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Eldorado começa a produzir celulose, mas enfrenta desafio da matéria-prima

OESP, Economia, p. B23-B24
23 de Nov de 2012

Eldorado começa a produzir celulose, mas enfrenta desafio da matéria-prima
Fábrica da J&F recebeu R$ 6,2 bilhões em investimentos e saiu no prazo, mas ainda não tem eucalipto próprio para toda a produção

Fernando Scheller

SÃO PAULO - A Eldorado Brasil, projeto de celulose da holding J&F em Três Lagoas (MS), teve suas máquinas acionadas pela primeira vez na semana passada, dois anos após o lançamento da pedra fundamental do empreendimento, que consumiu R$ 6,2 bilhões em investimentos. Mas a unidade, que tem capacidade inicial de 1,5 milhão de toneladas de celulose por ano, enfrenta um desafio: conseguir florestas para alimentar a fábrica em seus primeiros anos de operação.
A empresa afirma que começou a desenvolver seus projetos florestais ainda em 2006, mas admite que não tem madeira suficiente para abastecer a unidade. A ideia da Eldorado - cuja inauguração oficial será em 12 de dezembro - é chegar perto da capacidade total já em 2013, e possivelmente estendê-la para 1,7 milhão de toneladas a partir de 2014.
Mas concorrentes afirmam que conseguir matéria-prima para extrair celulose pode ser um problema, já que não há muita madeira "independente" no mercado, pois as fabricantes compram grandes áreas para evitar a escassez. "Num primeiro momento, terão de trazer madeira de longe", diz um concorrente.
As florestas também são um empecilho diante das ambições futuras da companhia. Segundo o presidente da Eldorado, José Carlos Grubisich, a empresa prevê triplicar sua capacidade de produção com a construção de duas novas unidades anexas à atual. Isso elevaria a produção para cerca de 5 milhões de toneladas ao ano, o que aproximaria a companhia das atuais líderes de mercado, Fibria e Suzano.
No entanto, Grubisich admite que é impossível triplicar a área plantada com eucaliptos - a empresa contabiliza cerca de 160 mil hectares atualmente - em menos de dez anos. A saída para esse "labirinto", afirma ele, está no investimento pesado em pesquisa e manejo florestal.
Do total de R$ 6,2 bilhões aplicado na construção do projeto Eldorado, R$ 900 milhões foram destinados às florestas. Ao contrário do que faz boa parte da concorrência, a empresa não vai terceirizar a administração de suas áreas de eucalipto. Dos 2,5 mil trabalhadores atualmente envolvidos na Eldorado Brasil, cerca de 1,8 mil trabalharão nas áreas de florestas, de acordo com o executivo.
Para que as outras duas unidades em Três Lagoas saiam do papel, explica Grubisich, o centro de tecnologia florestal criado pela empresa terá de encontrar maneiras de reduzir ainda mais o ciclo do eucalipto. A vantagem competitiva do Brasil no setor está baseada justamente no fato de que as árvores ficam adultas após seis anos, um a menos do que na Europa. Mas a Eldorado acredita que dá para reduzir ainda mais esse prazo.
Entre as alternativas estudadas pela empresa estão variedades que possam ser cortadas em cinco anos e árvores que contenham mais polpa do que as atuais. "Todo o projeto se baseia na lógica de reduzir custos", diz Grubisich.

Cenibra vai triplicar número de funcionários
Empresa vai contratar terceirizados em sua operação de florestas, com o objetivo de reduzir em até 10% o custo com matéria-prima

ANDRÉ MAGNABOSCO

Em um ano, o número de funcionários da Cenibra, de papel e celulose, irá passar de 1,5 mil para 5 mil. A empresa fará até o fim do ano que vem o caminho contrário de muitas empresas que terceirizam para diminuir custos. Boa parte dos 6 mil funcionários de empresas prestadoras de serviços que atuam em atividades florestais serão contratados.
Com isso, a companhia quer diminuir de 8% a 10% o custo da madeira entregue à fábrica de celulose. "Essa a redução de custo pode ser até maior se considerarmos o potencial ganho de produtividade do trabalhador", diz o diretor presidente da empresa, Paulo Brant.
A projeção, entretanto, é considerada preliminar e o resultado final pode superar esses números, na avaliação de Brant. Para ele, a relação mais estreita entre funcionários e empresa e a expectativa de menor rotatividade de trabalhadores poderia levar a esse esperado ganho adicional de produtividade.
O executivo da companhia sediada em Belo Oriente (MG) e controlada pelo grupo asiático Japan Brazil Paper (JBP) diz que dois terços do custo variável relativo à produção de celulose estão associados ao preço da madeira entregue à fábrica. O custo da matéria-prima inclui os valores gastos na produção, colheita e transporte da madeira, entre outros fatores.
Feito à mão. É justamente no custo da madeira que consome que a Cenibra apresentava menor competitividade em relação a concorrentes do setor. "No caso da colheita, cerca de 35% da atividade era manual, enquanto outras empresas têm 100% da colheita mecanizada", comparou o executivo, em referência à Veracel, joint venture entre a Fibria e a sueco-finlandesa Stora Enso considerada referência na produção de celulose.
Para reverter a situação, a Cenibra investirá aproximadamente US$ 40 milhões na compra de equipamentos e passará a contar com praticamente 100% da colheita mecanizada, o que reduzirá a necessidade de mão de obra para este fim. Já na atividade de silvicultura, o processo é o contrário. A estratégia é a internalização de terceirizados, que deve ser concluída até o fim de 2013.
A iniciativa não tem relação direta com a decisão do governo federal de desonerar a folha de pagamento para a indústria de papel e celulose, segundo Brant. Ele diz que a redução dos custos com impostos com mão de obra já era comentada nos bastidores do setor. "A conversa sobre desoneração da folha está ocorrendo há algum tempo, mas o processo de internalização (de trabalhadores) era prioritário por questões de custo", afirmou o executivo. "Mas, evidentemente, a desoneração tornou a medida mais vantajosa", complementa.
A redução do custo de madeira é considerada prioritária na Cenibra. "Se pensarmos em um possível projeto de expansão da fábrica, esse ganho de competitividade passa a ser estratégico", afirmou. A empresa tem planos para duplicação da Cenibra. Esse projeto, porém, esbarra na postura brasileira de restringir a compra de terras por empresas estrangeiras.
A Cenibra tem capacidade para fabricar 1,2 milhão de toneladas anuais de celulose e destina mais de 40% da produção para a Ásia. Fundada em 1973 a partir de uma parceria entre a mineradora Vale e a JBP, a companhia mineira é controlada desde 2001 pelo grupo composto por fabricantes japoneses de papel, e também pela Itochu Corporation e pelo Japan Bank of International Corporation.

