CB, Brasil, p.16-17
15 de Abr de 2005
E céu é a fonte do sertanejo
No país, mais de cinco milhões de pessoas não têm água potável para beber. Em vez da transposição do São Francisco, especialistas dizem que saída pode estar em obras de baixo custo como as cisternas do Piauí
Erika Klingl
Enviada especial
Sempre que "Seu Bastinho", apelido de Sebastião Germano de Sousa, de 53 anos, recebe alguém importante em sua casa, ele anota cuidadosamente o nome da pessoa numa folha de papel e guarda junto ao oratório que ganhou de seu avô, que foi escravo no Piauí. O santuário de madeira ocupa lugar nobre em sua casa, localizada na comunidade quilombola de São Martins, a 450 quilômetros de Teresina (PI). Nas cinco décadas em que mora lá, ele nunca recebeu visita mais ilustre do que a das pessoas que construíram a cisterna de concreto e tela no início deste ano. "O nome de todos eles está muito bem guardado na nossa lembrança", afirma.
Ele foi escolhido para receber uma das seis cisternas que serão construídas na comunidade este ano pelo programa dos governos federal e estadual de distribuição de reservatórios. Cada uma delas custa R$ 1,2 mil. Muito pouco, se comparado ao sonho da maioria dos sertanejos de encontrar, no quintal de casa, água limpa para os filhos beberem.
A população de São Martins não aparece nos cálculos de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), usado para comparar a vida da população de um lugar com o restante do mundo. O IDH leva em conta a esperança de vida ao nascer, as taxas de alfabetização e de matrícula em escolas e o produto interno bruto per capita. Mas não é preciso ser especialista para checar o grau de pobreza de todos que moram naquele lugar. Vivem da roça de milho que depende de muito mais chuva do que costuma cair do céu todos os anos durante o verão. Além disso, cultivam algumas galinhas caipiras e bodes.
Privilégio
"Seu Bastinho" sabe que é um premiado. Além da sua casa, onde vive sua numerosa família - dezesseis pessoas dividem a residência de cinco cômodos -, apenas a igreja de São Martins tem cisterna na cidade. "Já bebi água assim, é doce e boa demais", conta. O gosto atribuído à água da cisterna se explica facilmente. Atualmente, as 87 famílias da comunidade, todas descendentes de escravos, bebem água salobra que é retirada de um pequeno poço localizado a pouco mais de três quilômetros do lugar. Como a bomba que leva a água para a caixa no centro de São Martins está quebrada desde setembro, mulheres, homens e crianças têm que buscar em recipientes o líquido nos ombros ou na cabeça.
A realidade dos quase 500 moradores de São Martins se repete por todos os nove estados do Nordeste. Só no Piauí, 178 mil pessoas não têm água potável para beber. No país, a soma de sertanejos com sede ultrapassa a marca dos cinco milhões. A solução para boa parte deles, garantem os estudiosos, passa longe da transposição do rio São Francisco, um dos projetos prioritários do governo federal. A saída está em obras pequenas e discretas, que são deixadas de lado por vários políticos por não chamarem atenção do povo. "A água que vai chegar na ponta e matar a sede das marias e raimundos é a das cisternas e das barragens", explica o consultor do Projeto Cisterna no Semi-Árido, Ciro José Braga.
Para o ano
Apesar de ser o grande orgulho de sua vida e a principal herança que deixará aos filhos, a cisterna de "seu Bastinho" ainda está vazia. A falta de uma tampa adequada faz com que a água não esteja protegida de dejetos de animais ou insetos. "Isso não importa agora, o que importa é que eu tenho. Mesmo que seja para o próximo ano", diz, referindo-se à possibilidade de só usar o reservatório em 2006. As chuvas no semi-árido terminam no próximo mês e sem cair água, não existe forma de encher a cisterna.
A sorte de Neuza Pereira de Sousa, 46, a mulher dele, é que a barragem construída pelo marido e os oito filhos ainda tem água e deve seguir assim até agosto, dois meses depois do início da estiagem. Para a família, o problema é que a água, apesar de não ser salobra, é muito turva. Tanto que é impossível ver o fundo dos galões de menos de um metro de profundidade que ficam na sala, onde eles escovam os dentes e almoçam todos os dias.
