VOLTAR

Doença de Chagas volta, transmitida por via oral

OESP, Vida, p. A12
28 de Abr de 2008

Doença de Chagas volta, transmitida por via oral
Já houve surtos em 86 cidades do Pará produtoras de açaí e com alto índice de desmate

Fabiane Leite

A doença de Chagas avançou no último ano na região amazônica, área antes considerada livre do problema, e na forma oral, ou seja, relacionada ao consumo de alimentos contaminados, como açaí e cana-de-açúcar - e não à transmissão por picada de inseto. Mais de cem casos agudos da doença, que pode afetar o coração e matar, foram registrados, a maioria no Pará, pelo consumo de açaí. Os produtos pasteurizados (industrializados) não oferecem risco.

O Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, que acompanha surtos e emergências, aponta os casos de doença de Chagas aguda como um dos mais comuns no País nos últimos dois anos. Há suspeitas também no Piauí e na Bahia.

Desde 2006, a forma de transmissão oral passou a ser considerada relevante pelos órgãos de saúde. Até então, a preocupação era apenas com a transmissão vetorial, pela picada do inseto conhecido como barbeiro (triatoma) contaminado pelo protozoário causador da doença, que costuma infestar as casas das vítimas. Na transmissão oral, o inseto contaminado ou suas fezes são triturados ou processados em alimentos consumidos crus.

"A estratégia agora é diferente, o barbeiro não é domiciliado, a região não é de mata e existe uma quantidade de outros tipos de triatomas envolvidos. Ainda não sabemos qual é o fator que pode explicar isso, se é o alimento ou o vetor. Existe um ponto de interrogação. É uma doença que nunca tivemos, que mudou seu padrão epidemiológico", afirma a Coordenadora da Vigilância de Doenças Transmitidas por Vetores do Ministério da Saúde, Rosely Cerqueira.

Ela lembra que, por coincidência, em 2006 o País havia recebido certificado por ter eliminado a transmissão por um tipo de barbeiro. Um ano antes, em 2005, porém, houve o primeiro surto de transmissão oral, que ganhou grande destaque no País, após o consumo de caldo-de-cana contaminado em Santa Catarina. O Estado não voltou a registrar casos depois.

DESMATAMENTO

O ministério e a Secretaria Estadual de Saúde do Pará apontam problemas na manipulação de alimentos em geral e o desmatamento como possíveis causas do avanço da doença. Nos 86 municípios listados no Pará como prioritários para o combate à doença (60% das cidades do Estado), há incentivos à produção do açaí, além de alterações das condições ambientais , favorecendo a invasão de casas pelo barbeiro ou ataques ao ar livre e contaminação da comida.

No último ano, o Pará registrou 87 casos agudos - só os agudos são de notificação compulsória -, contra 83 em 2006 e 10 no ano anterior. A maior parte foi relacionada à contaminação do açaí. Neste ano, já houve dez casos registrados. A taxa de mortalidade varia de 4% a 7%, o que o próprio governo paraense relaciona à demora no diagnóstico. Pacientes chegam a esperar mais de um mês pelo resultado de exames, apesar do risco de a doença não tratada rapidamente tornar-se crônica.

CHAGAS E MALÁRIA

No Pará, a preocupação com a doença de Chagas levou o governo a capacitar a rede de laboratórios que pesquisam malária - doença endêmica na região amazônica - para que também façam o diagnóstico de Chagas. A meta é que, até junho, todos os microscopistas das 86 cidades com risco para Chagas estejam aptas a fazer os exames.

Segundo Elenild Góes, coordenadora do Programa de Controle da Doença de Chagas do Pará, já havia relatos da transmissão oral no Estado desde os anos 60, mas o problema não era registrado pelos serviços de saúde. "Começamos a registrar algo que vinha acontecendo."

O plano estadual de combate à doença, publicado em janeiro deste ano pelo governo, levou recentemente uma expedição de 45 pesquisadores de universidades, do ministério e das secretarias estadual e municipal a duas ilhas de Abaetetuba, locais de produção de açaí, para investigar áreas de risco. Foram colocadas armadilhas para barbeiros, colhidas amostras da vegetação e realizados exames de sangue em mais de 50% da população de 2.300 moradores. Além disso, o Estado fez palestras sobre a manipulação correta de alimentos. No entanto, ainda não há resultados publicados.

A secretaria estadual e o Ministério Público já fizeram acordo com a agroindústria para que seja feita a pasteurização de todos os produtos do açaí, o que elimina o risco da doença, mas o problema, diz Elenild, são os pequenos produtores, para os quais o processo é inviável por causa de seu alto custo.

"Sentia dores no fígado, falta de apetite, um desânimo total", conta a dona de casa Maria Francisca de Souza, que faz tratamento rigoroso para se curar da doença de Chagas. Ela costumava tomar o açaí comprado no ponto de uma vizinha, no bairro da Pedreira, em Belém.
COLABOROU CARLOS MENDES

Problema está na manipulação dos alimentos

Carlos Mendes

O aumento de surtos de doença de Chagas aguda abalou o mercado de açaí no Pará. O Estado exporta anualmente 450 mil toneladas de polpa congelada para o mercado internacional, principalmente Europa e Estados Unidos. O problema não está no fruto, e sim na manipulação. O barbeiro esconde-se nos recipientes onde o açaí, depois da colheita, é armazenado para ser batido na máquina.

Ao ingerir o suco, o consumidor é contaminado. Nos últimos dois anos, a Secretaria Estadual de Saúde notificou 180 casos, o maior índice do País. A maior parte provinha do consumo de açaí. Outros alimentos, como caldo-de-cana e sucos caseiros, também teriam sido contaminados.

O Ministério Público do Pará atualmente fiscaliza se um termo de ajustamento de conduta, assinado no fim do ano passado por mais de 300 donos de pontos de venda de açaí, está sendo cumprido. Eles se comprometem a adotar, na manipulação, preparo, armazenamento, distribuição e transporte, condições de higiene como lavagem com hipoclorito de sódio dissolvido em água e proteção dos locais contra insetos.

OESP, 28/04/2008, Vida, p. A12

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.