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É o último índio da tribo e querem matá-lo

Diário de Notícias-Liboa - http://migre.me/eKKt
Autor: HUGO COELHO
20 de dez de 2009

Ele é o homem mais sozinho do mundo. À falta de um nome chamam-lhe o Homem do Buraco - por causa dos buracos que cava na floresta da Amazónia para se esconder e apanhar animais.

Os indígenas contam que é o único sobrevivente de uma tribo massacrada por fazendeiros, ávidos de terras, nos anos 1970 e 1980. Agora os homens brancos voltaram para acabar o trabalho.

Há pouco mais de um mês, o Homem do Buraco esteve debaixo da mira de armas de fogo, em Tanarú, território indígena no estado de Rondônia, no coração da floresta tropical. Trabalhadores da Funai, a Fundação Nacional do Índio, que viajam pela região, contaram que a cabana do indígena foi saqueada e encontraram cartuchos de caçadeira espalhados pelo chão.

A organização não-governamental britânica Survival, que luta pelos direitos das tribos isoladas no mundo, acusa os fazendeiros de terem ordenado o ataque. Em Outubro, as autoridades renovaram a ordem de protecção ao Homem do Buraco, uma decisão que enfureceu os latifundiários, porque os impede de alargar as suas terras. O indígena está cercado por plantações de soja e quintas de gado e os fazendeiros afirmam que ele é "um homem sentado em oito mil hectares".

A polícia investigou o ataque mas não encontrou culpados. Os que andam pela região garantem que o Homem do Buraco escapou uma vez mais, mas ninguém acredita que os assassinos fiquem por aqui. "A sua tribo foi massacrada e agora o Homem do Buraco enfrenta o mesmo destino", afirmou ao jornal The Times o director da Survival, Stephen Corry. "Os fazendeiros têm de deixar este homem viver os seus últimos dias em paz na sua terra e as autoridades têm de fazer tudo para o proteger."

Mesmo tendo-se tornado o centro das atenções de activistas e fazendeiros, o Homem do Buraco continua a ser um grande mistério para uns e outros. As tribos indígenas da região contam que ele é o último do seu povo, mas nem eles lhe conhecem o nome ou a idade.

O Homem do Buraco anda sozinho e não deixa que ninguém se aproxime dele. O indígena solitário foi filmado por Vincent Carelli num documentário sobre as tribos amazónicas. Quando viu o antropólogo e realizador francês e a sua equipa, o indígena escondeu-se na cabana e apontou-lhes o arco de flechas para os mandar embora. Meses depois um responsável brasileiro acabou mesmo com uma flecha no peito por ter chegado perto de mais.

"Não há duvida que ele não quer qualquer contacto", afirmou Fiona Watson. "Ficou traumatizado e assustado quando viu o seu povo ser massacrado." A activista da Survival procurou o Homem do Buraco em 2007. Nunca o viu mas esteve na sua maloca, a casa com paredes de palhas e telhado de folhas, onde encontrou setas, cabaças com água, frutos secos e uma tocha feita de resina.

Em redor, Fiona filmou a horta com árvores de papaias verdes, milho e mandioca.

Quando morrer, o Homem do Buraco levará consigo a história de uma tribo que os outros homens nunca conheceram. Mas o seu caso não é original. Desde que os navegadores portugueses e espanhóis chegaram à América, no século XV, extinguiram-se centenas de tribos e civilizações indígenas. Muitos morreram pela guerra, outros não resistiram às doenças levadas pelos europeus.

Os activistas estimam que existam actualmente 67 tribos isoladas na Amazónia. Mas a matança continua. "A floresta é como um íman que atraia fazendeiros e lenhadores", disse Watson. "Se houve uma tribo isolada, ninguém sabe ao certo onde eles vivem ou quantos são, por isso se alguém os matar não há prova, e é isso que está a acontecer."

Uma das tribos condenada a desaparecer é a dos Akuntsu. Durante séculos foram uma vibrante civilização com uma população de centenas ou milhares que criou uma religião própria e deu nomes para todas as criaturas da floresta e as estrelas do céu da Amazónia. A 1 de Outubro os Akunstu viram a sua matriarca morrer de velha na sua pequena cabana. Ficaram cinco para a chorar, três homens e duas mulheres, e nenhuma delas em idade de ter filhos.

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