É difícil descrever o que significa para uma família que vive no semi-árido receber no quintal de casa a garantia de água para beber por todo o ano. A cisterna é exatamente isso, contanto que seja usada de forma racional. Os projetos de distribuição desses reservatórios na região atuam, antes de mais nada, no esclarecimento do sertanejo. "É importante que eles saibam como limpar o telhado e as calhas que ajudarão a captar a água da chuva", explica Gerardo Vieira Lima, coordenador do Projeto Cisterna no Semi-Árido. "Além disso, o consumo tem que ser responsável para que dure todo o inverno." Para o sertanejo, o inverno não significa, como para o resto do mundo, a estação fria. É a época do ano que não chove. Começa no fim de maio e só termina em janeiro.
Baixo custo
As cisternas têm capacidade para 16 mil litros de água e baixo custo de instalação porque são construídas com a utilização de mão-de-obra local e com materiais adquiridos na própria região. O presidente da Associação de Moradores de São Martins, Francisco Bento Pereira, 28, fez curso de pedreiro para poder, um dia, construir sua cisterna. Ainda não a fez porque espera receber parte da matéria-prima - ainda sem previsão. "Não vejo a hora. Não sei até hoje o que é passar um dia sem sofrimento nessa vida", lamenta-se.
O reservatório com que tanto sonha Francisco é construído enterrado no chão até cerca de dois terços da sua altura. É feito com placas de concreto com tamanho de 50 por 60 cm e com 3 cm de espessura. A parede é levantada com essas placas finas, a partir do chão já cimentado. Para evitar que a parede venha a cair durante a construção, ela é sustentada com varas até que a argamassa esteja seca. Depois disso, um arame de aço é enrolado no lado externo da parede que é rebocada.
Num segundo momento, constrói-se a cobertura com placas premoldadas, colocadas em cima de vigas de concreto armado e rebocadas por fora. Após a construção da cisterna são instaladas calhas nos telhados e a partir de canos de PVC que direcionam a água da chuva ao reservatório, onde fica armazenada. Todo o processo custa, segundo Gerardo Lima, R$ 1,2 mil. "Não é caro para a revolução que isso causa", afirma.
Líquido salobro em São Martins
Nas últimas semanas, Francisco Bento Pereira, presidente da Associação de Moradores de São Martins, organizou entre os que sabem assinar o nome na cidade um abaixo-assinado pedindo à prefeitura de Paulistana, maior município da região, o conserto da bomba, que funciona a diesel. A energia elétrica ainda não chegou à comunidade quilombola. Sem a bomba, a água salobra que abastece a comunidade não chega.
Desde que a bomba quebrou, em setembro do ano passado, a vida da família de Francisco Bento Pereira e dos demais moradores de São Martins se transformou num inferno. As pessoas conseguem trazer a água com gosto de sal em baldes e galões para casa, mas certas atividades, consideradas simples para todos, viraram um verdadeiro desafio. Para lavar roupa, por exemplo, as mulheres precisam se caminhar 25 quilômetros. Por sorte, elas podem pegar carona no caminhão da prefeitura de Paulistana que passa uma vez por semana na comunidade para levar os produtos cultivados para venda na feira da cidade.
Na caçamba do caminhão, dividindo espaço com um pouco de milho, mandioca e feijão, todas as sextas-feiras, elas seguem para o maior reservatório do município, que abastece a cidade. Lavam roupa durante o dia e voltam quando o caminhão retorna. Isso quando o inverno não é muito seco. Este ano, a barragem quase secou porque a chuva atrasou um mês. Não deu para lavar roupa lá. "Foi um sofrimento. Tivemos que brigar por água num barreiro que fica longe daqui para dar o que beber aos animais, molhar a roça e ainda levar a vida. Cada vez que isso acontecia era mais de meio-dia de trabalho perdido", lembra Francisco.
A conseqüência da seca na rotina dessas pessoas é muito pior do que uma muda de roupa suja no canto de casa. Sem água, eles não têm como molhar o cultivo de feijão e milho. Muito menos dar o que beber aos animais. "Não existe um aqui que não passe fome de vez em quando. A gente luta para estar vivo." (EK)
Onze estados sofrem na seca
O semi-árido brasileiro ocupa mais de 85% da região Nordeste, além de 11% de Minas Gerais e 3% do Espírito Santo, somando uma área total de 974.752 km2. São mais de 1.400 municípios em 11 estados que apresentam um retrato da diversidade brasileira, em que convivem negros, brancos e indígenas. Nessas cidades, estão registrados os piores indicadores sociais do país. Dos 26,4 milhões de habitantes dos municípios do semi-árido, 10,9 milhões têm de 0 a 17 anos. Ou seja, quase 41,3% da população total dessa região. De acordo com o estudo Crianças e Adolescentes no Semi-Árido Brasileiro 2003, 75% da famílias que vivem lá possuem renda per capita inferior a R$ 130 por mês, o que equivale a meio salário mínimo. Além disso, em 95% dos municípios, a taxa de mortalidade infantil é superior à média nacional. (EK)
O drama de Martiniano
Aos 90 anos de idade, João Martiniano Pereira é o mais velho morador de São Martins. Todas as 87 famílias que moram na comunidade têm alguma relação familiar com ele. São sobrinhos, primos distantes, afilhados, além de dez filhos. Apesar disso, ele não está na lista das seis famílias beneficiadas com cisterna no município no programa financiado pela ONG Articulação do Semi-Árido (ASA) e pelos governos federal e estadual.
