O Globo, O País, p. 5
25 de Jan de 2011
Documento aponta sobrepreço em usina de Furnas
Custo para erguer Hidrelétrica de Simplício dobrou, denunciam engenheiros; presidente da estatal contesta esse valor.
Elaborado por engenheiros de Furnas Centrais Elétricas, o documento que o deputado federal licenciado Jorge Bittar (PT-RJ) fez chegar às mãos do ministro Luiz Sérgio, da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, denuncia de que a Hidrelétrica de Simplício, erguida pela estatal na divisa do Rio de Janeiro com Minas Gerais, já acumula um sobrepreço de 100%. De acordo com os autores, o prejuízo anula a rentabilidade estimada, argumento que justificou a entrada da empresa no leilão do projeto.
Integrante do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a hidrelétrica é uma obra do Consórcio Construtor Simplício (CCS), formado pelas empresas Norberto Odebrecht e Andrade Gutierrez. O presidente de Furnas, Carlos Nadalutti Filho, admitiu ontem que problemas encontrados no decorrer da execução do projeto exigiram modificações que encareceram a obra. Mas ele negou que o sobrepreço tenha chegado a 100%. O presidente disse que o custo inicial de R$1,5 milhão saltou para R$2,2 milhões, uma diferença de R$700 milhões desembolsados pela estatal.
- Ganhou-se o leilão, na administração passada, com um anteprojeto, um estudo. Mas, quando precisamos detalhá-lo, apareceram os problemas. Descobrimos que o terreno que era considerado sólido não era tão firma assim e vice-versa. A usina que está sendo construída agora é totalmente diferente do projeto original - alegou Nadalutti.
O documento entregue ao ministro, que lamenta a rotina de "constituição de grupos de trabalho interno para justificar aditivos em contratos para pagamentos não previstos no empreendimento", expõe uma crise política em Furnas. Seus responsáveis sustentam que a empresa acumula prejuízos com Simplício porque foi aparelhada pelo PMDB fluminense e, particularmente, pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Desde 2007, quando o ex-prefeito Luiz Paulo Conde assumiu a presidência de Furnas, é conhecida a influência do PMDB nos rumos da empresa sediada no Rio. Como Conde adoeceu logo depois, o partido optou por um engenheiro de carreira, mas também peemedebista, Carlos Nadalutti Filho, para substituir o ex-prefeito.
Irritado com a mobilização dos engenheiros, Eduardo Cunha acusou setores do PT na empresa de estarem por trás das denúncias, numa tentativa de remover o PMDB e assumir o controle político na empresa. Em seu Twitter, quando descreve um suposto rateio das seis diretorias da empresa entre três partidos (PMDB, PT e PR), Cunha admitiu que os peemedebistas seriam os responsáveis pela indicação do presidente.
Em pelo menos duas oportunidades, Cunha foi motivo de protestos em Furnas. Nas duas vezes, ele foi acusado por dirigentes da Associação de Aposentados (Após-Furnas) de tentar destituir o presidente e indicar um aliado para a direção do Real Grande, o fundo de previdência privada da empresa, um dos maiores do país.
O documento dos engenheiros, cujo teor foi revelado ontem pelo GLOBO, aponta problemas em outros setores da estatal, sempre os atribuindo a influência política. Jorge Bittar disse que, como no momento responde como secretário municipal de Habitação, preferiu encaminhar a documentação ao governo federal:
- Não me deti nos números. O fato real de uma empresa tão experiente como Furnas, coisa ter sido feita dessa maneira, é um fato administrativo grave. Houve, no mínimo, descuido. Não tenho todos os elementos, mas a atual diretoria está levando a empresa para uma situação grave, quando deveria ser o oposto, um exemplo de gestão.
Quando pronta, a usina terá capacidade instalada de 333,7 MW, energia suficiente para abastecer 800 mil habitantes. A AHE Simplício é composto por duas usinas (Anta e Simplício) com uma barragem de concreto, duas casas de força, um vertedouro e uma série de canais, túneis, diques e reservatórios.
Recado
Entre as surpresas positivos neste início de governo Dilma, destaca-se a propalada intenção da presidente de nomear técnicos para cargos inadequadamente ocupados
por políticos.
A decisão abrangeria agências reguladoras - esvaziadas por meio deste tipo de nomeação partidária e ideológica - e, entre outras estatais, Furnas.
Se, De fato, a estatal do setor elétrico vier a ser moralizada, o Palácio terá feito importante avanço em defesa da ética na política. Um dos feudos do PMDB, Furnas padece de um tipo de aparelhamento executado com fins pecuniários.
Nadalutti admite indicação política
Presidente de Furnas diz que decisões são tomadas por um colegiado
O presidente de Furnas Centrais Elétricas, Carlos Nadalutti Filho, reconheceu ontem que chegou ao cargo por indicação do PMDB, "com muita honra", mas negou que tenha atendido a pressões de parlamentares de seu partido em dois anos e meio de gestão.
Embora conheça o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), apontado como responsável por sua indicação, disse que o político fluminense nunca esteve em seu gabinete ou fez qualquer pedido.
- Alguém me disse que tinha de ter padrinho político.
Em algum lugar, a escolha se dá pelo currículo? Se fosse, eu já teria virado presidente de Furnas há muito tempo.
Nadalutti disse que foi surpreendido com o documento produzido por engenheiros da empresa, entregue a autoridades federais e parlamentares, denunciando o aparelhamento político de Furnas pelo PMDB do Rio. Ele classificou de "ilações e inverdades" as situações descritas no dossiê, que os autores associaram ao mau resultado financeiro da estatal.
Nadalutti é filiado ao PMDB de Goiás
Há dois anos e meio no cargo, Nadalutti disse que é filiado ao PMDB de Goiás, mas não mantém vínculos com o partido no Rio. Garantiu que o responsável por sua indicação para presidir a empresa foi o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão. Contou que, inicialmente, em meados de 2008, quando era diretor da Enerpeixe, foi sondado por um colega de Furnas, integrante do PMDB fluminense, para ser diretor de Operações. Mas se surpreendeu meses depois ao descobrir que os planos eram outros.
- Em setembro, fui chamado a Brasília pelo ministro Edison Lobão. Então, ele anunciou que, a partir de 3 de outubro, eu seria o novo presidente da empresa. Cheguei a dizer que havia alguma coisa errada, pois o que sabia fazer era ser diretor de Operações. Ai, ele respondeu que eu tinha uma semana para me preparar.
Nadalutti, de 54 anos, afirmou que é o primeiro funcionário de Furnas a chegar ao cargo máximo da estatal e que a diretoria é um colegiado; o presidente está imune a pressões externas, porque não tem poderes para tomar decisões sozinho. É só mais um nome do colegiado.
- Para mandar comprar alguma coisa de mais de R$ 16 mil, a decisão tem de passar pelo colegiado. (Chico Otavio)
O Globo, 25/01/2011, O País, p. 5
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