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Economia nao reduz desigualdade

CB, Brasil, p.15
05 de Nov de 2004

Economia não reduz desigualdade
A concentração de renda em todo o país permanece alta há pelo menos dez anos. O Distrito Federal apresenta o maior fosso entre ricos e pobres. Números do IBGE mostram que queda na inflação não trouxe justiça social
Vicente Nunes
Da equipe do Correio
A produção de riqueza no Brasil não está sendo suficiente para acompanhar o crescimento da população. Entre 1994, quando foi editado o Plano Real, e 2003, o primeiro da administração Lula, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita cresceu apenas 6,3%, passando de R$ 8.057 para R$ 8.564. No mesmo período, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de habitantes deu um salto de 12,8% — de 156,7 milhões para 176,8 milhões. No ano passado, devido ao forte arrocho imposto à economia pelo governo para derrubar a inflação, o PIB per capita caiu 1,47%.
Os números, que fazem parte do documento Indicadores de Desenvolvimento Sustentável, divulgado ontem pelo IBGE, mostram uma economia estagnada, incapaz de resolver os graves problemas sociais do país. Se, nos últimos dez anos, o Brasil conseguiu vencer a praga da inflação, ainda não deu mostras de que pode crescer em um quadro de estabilidade de preços. O resultado disso é o aumento da pobreza, da concentração de renda e da violência, sobretudo nas grandes metrópoles, onde esses problemas ganharam dimensão de crise, afirma o economista Jack Schechtman, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
O quadro se torna mais grave porque, se não há riqueza distribuída, como mostra o PIB per capita, mais difícil fica sustentar o crescimento econômico. A população não pode consumir. Sem demanda, a indústria não produz. Sem produção, o desemprego aumenta, tornando a população ainda mais pobre, destaca o economista Carlos Thadeu Filho, do Grupo de Conjuntura Econômica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para Flávio Bolliger, responsável pela análise das informações econômicas da pesquisa do IBGE, há, no Brasil, um nível de renda per capita baixo em relação ao potencial brasileiro e ao dos países desenvolvidos.
Concentração
A incapacidade do país de produzir riquezas acima do crescimento da população se reflete de forma dramática no índice que mede a concentração de renda, batizado pelos economistas de Índice Gini. Quanto mais próximo de 1 for o indicador, maior é a concentração. Se ficar acima de 0,5, pode-se qualificar o índice como de forte desigualdade. De acordo com o IBGE, em 2002, o último dado disponível, a taxa ficou em 0,573, praticamente a mesma de 1992, de 0,575. Em 1993, entretanto, o Índice Gini chegou a 0,603, devido aos sérios estragos feitos na economia pelo governo Collor.
Quando aberto o Índice Gini por região, as maiores desigualdades sociais estão no Centro-Oeste, com taxa de 0,591. Dentro da região, o Distrito Federal apresenta o maior fosso entre ricos e pobres, com índice de 0,607. Em termos de Brasil, esse resultado só perde para o Piauí, onde uma restrita elite convive em meio ao maior bolsão de pobreza do país. Lá, o indicador é de 0,615, muito próximo dos países africanos. Essas desigualdades só vão diminuir quando o país crescer de forma contínua e sustentada, com mais empregos e juros baixos, ressalta o economista Roberto Piscitelli, professor da Universidade de Brasília (UnB).
Segundo ele, a concentração de renda não diminuiu de forma expressiva com a queda da inflação porque o Brasil passou a conviver, nos últimos dez anos, com taxas de juros muito elevadas. Na época da hiperinflação, enquanto os mais pobres tinham o poder de compra corroído diariamente, os mais ricos se protegiam com o dinheiro aplicado na famosa ciranda financeira. Depois do Plano Real, a inflação diminuiu muito, mas não acabou, e os juros subiram demais, mantendo a proteção ao patrimônio dos mais ricos, afirma Piscitelli.
Renda mensal
Pelos levantamentos do IBGE, a maior parte das famílias brasileiras vive com muita dificuldade. Em 74,5% das residências (os dados são de 2002), o rendimento médio mensal por pessoa é de até dois salários mínimos. Do total de lares, 3,2% não têm nenhum rendimento — vivem na miséria absoluta — e, em 23,9%, a renda per capita é de meio salário mínimo. Na maioria dessas casas, os moradores são negros e pardos.
Na avaliação de Thadeu Filho, da UFRJ, muitas das limitações que impediram o Brasil de crescer e distribuir renda nos últimos anos foram amenizadas desde 2003, graças ao ajuste das contas externas e das contas públicas. Mas o país ainda precisa se livrar de vez dos riscos da inflação para baixar as taxas de juros e estimular a produção e o consumo. Para Schechtman, da FGV, a pobreza só vai diminuir se a economia mantiver um ritmo de crescimento entre 3,5% e 4% ao ano nos próximos cinco anos. Neste ano, a previsão é de que o PIB se expanda 4,5%.

