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É hora de cores na terra e vôos no ar

Marcos Sá Correa - http://marcossacorrea.com.br
Autor: Marcos Sá Correa
29 de Set de 2010

Há dias, temporais esparsos andam avisando que acabou a estiagem do inverno. Chove forte, em geral no meio da noite, com trovoadas que nos acordam só para trombetaer a mudança de estação. E, como as coisas no Iguaçu mudam de repente, a passagem do inverno à primavera aconteceu de uma hora para a outra.

Lá se foi o tempo dos poentes intermináveis, que começavam no meio da tarde e mantinham quase no meio do céu um sol redondo e vermelho que, ainda alto, marchava sem pressa para o horizonte. Dava para acompanhá-lo a olho nu, pelo filtro de névoa cinzenta deixado na atmosfera pelas queimadas. Como espetáculo, o por-do-sol era sem dúvida muito bonito. Mas essa beleza toda já não enganava o entomólogo alemão Hermann von Burmeister, quando ele andou pelo interior do Brasil em meados do século XIX.

Não é de hoje que aquele sol que parecia coado por uma placa de vidro fumê, como o descreveu Burmeister nos cafezais do Vale do Paraíba, quer dizer fogo no mato. Ou, à falta de mato, de fogo nos pastos ou na palha da última safra, antes que a chuva reabra o ciclo das plantações. Em outras palavras, uma compensação dos céus pela feiúra na terra, que as coivaras produzem desde que o Brasil ainda nem era Brasil.

Agora, depois de cada temporal, vem o azul lavado. E uma claridade que os sentidos humanos, e sobretudo os fotômetros das câmeras, há meses não registravam. E até que este ano a seca no Iguaçu não foi tão rigorosa assim.

O parque passou mais ou menos incólume pela estação em que os incêndios agrícolas da vizinhança costumam lamber-lhe as bordas, enquanto a maioria das duzentas e setenta e tantas cataratas se reduzem a filetes de água no basalto lambido. Em meados setembro, as copas desfolhadas se misturavan com as copas floridas, emprestando cores de outono em país de clima temperado à mata tropical que estofa as margens do cânion, sobre o leito do Iguaçu.

Regulado pelas barragens de quatro hidrelétricas a montante (e vem por aí uma quinta usina), deu para ver, neste ano de estiagem mais curta e branda, que o fluxo do rio Iguaçu atende mais à influência do abre-fecha de comportas do que propriamente das flutuações naturais do clima.

O rio míngua pontualmente aos sábados, assim que o consumo de energia baixa no fim de semana, induzindo as represas correnteza acima a estocar água. E engordam a partir de segunda, quando a demanda maior de eletricidade escancara os vertedouros das usinas. Tem um comportamento quase previsível. Mas segundo um calendário que é o avesso do sobe-desce da visitação turística, nos portões do parque.

Descontados os efeitos especiais da manipulação humana, não poderia haver melhor ocasião para aprender com bichos e plantas a não se iludir com as agendas oficiais. Há meses, o chão continuava encharcado e as botas a escorregar na lama vermelha, quando as folhas da floresta semidecidual começaram pontualmente a cair, preparando as árvores para uma estiagem que, na prática, não veio.

E ainda fazia frio quando, semanas atrás, os andorinhões voltaram ao Iguaçu. Eles andavam sumidos desde o verão. Chegaram antes da primavera para inaugurar a estação do acasamento e da nidificação, que em seu caso acontece atrás das cortinas de água. São pássaros temerários, esses andorinhões.

Eles grudam ninhos com barro e saliva em paredões a pino, cobertos por cortinas d'água que nosso olhar - e pelo visto também o dos predadores - não atravessa. São um dos símbolos do parque nacional Iguazu, no lado argentino, embora não seja endêmico de lá ou daqui típico. Seu habitat se espalha por vários países aulamericanos, combina florestas tropicais com capoeiras, reservas naturais com áreas obviamente antropizadas.

Eles têm um nome vulgar mais longo que o científico, o que é raro na taxonomia. Chamam-se, por extenso, andorinhões-velhos-da-cascata. E, no dialeto ornitológico, Cypseloides senex. Portanto, o "velho" de seu nome popular tem o endosso científico do "senex". Mas "andorinhão", no duro, a ornitologia ensina que ele não é. Trata-se de um membro da família Apopidea. Uma ave de pernas curtas, como as de seus primos beija-flores.

É com essas patas atrofiadas que ele se ancora nas pedras das cachoeiras. Seus ninhos não poderiam ter aparência mais precária. No entanto, é para eles que os andorinhões retornam, ano após ano, no fim de suas ausências migratórias. Os filhotes, crescendo pendurados no abismo, são especialmente "pacatos", como observou o ornitólogo Mauro Pichorim no parque estadual de Vila Velha, também no Paraná: "Não piavam e agarravam-se aos ninhos". Afinal, piar para quê, diante do estrondo da cascata? E soltar o ninho como, antes de aprender com os pais a furar a barreira d'água?

Além do desafio de flagrá-los agarrados nas rochas, meio escondidos pelas águas, o sinal mais notório de sua presença é o show permanente de vôos acrobáticos que encenam diante das cachoeiras. Lá vão quase dois anos que fiz no Salto Floriano, por obra e graça dos andorinhões, minha foto predileta, em muitos anos de perseguição mais ou menos sistemática a imagens da natureza.

Ela nunca apareceu aqui no blog, em parte por estava reservada a publicação em livro. Mas debitou meses atrás na revista Piauí. E aí vai ela de novo. Para quem se interessa por detalhes técnicos, ela resultou da mistura de acaso com premeditação.

Depois de ver de relance uma cena parecida diante do salto, montei a câmera sobre tripé no mirante do elevador, mantendo o ponto onde o primeiro alinhamento de andorinhões havia ocorrido. O obturador foi travado em um milésimo de segundo. E o diafragma, com teleobjetiva média, de 150 milímetros, fechado em f 8, para garantir alguma profundidade de foco e todos os automatismos desligados.

Pronto para o que desse e viesse, sem tirar o olho da frenética dança dos andorinhões, apertei o disparador até perder a conta, cada vez que o vôo dos pássaros dava a impressão de bisar a cena original. Ao fim de mais ou menos uma hora, estavam depositadas no cartão de memória da Canon 50D dezenas de fotos inaproveitáveis, ou mesmo vazias de pássaros. Mas havia quatro ou cinco publicáveis. E esta, até hoje minha favorita. O que não significa que não se continue daqui para a frente tentando fazer outra melhor. Simplesmente porque fotografá-los é irresistível.

http://marcossacorrea.com.br/2010/09/29/primavera-por-aqui-quer-dizer-a…

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