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As donas da poluição

O Globo, Ciência, p. 36
21 de Nov de 2013

As donas da poluição
Noventa empresas foram responsáveis por 63% das emissões de CO2 na atmosfera

Renato Grandelle

Noventa empresas são responsáveis por 63% de todas as emissões de gases-estufa desde a Revolução Industrial, em meados do século XVIII. A grande maioria das companhias é ligada à produção de gás, petróleo ou carvão, segundo estudo divulgado ontem pelo jornal "Guardian".
As empresas listadas emitiram 914 gigatoneladas de CO2 entre 1751 e 2010. No ranking figuram multinacionais como British Petroleum, Chevron e Exxon Mobil. A Petrobras é a única empresa brasileira presente no estudo. A petrolífera liberou 5,99 gigatoneladas de CO2 desde sua criação - o equivalente a 0,41% de todas as emissões de gases-estufa provocadas pelas companhias.
Estima-se que metade das emissões foram realizadas nos últimos 25 anos. No início deste período, a comunidade científica já estudava a possibilidade de que a ação humana era responsável pelas mudanças climáticas.
O estudo divulgado pelo "Guardian" ressalta como as emissões podem ser agravadas. Afinal, a maioria das empresas que mais poluem o planeta contam com grandes reservas de combustíveis fósseis. A queima destas substâncias jogaria ainda mais CO2 na atmosfera, contribuindo para o aquecimento global.
Conflitos na conferência do clima
Reunidos em Varsóvia na 19ª Conferência do Clima (COP-19), mais de nove mil delegados de cerca de 190 países parecem cada vez mais distantes de um acordo que limite as emissões de CO2 para frear o aumento da temperatura global.
Os países em desenvolvimento, reunidos no bloco G77, se queixam da demora para a criação de um mecanismo de perdas e danos, em que nações atingidas por eventos extremos receberiam auxílio financeiro para sua recuperação. Esperava-se que este acordo fosse o maior legado da conferência.
O debate estendeu-se até às 3 horas da madrugada de ontem, quando os países-membros do G77 abandonaram o plenário.
Outra controvérsia é a criação de um acordo que estabeleça, até 2020, metas obrigatórias para a redução de emissões de CO2. Os rascunhos do novo documento geraram divisões entre o G77 e a China, que integra o bloco. Alguns países africanos passaram a negociar diretamente com a União Europeia.
- Estes são exemplos da dificuldade para que um texto seja aprovado por todas as nações - lamenta André Nahur, coordenador interino de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil. - Os países insistem em um modelo de negociação que adia um tema (as mudanças climáticas) que já afeta a vida das pessoas.
O G77 usa o tufão Haiyan - que provocou mais de 4 mil mortes em sua passagem pelas Filipinas, no início do mês -, como um exemplo de sua necessidade por recursos estrangeiros após desastres naturais.
Resistência a compromisso formal
As nações desenvolvidas, no entanto, resistem a pagar as contas dos países em desenvolvimento. EUA e União Europeia alegam que sua prioridade é a recuperação de suas economias.
- Não podemos ter um sistema que nos obrigue a contribuir financeiramente depois de qualquer evento extremo em qualquer parte do mundo - ressalta a comissária europeia para a Ação Climática, Connie Hedegaard.
Mesmo resistentes a um compromisso formal, alguns países desenvolvidos buscam outros métodos que mostrem sua disposição para evitar as mudanças climáticas.
Ontem, EUA, Noruega e Reino Unido anunciaram que vão destinar US$ 280 milhões para o combate ao desmatamento e o incentivo à agricultura sustentável. A queima de florestas é responsável por cerca de 20% das emissões de gases-estufa. A área verde devastada por ano tem um tamanho equivalente ao da Costa Rica.
No Brasil, o ritmo de desmatamento na Amazônia subiu 28%, de agosto de 2012 a julho deste ano. Para combater um novo avanço deste índice, o Ministério do Meio Ambiente lançou ontem, em Varsóvia, uma plataforma que tornará mais transparente as ações que evitam o desflorestamento.
O sistema acompanhará as metas assumidas pelo país para limitar a liberação de gases-estufa para a atmosfera. Na COP-15, o governo anunciou sua intenção em reduzir, até 2020, entre 36,1% e 38,9% suas emissões de CO2.
Em outro evento em Varsóvia, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável alertou, em um novo relatório, que a liberação de gases-estufa do Brasil está aumentando em diversos setores. Na matriz energética nacional, as emissões de CO2 crescem 3,5% ao ano, devido à perda de participação das hidrelétricas para fontes não renováveis. Os dados estão no estudo "Adaptação e Vulnerabilidade à Mudança do Clima: o caso do setor elétrico brasileiro".

Presidente da convenção é demitido pelo governo

Na antevéspera do encerramento da COP-19 o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, causou espanto nos negociadores ao demitir o presidente da conferência, o ministro do Meio Ambiente Martin Korolec. Ele continuará à frente do encontro, mas sua queda do poder levantou dúvidas quanto ao compromisso da Polônia no debate.
Korolec era criticado no governo por atrasar a regulamentação necessária para a exploração do gás de xisto - uma medida que Tusk considera prioritária. Atualmente, cerca de 90% da energia polonesa é gerada por carvão.
O diretor do Greenpeace na Polônia, Maciej Muskat, ironizou a demissão:
- A ideia é trocar um combustível fóssil por outro.

O Globo, 21/11/2013, Ciência, p. 36

http://oglobo.globo.com/ciencia/noventa-empresas-foram-responsaveis-por…

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