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Em 650 mil anos, nunca houve tanto CO2 na atmosfera

OESP, Vida, p. A21
25 de Nov de 2005

Em 650 mil anos, nunca houve tanto CO2 na atmosfera
Estudo feito com coluna de gelo tirada da Antártida mostra a altíssima concentração de um dos gases do efeito estufa

Cristina Amorim

Hoje existe mais gás carbônico na atmosfera do que em qualquer momento nos últimos 650 mil anos. A conclusão foi tirada após pesquisadores europeus analisarem uma coluna de gelo de mais de 2 mil metros, tirada da Antártida, onde ficaram presas amostras microscópicas do ar ao longo da história.
O nível atual do CO2 é de 380 partes por milhão, índice 27% mais alto que o outro pico do período, que aconteceu dezenas de milhares de anos atrás. A taxa elevada provoca o efeito estufa, processo físico que prende o calor na Terra, impedindo sua fuga para o espaço e elevando a temperatura média global do planeta. A quantidade de metano, outro gás envolvido no problema, é 130% mais alta.
Os dados são publicados hoje na revista científica Science (www.sciencemag.org) e precede as discussões que serão realizadas na próxima semana no Canadá, durante a 11ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança Climática. Será a primeira reunião ambiental de peso após a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto, que prevê a redução da emissão dos gases que causam o efeito estufa.
Agora os pesquisadores têm um longo período para o estudo climático, com o registro de oito ciclos glaciares. Será possível determinar com mais segurança como o homem influencia o clima. "Ficamos mais cientes sobre a flutuação natural (destes gases)", explica Thomas Stocker, da Universidade de Berna, na Suíça, principal autor da pesquisa.
Os dados devem ser usados para refutar a opinião dos "céticos ambientais", representados pela Casa Branca. Segundo eles, o aquecimento que a Terra passa hoje é uma conseqüência de um processo natural não provocado por carros, indústria ou usinas de queima de carvão.
A descoberta também fornece evidências para outra teoria refutada pelos céticos. Segundo o cientista William Ruddiman, da Universidade de Virgínia (EUA), as atividades humanas nos últimos 5 mil anos atrasaram o início da próxima era glacial.
As eras glaciais são períodos que ocorreram periódica e naturalmente na história do planeta: cai a concentração de gases do efeito estufa e uma boa parte da superfície terrestre é coberta por gelo. A última terminou há 10 mil anos. Ninguém sabe quais serão as conseqüências de seu atraso para a Terra.

OESP, 25/11/2005, Vida, p. A21

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