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"É muito difícil encontrar médico para trabalhar em áreas indígenas. Temos vagas abertas"

Revista CRESCER (São Paulo - SP) - www.revistacrescer.globo.com
Autor: Maria Clara Vieira
12 de nov de 2015

O Distrito Especial Indígena (Dsei) Xavante, localizado no estado de Mato Grosso, contabiliza mais de 18,6 mil pessoas distribuídas em 282 aldeias. Essa etnia é uma das que mais sofrem com a mortalidade na infância (de 0 a 5 anos).

Os Dsei são unidades gestoras de áreas indígenas ligadas à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que pertence ao Ministério da Saúde. Só no ano passado, 116 crianças xavantes morreram, segundo dados obtidos pelo Conselho Missionário Indigenista (Cimi), com base na Lei de Acesso à Informação.

A seguir, confira entrevista na íntegra com Claudio Rodrigues, coordenador do Dsei Xavante.

"O índice de mortalidade infantil não é alto só entre os xavantes, mas na população indígena de metade do país. E isso não é de agora. Já vem se arrastando há alguns anos.

Há várias complicações que acabam levando a essa situação. Hoje, enfrentamos uma grande dificuldade de sustentabilidade da alimentação. Eu sempre digo que não adianta estar com a farmácia completa de medicamentos, termos veículos, equipe e estrutura física para atender os indígenas se falta o básico do básico, que é a alimentação.

A maior parte das terras indígenas xavante está no cerrado. Eles quase não produzem os próprios alimentos porque a terra não é muito produtiva. Para plantar, precisa de todo um preparo, que as aldeias não têm.

Com isso, as mães ficam sem alimento e isso impacta diretamente os filhos que são amamentados. As crianças têm uma má alimentação desde os primeiros dias de vida. Assim acaba vindo a desnutrição.

A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) entrou com uma intervenção, o Sistema de Vigilância Alimentar Nutricional (Sisvan), em que entrega leite em pó nas aldeias. Mas há diversas dificuldades aí. A primeira é que não temos equipe suficiente para fazer essa distribuição em todas as aldeias. Ou, quando a família recebe o leite da criança, todos estão com tanta fome que o alimento é dividido entre todos os integrantes, e aí não é o suficiente.

Às vezes, removemos as crianças da aldeia já em estado muito avançado de desnutrição. A equipe traz para o hospital na cidade para que ela fique ganhando peso. Depois de alguns dias, volta para a aldeia. Mas lá ela fica desnutrida novamente. E a questão se repete.

Não é competência da Saúde fazer sustentabilidade alimentar. A gente orienta, dá palestra, mas sabemos que precisa de um financiamento, de uma capacitação do próprio indígena para que ele saiba como preparar a terra, como colher, como plantar, como armazenar. Precisa de um incentivo do governo. Talvez precise fomentar mais isso.

Outra questão importante, com certeza, é o saneamento básico. O DSEI Xavante inaugurou, desde 2014, 34 novos sistemas de água potável para a população beber. Com isso, queremos diminuir a diarreia e a questão da água mal tratada. Até o final do ano, a intenção é inaugurar mais 20 poços.

Também é difícil encontrar profissionais para trabalhar nas equipes de saúde das aldeias. Às vezes, até achamos, mas são aventureiros atraídos pelo salário. Um dentista hoje ganha cerca de R$ 7 mil, o enfermeiro, R$ 6 mil; o técnico em enfermagem, R$ 2,4 mil, e o médico, R$ 13 mil. Mas médico é o mais difícil de encontrar. Eles querem ganhar mais do que isso.

O esquema de trabalho é passar 20 dias na aldeia, seguidos de 10 dias de folga. Não são todos que se adaptam. Os profissionais não querem cumprir a carga horária. Por isso, quase 70% dos nossos técnicos de enfermagem são indígenas e temos 10 médicos do Programa Mais Médicos aqui no Dsei Xavante.

Estou na coordenação do DSEI Xavante há pouco tempo e estou trabalhando muito para reverter a situação. Diversas coisas nos afligem, mas, na medida do possível e dos recursos, nós estamos fazendo muita coisa para melhorar não só a mortalidade infantil, mas a vida no geral."

Claudio Rodrigues é coordenador DSEI Xavante há pouco mais de um ano.

http://revistacrescer.globo.com/A-mortalidade-das-criancas-indigenas/no…

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