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'Efeito Severino' atrasa planos do governo

JB, País, p. A2
24 de Fev de 2005

'Efeito Severino' atrasa planos do governo
Executivo espera definição das comissões para enviar projeto sobre saneamento

Karla Correia

Por conta do ''efeito Severino'', o governo adiou o envio do projeto de lei sobre o marco regulatório do setor de saneamento para o Congresso. No plano original do Executivo, o texto seguiria para a Câmara tão logo fosse definida a composição das mesas nas duas Casas do Legislativo. Mas a eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) para a presidência da Câmara fez o governo adotar uma postura de cautela máxima com relação ao projeto e adiar seu encaminhamento até abril ou maio, segundo o ministro das Cidades, Olívio Dutra.

- Vamos aguardar a definição das presidências das comissões para enviar o projeto. Esperamos por um debate de alto nível, visto que este é um projeto do interesse do país, e não do governo em isolado, mas nos mantemos cautelosos - diz o ministro.

O projeto de lei tem o objetivo de criar um aparato legal para disciplinar os investimentos num dos segmentos mais importantes da área social. A missão é garantir a universalização dos serviços de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto e lixo no país num prazo de 20 anos. Segundo o IBGE, existem 45 milhões de pessoas sem acesso a abastecimento de água e 83 milhões sem coleta de esgoto no Brasil. O custo estimado para a empreitada é de R$ 178 bilhões, entre verbas orçamentárias e recursos da iniciativa privada, que hoje detém apenas 5% do mercado brasileiro de serviços de saneamento básico.

O texto que agora se encontra na Casa Civil tem poucas diferenças em relação à proposta elaborada pelo Ministério das Cidades e divulgada em maio de 2004. Mantém, por exemplo, a titularidade dos municípios sobre os serviços públicos de saneamento, ponto nevrálgico do debate com as companhias estaduais de saneamento, e o estímulo à gestão associada desses serviços, pela formação de consórcios entre as prefeituras.

Entre as modificações, explica o secretário de Saneamento Ambiental do ministério, Abelardo de Oliveira, está a prerrogativa dos estados em definir a forma de integração das políticas públicas com os municípios. O mecanismo de subsídios cruzados, que viabiliza o cumprimento de metas de universalização do saneamento por municípios de pequeno porte, também sofreu pequenas modificações para dar mais transparência ao processo, explica Oliveira. Outra proposta adicionada ao projeto é a isenção dos serviços de saneamento básico da elevação de 3% para 7,6% na alíquota da Cofins.

A briga em torno da titularidade sobre a contratação de serviços de saneamento básico se estende ao Supremo Tribunal Federal, onde tramita uma Ação Direta de inconstitucionalidade sobre o assunto, que já conta com voto favorável à transferência da titularidade para os estados.

- Mantivemos a titularidade com os municípios porque assim reza a Constituição Federal - argumenta Oliveira.

Segundo ele, a expectativa é que as companhias estaduais intensifiquem a pressão sobre o projeto quando este chegar ao Congresso. Entretanto, o governo buscou a ajuda de quatro especialistas em direito constitucional para passar um pente fino no projeto, de forma a minimizar qualquer possibilidade de contestação judicial ao marco regulatório do setor.

Estuda-se ainda a divisão do texto em dois projetos separados. Um com as diretrizes gerais do setor - o marco regulatório em si - e outro definindo a Política Nacional de Saneamento, contendo, entre outros itens, as propostas para a reestruturação de empresas de saneamento em dificuldades financeiras.

Acesso a água, mas sem coleta de esgoto

BRASÍLIA - Cerca de 95,3% dos domicílios urbanos brasileiros têm acesso a água encanada. Mas apenas 50,6% dessas casas contam com coleta de esgotamento sanitário, enquanto a média nacional de tratamento de esgoto cai para 28,2% - menos de um terço da demanda nacional. Os dados são da pesquisa do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), vinculado ao Ministério das Cidades, relativa a 2003.

Na avaliação do ministro das Cidades, Olívio Dutra, o contraste entre os valores elevados do abastecimento de água potável e o déficit do esgotamento sanitário é reflexo de uma distorção dos serviços prestados pelas companhias estaduais aos municípios. Se 70% das cidades brasileiras são atendidas com serviços de água, o equivalente a 3.886 municípios, a prestação de esgotamento, provida pelas mesmas companhias, cai para apenas 30%, cerca de 864 cidades.

O estudo mostra também que os serviços de água têm maior concentração nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste. As regiões Sudeste e Centro-Oeste apresentam os melhores desempenhos no quesito esgotamento sanitário.

Mesmo baixos, os índices de atendimento de serviços de saneamento básico revelados pelo levantamento apontam para crescimento da ordem de 12,7% em relação à rede de água, e de 18,5% para o esgotamento sanitário nos últimos quatro anos, de acordo com a pesquisa.

Segundo Dutra, esse crescimento é, em grande parte, reflexo de aporte federal da ordem de R$ 8,2 bilhões, efetuado na primeira metade da atual gestão. O valor é 14 vezes maior do que o aplicado nos últimos 10 anos, assegura o ministro. A universalização dos serviços de saneamento básico depende de investimentos da ordem de R$ 178 bilhões em 20 anos, nos cálculos do ministério.

A previsão de recursos para o setor em 2005 é de R$ 6,2 bilhões. Para cumprir a meta de universalização, seriam necessários investimentos anuais de R$ 8,9 bilhões no setor.

JB, 24/02/2005, País, p. A2

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