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'É preciso acelerar as mudanças'

O Globo, Ciência, p. 33
Autor: BORLOO, Jean-Louis
05 de Set de 2007

'É preciso acelerar as mudanças'
Titular do Meio Ambiente da França defende novo modelo de desenvolvimento

Flávio Henrique Lino e João Rocha Lima

Entrevista Jean-Louis Borloo

Considerado o "superministro" do governo do presidente Nicolas Sarkozy, da França, o ministro do Meio Ambiente, Jean-Louis Borloo, acredita que é necessária uma mudança na forma de agir tanto por parte de governos como de consumidores e empresas para que o planeta encontre o caminho do equilíbrio ambiental.
No Rio para participar da Reunião Ministerial Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Borloo disse ao GLOBO que novas tecnologias e grandes obras são partes fundamentais do modelo que permitirá crescimento econômico conjugado à proteção ambiental.

O Globo: O Papa Bento XVI disse que os líderes mundiais devem agir rápido para salvar o planeta, antes que seja tarde. O senhor acha que as principais potências estão tomando as medidas necessárias para impedir uma catástrofe ambiental?

Jean-Louis Borloo: Percebo que existe um consenso de que, 15 anos após a Eco 92, nem todos os esforços tiveram um resultado satisfatório. Há uma série de proposições que visam a reforçar o programa existente e a criar uma organização diferente dentro da ONU. Mas essas duas medidas não seriam excludentes. Não é uma ou outra. Acredito que hoje essa idéia é dominante. Durante a campanha presidencial este ano na França, um pacto ecológico foi elaborado a partir de propostas de ONGs, empresários etc.
Depois disso, percebeu-se que seria necessário rever radicalmente a maneira como as medidas são tomadas e o processo para atingir as metas fixadas. O presidente Nicolas Sarkozy imaginou que seria interessante criar um ministério que reunisse funções aparentemente contraditórias - mas que na verdade não são - como energia, indústria, transporte e habitação, mas também florestas, o mar. Isto permite uma ação única do governo. Os consumidores também são estimulados a adquirirem produtos ecologicamente corretos. E as empresas que não se adaptarem a esse novo momento, substituindo, por exemplo,as embalagens descartáveis pelas recicláveis, vão acabar perdendo competitividade. Essa lógica também pode ser aplicada nos níveis nacional e internacional. Estamos convencidos de que é necessário acelerar as mudanças.

Brasil, China e Índia estão entre os maiores emissores mundiais de gases-estufa. Isso dá aos EUA a desculpa de não aderir ao Acordo de Kioto.Como se pode conciliar o desenvolvimento econômico e a proteção ao meio ambiente?

Borloo: É um desafio. No fim das negociações que estamos promovendo na França, teremos um acordo que nos permita chegar a um modelo de desenvolvimento sustentável. Estou convencido de que isso vai dar certo. Há tecnologias que permitem diminuir o impacto das indústrias sobre o meio ambiente. Quando nós falamos desses países (emergentes), devemos analisar a emissão de CO2 e o impacto ecológico por habitante. Nós franceses temos um grande esforço a fazer, por causa da nossa taxa de emissão de gases por número de habitantes. É sempre a mesma história: ou dizemos que não dá para fazer nada por causa dos outros, ou tentamos avançar na marra. Estou convencido de que, pelo desenvolvimento de novas tecnologias para salvar o planeta e as grandes obras necessárias para atingir esse objetivo, estimularemos o reaquecimento da economia. Existe uma bela frase do economista Lester Brown que diz o seguinte: "O comunismo morreu porque não deixou que os preços falassem a verdade econômica, e o capitalismo vai ruir por não permitir que os preços falem a verdade ecológica."

A energia nuclear é um tema delicado na França. O governo pretende reduzir a dependência do país em relação a esse tipo de energia?

Borloo: Não há uma posição oficial, só discussões abertas sobre os temas propostos. A regra é que todos os assuntos estão sobre a mesa. Desde que os trabalhos começaram, nós percebemos que quando tentamos objetivizar e encontrar soluções, há pontos de convergência possíveis. Isso vale para a energia nuclear, mas também para os biocombustíveis, os transgênicos.

O Globo, 05/09/2007, Ciência, p. 33

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