Consumo de minerais
Apesar de ser um dos maiores produtores e exportadores de minerais do mundo, o Brasil registra um dos menores índices de consumo desses produtos, reflexo do baixo poder aquisitivo da população. Mas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse quadro começa a mudar em alguns segmentos. O consumo per capita de alumínio, por exemplo, aumentou de 2,6 quilos, em 1992, para quatro quilos, em 2002.
No caso de materiais de construção, como o cimento, o consumo por habitante saltou, no mesmo período, de 158,3 para 216,6 quilos. É importante ressaltar que o pico da demanda por cimento se deu em 1998, quando o país ainda vivia a ilusão do preço do dólar muito próximo do real. Naquele ano, o consumo per capita do produto bateu em 242,3 quilos. Desde então, vem caindo ano a ano, devido ao achatamento da renda dos brasileiros, o que levou o setor da construção civil para o buraco.
O IBGE chama ainda a atenção, no documento Indicadores do Desenvolvimento Sustentável, para o aumento da produção e do consumo de petróleo e gás natural. Entre 1993 e 2002, a extração de petróleo cresceu 126%, passando de 247,9 milhões de barris ao ano para 560,3 milhões de barris. O consumo do produto por habitante aumentou, em igual período, 13,46%, saltando de 3,12 para 3,54 barris. Com produção maior, a importação de petróleo caiu 73%, de 183,2 milhões de barris por ano para 49,2 milhões de barris. Segundo as estimativas da Petrobras, as reservas nacionais do produto podem abastecer o país por 18 anos, contra uma média mundial de 41 anos.
Já a produção de gás natural, que deve se tornar uma da mais importantes fontes de energia do país nos próximos anos, devido à grande oferta do produto, registrou incremento de 111%, pulando de 7,35 bilhões de barris por ano, em 1993, para 15,5 bilhões em 2002. O consumo per capita de gás, por sua vez, cresceu 148%, de 48 metros cúbicos por ano para 119 metros cúbicos. (VN)

Setor produtivo investe pouco
O tão esperado crescimento sustentado da economia, com redução da pobreza e melhor distribuição de renda, dificilmente se sustentará nos próximos anos se o Brasil não aumentar a taxa de investimentos do setor produtivo. Pelos cálculos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), essa taxa fechou 2003 em 18,04% do Produto Interno Bruto (PIB), abaixo dos 18,42% registrados em 1992, quando o país vivia a mais severa recessão da sua história.
Segundo Flávio Bolliger, responsável pela análise das informações econômicas do documento Indicadores de Desenvolvimento Sustentável divulgado ontem pelo IBGE, as taxas de investimentos registradas no país estão muito aquém das necessidades, ficando, na última década, abaixo de 20% e com tendência de queda, quando deveriam ser de pelo menos 25% do PIB. A grande virada da economia brasileira só ocorrerá quando os investimentos voltarem. Do contrário, não há como se falar em desenvolvimento sustentável, afirma o economista Simão Davi Silber, da Universidade de São Paulo (USP).
Gargalos
A maior carência de investimentos está na área de infra-estrutura. A urgência nesse setor é tamanha, que, se nada for feito nos próximos dois anos para a melhoria das estradas, dos portos e das ferrovias, dificilmente o país conseguirá ampliar suas exportações, as grandes geradoras de empregos nos últimos anos. Na minha avaliação, os gargalos na infra-estrutura vão derrubar o saldo na balança comercial de 2005 em cerca de US$ 5 bilhões, diz o economista Carlos Thadeu Filho, do Grupo de Conjuntura Econômica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Outra necessidade importante de investimentos está no setor de energia, segundo o IBGE. O consumo de energia elétrica voltou a crescer, depois do apagão de 2001, batendo em 42,6 gigajoules (GJ) por habitante — o maior índice em dez anos. Se a economia continuar aquecida, como está se vendo atualmente, o consumo aumentará de forma muito mais rápida, exigindo a ampliação da oferta. O problema é que não estamos percebendo grandes investimentos nesta área. E isso é alarmante, ressalta o economista Jack Schechtman, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
A falta de investimentos na ampliação da oferta de energia — o Brasil necessita de cerca de US$ 5 bilhões por ano — decorre, sobretudo, da falta de regras claras para o setor. O setor privado teme ser abatido pelo governo com mudanças bruscas de contratos. Por outro lado, o setor público não tem condições de, sozinho, aumentar a oferta de energia. De acordo com os especialistas, se o país continuar crescendo 3,5% ao ano sem investimentos, em 2008 poderá haver um novo apagão. (VN)

CB, 05/11/2004, p. 15

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