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Drones e inteligência artificial para contar botos

O Globo, Sociedade, p. 26
27 de Ago de 2018

Drones e inteligência artificial para contar botos

SÉRGIO MATSUURA

Os botos-cor-de-rosa e os tucuxis (botos-cinzas) são símbolos da bacia amazônica e imprescindíveis para a biodiversidade dos rios da região, mas a falta de informações sobre esses dois animais impede a implementação de políticas de proteção. Por deficiência de dados, as duas espécies estão classificadas na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) como "data deficient". Por isso, ambientalistas estão apostando na tecnologia dos drones para a construção de estimativas populacionais.

- Hoje, não temos como dizer se os botos e tucuxis são muitos ou poucos. Só depois de alguns anos de observação poderemos avaliar as tendências populacionais e avaliar a sustentabilidade - explicou Daiane da Rosa, pesquisadora do grupo de estudos sobre mamíferos aquáticos do Instituto Mamirauá. - Os drones podem acelerar e baratear essas pesquisas.

A tecnologia está em fase de testes, indo para campo junto com as equipes que fazem a contagem tradicional. A bordo de voadeiras, os pilotos dos drones filmam do alto o trabalho dos três observadores (dois na proa e um na popa), que contam os animais quando eles sobem à superfície para respirar. Os vídeos, cada um com 15 minutos, são assistidos pelos pesquisadores, que comparam os resultados dos dois métodos.

O projeto está em sua segunda fase de testes, que cobriu 310 quilômetros de rio, com cerca de 40 horas de filmagens. Para agilizar o processo de análise, uma parceria com a Universidade de Liverpool está desenvolvendo um algoritmo para a contagem automatizada dos animais. Segundo Marcelo Oliveira, da ONG WWF-Brasil, o sistema já alcançou índice de acertos de 94% e, em muitos casos, indicou botos que não haviam sido contabilizados pelos observadores.

- Às vezes acontece de cinco ou seis botos subirem para respirar ao mesmo tempo, e os observadores não dão conta de todos. Com as imagens, você pode pausar o vídeo ou assistir de novo para fazer a contagem correta - explicou Oliveira. - Ainda acontecem falsos positivos, como a identificação de um tronco de madeira como um boto, mas o sistema está sendo ajustado. Quanto maior o volume de observações, melhor ele fica.

Se os testes forem bem sucedidos, será possível reduzir a equipe de observadores para apenas um piloto de drone, permitindo uma cobertura maior, com resultados mais rápidos e menos recursos. Também está sendo avaliado o uso de drones autônomos, capazes de percorrer rotas pré-definidas.

CADEIA EM EQUILÍBRIO

Os dois cetáceos são considerados fundamentais para o equilíbrio do ecossistema nos rios amazônicos por serem predadores de topo de cadeia alimentar. São eles que controlam o nível populacional de outras espécies de menor porte e seu desaparecimento poderia provocar o efeito conhecido como cascata trófica, com o descontrole da população de peixes e impacto nos produtores.

Além da importância ambiental, existe a questão cultural. A Lenda do Boto já foi incorporada ao folclore nacional e, na região amazônica, partes do animal são usados em remédios e encantamentos. Os olhos são considerados amuletos e os órgãos sexuais - o "sexo do boto" e o "sexo da bota" -, afrodisíacos que continuam sendo comercializados em feiras livres, tornando o animal alvo de pesca apenas para a remoção dessas partes.

A carne de botos e tucuxis é pouco apreciada no Brasil, mas nos últimos anos eles vêm sendo caçados para servir de isca para a piracatinga, peixe de alto valor comercial. A captura acidental em redes de pesca também coloca pressão sobre as espécies, mas a principal ameaça é a construção de represas para usinas hidrelétricas.

- São cerca de 300 projetos de hidrelétricas na Amazônia, por isso o trabalho vai além das fronteiras do Brasil, com pesquisas na Colômbia, no Peru, na Bolívia e no Equador - disse Oliveira. - Nós precisamos estabelecer minimamente o número de animais. A expectativa é que em três anos consigamos classificar as tendências populacionais em agências internacionais.

A equipe também testa o uso de câmeras termais, para observação do comportamento dos animais durante a noite, e de rastreadores por satélite para acompanhar os padrões migratórios.

O Globo, 27/08/2018, Sociedade, p. 26

https://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/pesquisadores-usam-drones…

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