaru do Norte (PA) - A 1.079 quilômetros ao sul de Belém, o município de Cumaru do Norte registra um tipo de desmatamento incomum. A derrubada da mata está chegando aos cumes dos morros. Sem a proteção das raízes das plantas, o deslizamento de encostas já começou. Por terra ou por ar é possível verificar o desmoronamento do topo de pequenos morros. O desmate nas margens de riachos e igarapés também é visível.
O município de Cumaru foi incluído na lista dos 36 que mais desmataram no ano passado. Em conseqüência, o governo federal anunciou na semana passada que cortará o crédito agrícola para fazendeiros e agricultores envolvidos em crimes ambientais. Acontece que a maioria dos grandes proprietários de terra do município nem mora na região. São empresários do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Chegaram para levar o gado bovino à Amazônia.
De acordo com a prefeitura de Cumaru, só nos últimos quatro anos, 35 grandes fazendeiros compraram terras de áreas superiores a mil alqueires goianos (cerca de 4.850 hectares). Calcula-se que, só ali, a pecuária já tenha levado para os pastos, no meio da floresta, pelo menos 1 milhão de cabeças de gado. Ao contrário de municípios vizinhos, o de Cumaru é praticamente um grande pasto. De vez em quando aparecem áreas de florestas.
Há clareiras abertas na mata que ainda mostram a violência cometida contra as castanheiras. Deixadas em pé, tornaram-se frágeis e morreram. As queimadas também ajudaram a matar as árvores. Ao contrário das espécies do cerrado, as castanheiras não desenvolveram a casca grossa para se proteger das queimadas. Também é possível ver grandes áreas derrubadas recentemente. O sul do Pará, onde fica Cumaru, tem outros municípios que também constam da lista dos que mais desmataram. Santana do Araguaia, São Félix do Xingu e Santa Maria das Barreiras. Ficam distantes uns dos outros.
MODO DE OPERAR
De acordo com informações de moradores da cidade de Cumaru, o desmate dos pecuaristas é feito com imensos tratores C-145, numa rapidez capaz de enganar os satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Às vezes, eles usam até seis tratores de uma única vez, o que põe a mata abaixo rapidamente. Nesse método, ligam-se os tratores por correntes e, numa velocidade igual e constante, derrubam-se as árvores pela raiz. Está feito o desmatamento.
Como tem chovido muito na região, no momento não há tratores derrubando a mata. Eles correm o risco de atolar.
OESP, 29/01/2008, Vida, p. A20
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