OESP, Economia, p. B6
11 de Mar de 2007
Efeito etanol garante a maior safra de cana da história
Colheita começa no Centro-Sul, onde 52% da produção deverá ser convertida em 18,57 bilhões de litros de álcool
Agnaldo Brito
Sob o sol escaldante do meio-dia, na cidade de Lins, interior de São Paulo, o operador de colheitadeira Marcio Araújo faz sua estréia no mar de cana-de-açúcar. Sem saber, ele deu a largada para a maior safra de cana que o Brasil já colheu. Embora a safra comece em maio, a moagem na Usina Lins, uma das novas produtoras de álcool do País, começa amanhã.
Será uma safra de recordes: 415 milhões de toneladas de cana serão colhidas e moídas no Centro-Sul (principal região produtora) ante 372,67 milhões da safra anterior. Ela vai permitir que a produção pule de 16,05 bilhões de litros de álcool para 18,57 bilhões, que substituirão a gasolina no Brasil e em outros países. A previsão é de que a safra 2007/2008 movimente R$ 40,6 bilhões, quase R$ 3 bilhões mais que na safra anterior.
A supersafra de cana vai contribuir para elevar os números de outra conta, igualmente relevante. Pelos cálculos da Datagro, consultoria que acompanha o setor e de onde saíram as previsões para este ano, o álcool combustível, em sua história de pouco mais de 30 anos, contribuiu para o País economizar US$ 185,9 bilhões. Foi quanto o Brasil deixou de gastar com o consumo do petróleo.
O cálculo considera o valor, no mercado internacional, da gasolina não consumida entre 1975 e 2006 e os juros evitados numa eventual dívida externa com a compra de petróleo que seria convertido em gasolina.
O álcool combustível também permitiu que o Brasil deixasse guardado no fundo da plataforma oceânica nada menos que 11,5% de suas reservas petrolíferas. Com a decisão de criar um substituto para a gasolina, o País economizou 1,58 bilhão de barris de petróleo. As reservas nacionais em águas profundas e sob chão firme são de 13,7 bilhões de barris.
'Não é por acaso o interesse dos Estados Unidos pelo etanol brasileiro. São esses números que dão ao álcool relevância como combustível alternativo', diz Plínio Nastari, da Datagro. Hoje, 40% da demanda de combustível líquido no Brasil é suprida pelo etanol. Nos Estados Unidos, o governo tenta elevar esse porcentual para 15% em 10 anos, o que exigirá 132 bilhões de litros de etanol. A produção mundial hoje não chega a 50 bilhões de litros.
Segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), representante dos usineiros, nos próximos seis anos surgirão 73 novas usinas, média de uma por mês. A expansão da demanda sustenta os projetos, que vão consumir US$ 14,6 bilhões no período. São números que revelam a situação atual, mas nada impede que o mercado acelere essa corrida, o que deve dar ao Brasil uma rotina de recordes, ano após ano.
O ANO
Segundo Nastari, o Brasil terá uma safra em que se privilegiará a produção de álcool. A produção de açúcar, em torno de 25 milhões de toneladas, deverá ser mantida. A previsão é que 52,1% da cana seja convertida em etanol. Dessa forma, a produção de 18,5 bilhões de litros de álcool na região Centro-Sul será suficiente para abastecer o mercado nacional e as exportações, que, segundo Nastari, serão iguais às de 2006, ou 3,6 bilhões de litros.
O cenário traçado pela Datagro para este ano considera a elevação da mistura dos atuais 23% para 25% de álcool anidro na gasolina (decisão que o governo deverá tomar até meados do ano), além da manutenção, em níveis elevados, do consumo de álcool pelos carros bicombustível. Na média, a consultoria acredita que neste ano mais de 80% dos carros vendidos continuarão a ter motores flexíveis, para uso de gasolina e a maior parte do tempo álcool. A frota brasileira de carros bicombustível já era de 2,63 milhões em dezembro. 'Uma frota que é acrescida de 1,5 milhão de veículos por ano', explica.
Usina de Lins recruta calouros para dar a largada
Mão-de-obra para a nova empresa vem de outras lavouras, como a de tomate, e até de hotéis da região
Carlos Eduardo Toledo e Marcio Araújo, dois dos 923 funcionários da recém-inaugurada Usina Lins, são novatos na indústria do etanol. Fazem parte da legião de trabalhadores recrutados pelo setor nos últimos anos. Levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo mostra que, das 39 mil vagas criadas entre janeiro e fevereiro deste ano na indústria paulista, 30 mil foram para as usinas de açúcar e álcool.
Araújo, que trocou uma lavoura de tomate pela colheitadeira de cana, não esconde o entusiasmo. A falta de mão-de-obra especializada, um drama para o setor, foi o que garantiu a Araújo a chance tão esperada. Ele acompanhou parte da safra passada trabalhando na colheita mecanizada em Batatais, onde fica a usina matriz do grupo. Aprendeu rápido. Na quinta-feira, iniciou o corte da cana.
Jeitoso com o equipamento, ele nem sequer entrou com a bota na cabine climatizada. Preferiu pisar nos comandos da máquina de R$ 800 mil com uma meia soquete azul bem surrada. 'É para não sujar aqui dentro.'
O ex-tomateiro vai percorrer, com os colegas, os 15 mil hectares da lavoura de cana. O investimento da Usina Lins, que terá capacidade inicial para moer 1,2 milhão de toneladas e produzir 120 milhões de litros de álcool, foi de R$ 200 milhões.
Carlos Eduardo Toledo terá de controlar os dados da área agrícola. Ele também nunca tinha pisado numa usina de açúcar e álcool, mas aprendeu tudo o que precisa nos últimos meses. Será dele a missão de jogar nos computadores da empresa todos os dados apontados nas fichas lá no campo. Toledo trabalhava num hotel de Lins, na controladoria. Deixou de controlar hóspedes para controlar canaviais.
'Terei mais chances aqui', acredita. Uma delas, a de estudar. Ele quer voltar ao curso de administração ainda este ano. Toledo e Araújo não são exceções. Segundo Alex de Sousa Pupin, supervisor administrativo da Usina Lins, grande parte dos 923 funcionários contratados para a nova unidade teve de ser treinada na matriz, em Batatais.
'O nosso problema com o recrutamento de mão-de-obra não foi maior porque iniciamos as contratações muito tempo antes. Isso significou custo adicional, mas nos deu condições de iniciar a produção a partir de agora, numa condição boa', explica Pupin.
Lins faz parte de uma área pecuarista do Estado. Está entre as regiões de Bauru e Araçatuba, às margens da Rodovia Marechal Rondon. Segundo Plínio Nastari, da Datagro, boa parte do crescimento das áreas de cana-de-açúcar em São Paulo se deu sobre pastos.
No Estado de São Paulo, os canaviais cobrem 3,6 milhões de hectares. Mesmo assim, as áreas de pastagem são predominantes. Ocupam 10,2 milhões de hectares. Com a nova usina, a cidade de Lins não deixou de ser pecuarista. Ganhou apenas um novo negócio.
OESP, 11/03/2007, Economia, p. B6
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