O programa foi lançado no início do mês no Piauí, com a presença do governador do estado Wellington Dias (PT). Serão 3.500 cisternas construídas este ano em 35 cidades, das mais de 150 que fazem parte do semi-árido no estado. Em São Martins, que faz parte do município de Paulistana, só seis famílias serão beneficiadas. "Ainda é pouco, mas nas próximas etapas vamos abrir o leque de atuação do programa", garante o consultor do Projeto Cisterna no Semi-Árido, Ciro José Braga.
O convênio para a construção dos reservatórios ultrapassa os R$ 4 milhões, dinheiro que será repassado para que associações de cada município executem a construção das cisternas. O filho do meio de João Martiniano, Pascoal João Pereira, 56, não escondia a decepção. "A gente pediu muito a Deus para que a cisterna chegasse também para meu pai, mas ainda não foi dessa vez. Quem sabe na próxima", lamentou-se. A escolha dos beneficiados em São Martins foi aleatória.
Devoto de Santo Antônio, Martiniano reza todos os dias. "Peço saúde para continuar a andar, mesmo que seja devagarinho, e para que não falte água para meus netos e bisnetos", diz. A dificuldade do ancião da comunidade se explica. A vida do sertanejo é dura. Todos trabalham de sol a sol na roça para conseguir trazer comida para casa. Quando a água falta, logo cedo é necessário andar atrás de um poço ou barreiro. "Perdi as forças depois que construí vários poços aqui na região. Assim como eu, todos secaram", afirma o velho Martiniano.
O projeto de distribuição de cisternas pelo semi-árido começou com a ASA, organização que reúne cerca de mil organizações sociais, associações comunitárias, entidades vinculadas à igreja, sindicatos de trabalhadores, desde 1999. O projeto é otimista: construir um milhão de cisternas em cinco anos. Em 2004, primeiro ano, foram construídas quase 60 mil. Cada uma é capaz de atender uma família com cinco pessoas durante a seca. As cisternas cedidas pelo governo do Piauí são idênticas ao projeto do ASA.
Conformismo
"Não adianta brigar contra a seca, ela está aí. Temos que aprender a conviver com ela", diz o governador Wellington Dias. O semi-árido ocupa 11 estados brasileiros - os nove do Nordeste, além de Espírito Santo e Minas Gerais -, totalizando cerca de um milhão de quilômetros quadrados. Nessa região, as chuvas são concentradas nos primeiros meses do ano, sobretudo fevereiro, março e abril. Quando a água chega, as condições de vida melhoram. Mas, quando vem a estiagem, a luta pela água incorpora-se ao cotidiano das pessoas. "Quando a gente anda no Piauí esta época do ano, tudo é muito farto. Não tem estrada que não tenha atoleiro por causa da quantidade de chuva", explica a técnica do Instituto de Assistência Técnica de Extensão Rural (Emater), Fátima Vieira. "O problema é que tudo se perde. Uma semana sem chover e a sede já volta a assolar." (EK)
Segurança a 12 milhões
O ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, argumenta que a transposição das águas do rio São Francisco é fundamental para abastecer os municípios do semi-árido nordestino, apesar de não ser suficiente para matar a sede de toda população. "O projeto da integração das bacias vai dar segurança hídrica a 12 milhões de pessoas que habitam as pequenas, médias e grandes cidades do Nordeste", disse.
De acordo com o ministro, o governo não está investindo exageradamente na transposição do rio. "São R$ 4,5 bilhões, o equivalente ao custo social de duas secas", disse, ao argumentar que não dá para pensar apenas em resolver a questão das pessoas que vivem dispersas. "As cisternas só resolvem o problema de água para beber e as produções na roça e dos animais?", pergunta. "Mesmo assim, até o momento, a Articulação do Semi-Árido (ASA) e nós, do governo, construímos cerca de 70 mil cisternas." (EK)
CB, 15/04/2005, Brasil, p. 16-17
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