O Globo, Sociedade, p. 26
11 de Jun de 2016
Eficácia da transformação de carbono em rocha é contestada por cientistas
Custo do programa e regiões limitadas para implementação seriam os principais obstáculos
Renato Grandelle
Um projeto islandês de transformação do dióxido de carbono (CO2) em pedra, apontado como uma potencial arma para absorver as emissões de gases de efeito estufa, foi encarado com ceticismo por cientistas brasileiros. Segundo especialistas entrevistados pelo GLOBO, a técnica seria cara e inviável em diversas regiões do planeta. O ideal, dizem, é reforçar o investimento na adoção de fontes de energia renováveis e em programas contra o desmatamento.
- Já existe um programa para captura do carbono, mas ele fica no subsolo em forma de gás, o que permite sua migração e até retorno à atmosfera. O processo islandês parece mais eficiente, só que é muito custoso, porque exige um determinado tipo de solo e uma complicada separação química das substâncias - explica Suzana Kahn, professora do Programa de Engenharia de Transporte da UFRJ. - Este projeto pode ser procurado pelos países desenvolvidos, mas seu maior interesse ainda deve ser a troca de combustíveis fósseis por fontes de energia limpas.
Pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, José Marengo também destaca o alto custo do novo método.
SOB MEDIDA PARA A ISLÂNDIA
- As atuais formas de sequestro de carbono que visam à limpeza da atmosfera são caras, mas seu custo é compensado a longo prazo por atenuar estragos de desastres naturais que podem acometer o planeta - explica. - O novo projeto pode ter dado certo na Islândia porque baseou-se na mistura de gases em uma camada de basalto vulcânico. Em muitos países este material não existe ou não é usado para geração de energia.
Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, avalia que a tecnologia islandesa ainda coleta uma parcela ínfima da quantidade de energia emitida no planeta.
- Liberamos bilhões de toneladas de carbono na atmosfera, e esta iniciativa absorve, no máximo, algumas dezenas de milhares. Não sabemos se ela poderá ser aplicada em larga escala - ressalta. - Também não há comprovação de que o método pode ser implantado em regiões sem atividade vulcânica. Ainda assim, este método deve ser visto apenas como acessório. As prioridades devem ser a redução do desmatamento e a pesquisa por soluções para a agropecuária.
O projeto começou a ser implementado em 2012 e absorve anualmente cinco mil toneladas de CO2 em um reservatório de basalto sob uma usina ao Leste de Reykjavik, a capital islandesa. Há planos para dobrar a quantidade ainda este ano.
O Globo, 11/06/2016, Sociedade, p. 26
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