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Ecologia, mais que apelo de venda

OESP, Construção, p. Cc7
27 de Mar de 2005

Ecologia, mais que apelo de venda
Mais que funcionar como um bom apelo de vendas, a preservação ambiental é preocupação cada vez maior na construção civil

Lilian Primi

O apelo ecológico norteou pelo menos 20 lançamentos na edição deste ano da Feira Internacional da Construção (Feicon). Há desde tintas a base de água - não tão ecológicas assim, segundo os especialistas - até fios que não emitem fumaça tóxica, passando por vasos sanitários "econômicos" e sistemas alternativos de geração de energia.
Além da necessidade de venda, a atitude dessas empresas reflete um movimento que cresce ano a ano no mercado, de conscientização sobre a responsabilidade de preservação do meio. "Não há como construir sem causar impacto", diz Joana Carla Soares Gonçalves, pesquisadora do Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética do Departamento de Tecnologia da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. "Mas dá para reduzir os danos", ressalva.
Joana defende o conceito da arquitetura sustentável, um grande guarda-chuva que abriga várias tendências, algumas da época em que o Homem pensou em construir um abrigo pela primeira vez. "As pessoas confundem arquitetura sustentável com bioclimática, que já era praticada pelos mouros", exemplifica Márcio Araújo, diretor do Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica (Idhea).
O conceito moderno de arquitetura sustentável envolve desde a engenharia civil e química até a filosofia. "É uma vertente da idéia expressa no Informe Brundtland, em 1987, que prega o uso dos recursos disponíveis na natureza para atender as necessidades de sobrevivência do Homem e ao mesmo tempo, preservar o Planeta para gerações futuras", explica Araújo. Uma atitude sustentada pelo tripé do socialmente justo, ecologicamente correto e economicamente viável.
Pulverização
O custo desta opção pode ir de zero a mil. Depende do nível de informação - e da disposição - de quem está construindo. "O arquiteto não é essencial, mas ajuda a reunir informações que estão pulverizadas", afirma Ivone Rocha, arquiteta especializada no assunto, proprietária da Prima Matéria, misto de escritório e show room.
Numa tentativa de reduzir os problemas provocados por essa pulverização, o Idhea montou um cadastro de fabricantes de materiais de construção sustentáveis. Já reuniu 800 empresas.
Para quem está disposto a gastar mais é possível ter uma casa como a proposta na Feicon pelos arquitetos Bruno Roberto Padovano, professor do Departamento de Projeto da FAU-USP e Patrícia Bertacchini, doutoranda da FAU-USP. Batizada de "casateliê", organiza de forma harmônica ambientes de trabalho e doméstico - "cada vez mais pessoas trabalham em casa", afirma Padovano -, dispõe de captação da água da chuva, tratamento de esgoto e de captação de energia solar capaz de aquecer toda a água usada na casa, incluindo a da piscina. "Além dos coletores solares tradicionais, o telhado é de cobre e tem uma serpentina por baixo", explica.
A casa foi projetada para um terreno que fica na beira de um lago em Avaré, no Interior de São Paulo. Mas Padovano garante que pode ser adaptada para qualquer outro lugar. "É toda modular", diz. O arquiteto vai expor um protótipo na Bienal Internacional de Arquitetura, que acontece no final deste ano, na cidade de São Paulo.

Serviço
Idhea - Consultoria e informações sobre materiais Fone: (Oxx11) 3863 2090 www.idhea.com.br
Prima Matéria - Projetos, consultoria e show room Fone: (Oxx11) 3814 8443 www.primamateria.com.br
Padovano Arquitetura em Rede -Projetos e consultorias Fone: (Oxx11) 4153 6443 www.padovano.com.br

Roteiro para autoconstrução sustentável
Os arquitetos que militam pela arquitetura sustentável garantem que é possível aderir ao movimento sem gastar fortunas na busca de materiais "ecológicos", ou se aventurar no uso de materiais "alternativos" ou "marginais". Basta seguir as recomendações abaixo. Todos os materiais indicados podem ser encontrados em qualquer loja de material de construção da Grande São Paulo. (Fonte Idhea)
Fundação e estrutura - Prefira o cimento tipo CP-3 RS32 ao CP-2. O primeiro, além de ser 15% mais barato, tem em sua composição, de 35% a 70% de escória da siderurgia, resíduo do autoforno de produção de aço. Ele é mais resistente à ação de substâncias ácidas (como as presentes nas regiões litorâneas, por exemplo), permite uma economia no consumo de calcário e a emissão de C02 durante a sua fabricação é menor.
Argamassa - Usar cal posolânica na massa de assentamento e para reboco. Este tipo de cal tem 70% de uma rocha mineral finamente moída (micronizada) em sua composição, que dispensa a queima e a água no processo de produção. Para assentamento, o traço da mistura será de 1 parte de cimento para duas de cal posolânica e 8 de areia. Para o reboco, se não quiser usar a massa pronta, basta diminuir a quantidade de areia para 6 partes.
Paredes - Prefira materiais a base de terra, que permite uma respiração melhor que o bloco de concreto. O ideal é o tijolo de solo-cimento, que dependendo do modelo, dispensa a argamassa no assentamento. Este tijolo não sofre queima na sua produção e já vem com orifícios para passagem da fiação elétrica e da rede hidráulica. As alternativas a ele recomendadas, pela ordem, são o tijolo de barro cozido, bloco cerâmico e por último o de concreto. O mais em conta é o tijolo cozido.
"Esquadrias - Prefira as de madeira de alta ou média densidade, que consomem 5,6 mil vezes menos energia na sua fabricação que as de alumínio e melhoram o conforto térmico da residência. Para garantir a durabilidade, é preciso um tratamento adequado. O caseiro consiste em passar duas demãos de óleo de linhaça nas que ficarão aparentes. Se for pintar, use esmalte sintético a base de água.
Revestimentos - Usar sempre produtos a base de água, que têm uma carga menor de solventes e portanto, não agridem o meio ambiente, a camada de ozônio e o morador. Isso vale para verniz , cola de contato, resina e tintas. Existem esmaltes sintéticos a base de água também para pintura de metais e batentes. Para pisos e nas paredes do banheiro e da cozinha, prefira as cerâmicas e azulejos com o certificado ISO 14001. O selo garante que a empresa adota medidas de controle sobre o sistema produtivo, de forma a torná-lo menos impactante. Se possível, prefira a madeira às cerâmicas no piso.

Cobertura - Prefira telha de barro queimado às êsmaltadas. E a melhor delas, em termos ambientais, é a capicanal.

OESP, 27/03/2005, Construção, p. Cc7

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