CB, Mundo, p. 22
19 de Ago de 2007
Drama globalizado
Tragédias causadas pela mudança climática são mais freqüentes, e número de mortes provocadas por terremotos cresce devido à aglomeração populacional em áreas de risco. Prevenção pode salvar vidas
Da redação
Dias antes do assombroso terremoto que arrasou o sul do Peru, na última quarta-feira, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou um relatório afirmando que a ação humana provoca um aumento no número de desastres naturais no mundo. O primeiro semestre de 2007 registrou uma série recorde de eventos climáticos extremos, incluindo as enchentes na Ásia, as ondas de calor na Europa e a precipitação de neve na África do Sul. A contagem não incluiu catástrofes provocadas por tremores de terra ou erupção vulcânica. Mas todos esses fenômenos têm algo em comum: causam cada vez mais vítimas porque ocorrem em regiões
de população crescente e infra-estrutura inadequada.
O terremoto no Peru reforçou a preocupação da comunidade internacional com os desastres naturais. Segundo a ONU, o número anual médio de catástrofes como enchentes, ondas de calor, incêndios e furacões, entre outros eventos, pulou de 200 em 2004 para o dobro em 2006. Apenas no decorrer deste ano, 117 milhões de pessoas em todo o mundo foram diretamente atingidas por cerca de 300 catástrofes naturais, incluindo secas devastadoras na China e inundações na Ásia e na África. Os prejuízos acumulados em 2007, sem contar o tremor no Peru, superam os US$ 15 bilhões.
Em relação aos terremotos, não há constatação de maior incidência nos últimos anos, mas um cientista britânico sustenta que os abalos sísmicos também podem ocorrer com mais freqüência sob influência do aquecimento global. Bill McGuire, diretor do Benfield UCL Hazard Research Centre, de Londres, acredita que o aumento da temperatura faz derreter o gelo nos pólos, o que aumentaria o nível do mar e o volume da água na superfície terrestre. Mais "pesados", os oceanos exerceriam uma forte pressão sobre as placas tectônicas, resultando num aumento da atividade sísmica e vulcânica.
"Descobrimos que não são apenas os oceanos e a atmosfera que estão conspirando contra nós, trazendo altas temperaturas, tempestades cada vez mais poderosas e enchentes. Parece que a crosta debaixo dos nossos pés também resolveu aderir ao movimento", escreveu McGuire em artigo no jornal The Guardian. "A Terra está respondendo como um sistema integrado às mudanças climáticas produzidas pelo homem. Talvez o planeta esteja querendo nos dizer algo. Seria bom ouvir o recado antes que seja tarde."
A tese controversa é rebatida por Stuart Sipkin (do US Geological Survey) e David Wald (da Escola das Minas do Colorado), dois conceituados geólogos norte-americanos. Ambos sustentam que não há nenhuma relação entre mudanças climáticas e fenômenos geotectônicos. "A liberação de energia que provoca os terremotos é resultado da movimentação tectônica, que ocorre numa escala de centenas de milhares de anos. A incidência de tremores, sua localização e seu tamanho permanecem constantes durante dezenas de gerações humanas", afirma Wald.
Segundo o cientista, não são os terremotos que ocorrem com maior freqüência, mas é o número de mortes causadas por eles que cresce. "Os terremotos matam principalmente por causa do desabamento de construções.
Quanto maior a população nas áreas de risco, muitas das quais sem infra-estrutura para resistirem a esse tipo de impacto, maior será o número de vítimas ao longo dos anos. Mas os terremotos em si não mudam."
De acordo com um estudo feito pelo norte-americano James Biles, da Universidade de Indiana, e pelo argentino Daniel Cobos, da Universidade Nacional de Cuyo, a América Latina é uma das áreas mais expostas a desastres - enchentes, vendavais, vulcões, terremotos e deslizamentos. Nos últimos 10 anos, eles resultaram na morte de 45 mil pessoas e causaram prejuízos de US$ 20 bilhões.
Construções
No caso dos terremotos, a maneira mais eficiente de reduzir os danos é melhor a resistência das construções em áreas de risco.
"Aprimorar a qualidade das construções é uma boa maneira de se evitar novas tragédias, mas, por razões financeiras, isso é difícil de se conseguir em muitas regiões do mundo. De qualquer maneira, mesmo alterando as normas de edificação, construções mais antigas continuarão existindo, com todos os riscos que isso pressupõe", afirma David Wald. Ele admite, entretanto, que o caso do Peru prova que dificuldades econômicas impedem a implementação de regras mais rígidas. A realização de campanhas prévias para conscientizar populações expostas sobre como reagir em caso de perigo e o aperfeiçoamento dos sistemas de alerta contra tsunamis também podem salvar vidas.
Em relação aos desastres comprovadamente ocasionados pelo aquecimento global, o cenário é pouco animador. Segundo uma pesquisa da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, as temperaturas em elevação vão aumentar o risco de incêndios florestais, secas e inundações pelos próximos dois séculos. Nem mesmo a interrupção imediata das emissões nocivas impediria que muitas regiões do planeta ainda sofram um maior risco de desastres naturais nas próximas décadas.
Furação Dean ameaça Caribe
Com ventos de 240 km/h, o furacão Dean mantém sob alerta máximo a República Dominicana, o Haiti, a Jamaica e as Ilhas Cayman. O governo da Jamaica emitiu um aviso da tempestade de força 4 - numa escala que vai até 5 - e, nas Ilhas Cayman, permanece vigente uma vigilância de furacão (passagem em 36 horas), informou ontem o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC, na sigla em inglês). "Todos os preparativos para proteger a vida e as propriedades devem ser concluídos", recomendou o NHC, com sede em Miami.
O ciclone, o primeiro da atual temporada de furacões no Atlântico, já provocou a morte de três pessoas, e se dirige à República Dominicana e ao Haiti. Caso mantenha a trajetória prevista, o Dean deve chegar hoje à Jamaica e se tornar uma tempestade de categoria 5. No final da tarde de ontem, o furacão já provocava fortes temporais na República Dominicana e no Haiti. Amanhã, ele deve se aproximar de Cancun, no México, com ventos de 321km/h.
CB, 19/08/2007, Mundo, p. 22
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