Walter Schalka assumirá presidência da Suzano em 2013

Reuters

SÃO PAULO, 22 NOV - O executivo Walter Schalka, que atuava como presidente da Votorantim Cimentos, comandará a Suzano Papel e Celulose a partir de 1o de janeiro de 2013, segundo comunicado da segunda maior produtora de celulose de eucalipto do mundo nesta quinta-feira.
Schalka assume o lugar de Antonio Maciel Neto, que renunciou ao cargo a partir do próximo ano. O executivo atuava como presidente da empresa desde 2006 e terá um assento no Conselho de Administração.
"A fase de transição inicia-se já em dezembro, o que garantirá perfeita continuidade de todos os programas e ações", informou a empresa, em comunicado.
A Suzano registrou seu quinto trimestre consecutivo de prejuízo no período de julho a setembro, com uma relação de dívida líquida X Ebitda (sigla em inglês para lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) de 4,7 vezes.
A empresa espera atingir um pico de alavancagem no próximo ano, quando iníciará as operações de sua fábrica no Maranhão, para reduzir essa métrica em 2014.
(Por Roberta Vilas Boas)

Entre projetos adiados, três novas fábricas de celulose
Além da Eldorado, Stora Enso e Arauco vão iniciar fábrica no Uruguai; Suzano deve inaugurar unidade em 2014

FERNANDO SCHELLER

Embora empresas como Suzano, Fibria e Cenibra estejam enfrentando dificuldades para colocar em pé projetos de novas fábricas, o movimento da Eldorado de adicionar oferta aos clientes mundiais de celulose está longe de ser isolado. Pelo menos outras duas fábricas devem entrar em operação nos próximos dois anos, disputando exatamente o mesmo mercado cortejado pela fábrica do grupo J&F.
A expectativa é que pelo menos 4 milhões de toneladas de celulose "nova" entrem no mercado entre 2013 e 2014, segundo Otávio Pontes, vice-presidente das da finlandesa Stora Enso para a América Latina. A empresa, em parceria com a chilena Arauco, deverá iniciar até julho do próximo ano a produção em uma fábrica de capacidade equivalente à da Eldorado no Uruguai. "Todos estão atrás do mesmo mercado, de papel higiênico e absorvente, que cresce entre 4% e 4,5% ao ano. É nesse mercado que se concentra a nova oferta", explica Pontes.
Em 2014, a Suzano deve inaugurar, com um ano de atraso em relação às projeções iniciais, uma unidade no Maranhão. Um segundo projeto, inicialmente previsto para o Piauí em 2014, foi adiado e não tem mais data para ser viabilizado.
Nos últimos anos, a Suzano vem se desfazendo de ativos para dar conta dos investimentos, mas tem constantemente revisado para baixo os valores aplicados. Ao anunciar os resultados do terceiro trimestre, a empresa reduziu o total previsto para este ano de R$ 3,5 bilhões para R$ 3 bilhões.
E ainda há os projetos de celulose tocados pelas papeleiras - parte da produção dessas fábricas, porém, poderá ser usada para abastecer unidades locais de papel. A CMPC, dona da Melhoramentos Papéis, tem um projeto previsto para Guaíba (RS). Já a Klabin anunciou investimento de R$ 6,8 bilhões para uma nova fábrica de celulose em Ortigueira (PR). A companhia ainda busca, no entanto, sócios e financiamento para tirar o investimento do papel.
A dificuldade em viabilizar projetos é uma constante porque, embora os preços da celulose de fibra curta tenham subido no último ano, eles ainda se situam entre US$ 650 e US$ 750 atualmente.
A chance de um novo recorde de preço - como o registrado em 2010, quando a cotação passou de US$ 1.000 - é reduzida. Há dois anos, houve interrupção de produção na Europa, o que gerou apreensão sobre o abastecimento do produto. E nada parecido com isso ocorre agora. "Acho que os preços são bons para as fábricas já maduras. Para as novas, a margem não está muito folgada", diz Pontes, da Stora Enso.

OESP, 23/11/2012, Economia, p. B23-B24

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