VOLTAR

E o que nós todos temos a ver com isso?

OESP, Vida, p. A16
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
11 de Jul de 2007

E o que nós todos temos a ver com isso?

Marcos Sá Corrêa

Mesmo nós, os espíritos de porco que não consideramos o Cristo do Corcovado uma das sete maravilhas do mundo, reconhecemos que não há peito melhor para pendurar uma faixa de protesto.

Fizeram por merecer as primeiras páginas os funcionários do Ibama, balançando no abismo com uma coreografia à altura das melhores superproduções do Greenpeace. E, nem assim, emplacaram, sob tantas fotografias espetaculares,uma reportagem explicando o que, mesmo, eles queriam dizer com sua faixa.

Ela falava do Ibama, mas seu assunto era a medida provisória que traz no ventre o Instituto Chico Mendes. Já tem greve sobrando na vida de quem depende de qualquer serviço público no Brasil. A do Ibama, com Corcovado e tudo, é assunto de burocrata. Certo? Errado. Mas, pelo rumo que a medida provisória tomou no Congresso, o País só vai dar-se conta do quanto pode lhe custar a homenagem póstuma ao mártir do extrativismo quando faltar base para candidatar monumentos a seja lá o que for.

Pelo Instituto Chico Mendes, o Congresso está cobrando do Ministério do Meio Ambiente um preço alto. Quer impedir a criação de reservas federais por decreto, apesar do que parecia estabelecido, de uma vez por todas, na lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc). Ela saiu há apenas sete anos. Passou quase uma década à mercê dos bisturis parlamentares nas comissões técnicas, que retalharam o projeto original até sobrar muito pouco para negociar e suprimir. Agora, um passo em falso do governo botou o Snuc de volta na pauta legislativa.

O Ministério do Meio Ambiente, como sempre, resiste. É resistindo que, geralmente, ele recua. Tem sido assim desde o começo do governo Lula. E sua marcha para trás acelerou-se muito com o PAC.

Agora mesmo, a Casa Civil engavetou as unidades de conservação que costumam jorrar da caneta presidencial no Dia do Meio Ambiente. Sairiam 18 de uma penada. Entupiram até as reservas extrativistas. Alega-se, contra elas, que a pressa gera má vontade política. O palácio não parece preocupado com o fato de que a má vontade política não gera unidades de conservação. Por coincidência, o Congresso não está pedindo a honra de criar unidades de conservação, mas a prerrogativa de evitá-las. Elas sempre contrariam interesses específicos e afagam interesses difusos, aqueles que só se mexem para votar, por exemplo, no Corcovado.

Nessas horas, nem sempre fica claro que a estátua do Cristo Redentor só é o que é porque tem a seus pés um parque nacional. Com favelas nas encostas, assaltos nas trilhas e corrupção na bilheteria, sem dúvida. Mas um parque nacional.

Quem não sabe o que isso quer dizer, imagine tirar a estátua de onde está para pô-la no morro mais alto do Complexo do Alemão, a que também não faltam credenciais para representar a autêntica paisagem urbana do Rio. Não é preciso muito esforço de imaginação para concluir que, sem o pedestal de basalto e floresta, a candidatura dificilmente decolaria do subúrbio carioca.

O Corcovado, por outro lado, estava solidamente estabelecido como maravilha natural, um século antes que a estátua escalasse o seu dorso. Foi um dos primeiros programas turísticos obrigatórios que a parisiense Adèle Toussaint-Samsom fez na cidade, quando veio morar no Rio como professora na corte de Pedro II. Levou seis horas para chegar lá em cima. E gostou mais da montanha do que do cume. "Eu podia imaginar um pouco a vista esplêndida que me esperava lá em cima", ela escreveu em suas memórias. "Mas não pudera pressentir a emoção profunda que sentiria à visão de uma natureza saindo virgem das mãos de Deus."

Era o que deveria dizer, e não disse, a faixa do Ibama no monumento. Está em jogo a troca do Instituto Chico Mendes pela decretação de parques nacionais. E isso não interessa só aos grevistas do Ibama.

Marcos Sá Corrêa, é jornalista e editor do site O Eco

OESP, 11/07/2007, Vida, p. A16

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.