OESP, Metrópole, p. C5
Autor: SETÚBAL, Maria Alice; GRAJEW, Oded
20 de Mai de 2007
Eles querem ver S. Paulo sonhando de novo
Luanda Nera
Entrevista: Maria Alice Setúbal e Oded Grajew
Ele nasceu em Tel-Aviv, Israel, e mudou-se com a família para o Brasil aos 12 anos. Cursou Engenharia Elétrica na USP e nunca deixou São Paulo. Ela, paulistana, é herdeira de um dos maiores banqueiros do País, Olavo Setúbal, fundador do Itaú. Líderes do terceiro setor no País, Oded Grajew e Maria Alice Setúbal comandam o Movimento Nossa São Paulo: Uma Outra Cidade, lançado na semana passada. Nesta entrevista, apontam caminhos possíveis para a metrópole.
Pela pesquisa feita pelo Ibope para vocês, o paulistano não tem sonhos. Como fugir desse pesadelo?
Grajew - O sonho começa quando se vê que existe um caminho. E ele inclui metas, indicadores. O pesadelo é quando não há perspectivas. O fato de o paulistano não ter sonhos agora não significa que ele não quer mais sonhar.
Maria Alice - A proposta é abrir horizontes com metas claras. Quando visitamos Bogotá, na Colômbia, ficou clara a importância da cultura cidadã. Para mudar as ações é preciso mobilizar a população e torná-la co-responsável. Vamos propor ações coletivas, que tornem as relações mais humanas na cidade. É o primeiro passo.
Grajew - Mensurando expectativas, fica mais fácil começar a trabalhar por elas. Hoje temos informações concretas de como chegar lá. Isso muda tudo.
Está claro que todos esses sonhos passam pela questão política?
Maria Alice - É preciso acreditar que o processo participativo é fundamental. Cada um de nós precisa sair do individualismo, do comodismo, para se colocar na vida da cidade.
Grajew - A falta de confiança nos políticos é um sinal perigoso. Todos os países que deram certo em termos de qualidade de vida têm a democracia participativa enraizada. Desenvolvimento humano, preservação ambiental, emprego, tudo está ligado à democracia participativa levada ao extremo.
Para o paulistano, segundo o Ibope, o tempo (ou a falta dele) é o grande tirano do dia-a-dia. É possível driblar isso?
Maria Alice - O tempo é um tirano, mas o problema é de outra ordem. Morei no interior, onde as pessoas têm mais tempo e a participação política também era muito pequena. Mas vejo na periferia gente com pouquíssimo tempo livre que faz muita coisa pela sociedade.
Grajew - Aliás, uma das nossas metas é fazer as pessoas terem mais tempo. Isso exige melhorar a prestação de serviço, o transporte público. Mas o acompanhamento da administração não demanda tempo. Depende da qualidade da informação que chega às pessoas.
Vocês falam em tornar a cidade mais bonita. Como pensar em beleza com tanto pesadelo urbano?
Maria Alice - A adesão à lei Cidade Limpa é prova de que é importante cuidar da cidade. Não foi só pela multa. A população aderiu porque percebeu o valor da idéia.
Grajew - Ninguém reflete, por exemplo, sobre o impacto da qualidade do ar na nossa saúde. Quando essas questões começarem a ser feitas, as preocupações ganharão outra cara. Uma idéia testada em muitas cidades é fazer as pessoas viverem outra realidade, para verem que é possível melhorar. Criar 'um dia sem carro' não resolve o problema da poluição, mas é um alerta. E faz as pessoas descobrirem outras formas de transporte, de convivência.
O conformismo e a acomodação do paulistano desmotivam?
Grajew - O movimento reúne lideranças que estão há tempos na batalha. Não pararam de sonhar, não se contentam com a postura defensiva que ainda aparece na maioria. Precisamos contagiar a população.
A apropriação do espaço público é uma das metas do movimento. É difícil inserir essa cultura numa cidade de 11 milhões de habitantes?Grajew - Os paulistanos ainda não conseguem ver a cidade como uma parte da sua casa. A perda da noção do espaço público é latente e precisa ser combatida.
Como trabalhar diferenças sociais?
Grajew - Vamos envolver subprefeitos, sem exceção. A cidade é desigual, não dá para ficar na média dos indicadores. A média é enganosa.
Dá para popularizar metas sociais?
Grajew - A população é bombardeada pela mídia com informações sobre bolsa de valores e câmbio e vários assuntos que não interessam à esmagadora maioria das pessoas. Achamos possível dar igual importância a indicadores sociais.
Conhecer políticas públicas basta para que as pessoas se tornem co-responsáveis?
Grajew - O cidadão esquece que o imposto que paga financia a atividade política. Se um vereador diz 'dei a vocês um posto de saúde', fica a impressão de que tirou dinheiro do bolso dele.
Maria Alice - E muitas lideranças trabalham na lógica de ir atrás do vereador para conseguir o tal posto e ganhar poder. É um jogo de interesses típico da cultura brasileira. Fazer o cidadão acompanhar a vida pública vai representar uma grande mudança.
Como vocês atuarão nas próximas eleições?
Grajew - A base de indicadores estará pronta até o final do ano. Não basta o candidato dizer 'vou melhorar a educação'. Ele será cobrado sobre números.
O que vocês sonham para uma São Paulo melhor?
Maria Alice - Uma São Paulo mais humana, onde se possa voltar a andar nas ruas, cumprimentar pessoas, ter vontade de usar a cidade.
Grajew - Meu sonho é que os cidadãos parem de ter medo uns dos outros. Não uso relógio, pergunto as horas na rua. A primeira reação da maioria das pessoas é de espanto. Vivemos num conglomerado de pessoas, não numa comunidade.
OESP, 20/05/2007, Metrópole, p. C5
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