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Documentário sobre Claudia Andujar é uma história sobre perdas

FSP - https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada
29 de set de 2020

Documentário sobre Claudia Andujar é uma história sobre perdas
'Gyuri' mostra tentativa de entender um mundo que se apresenta sempre hostil e de sobreviver em meio à destruição

Inácio Araujo
GYURI
Onde Disponível em itaucultural.org.br
Classificação Livre
Produção Brasil, 2019
Direção Mariana Lacerda
Duração 87 min

"Gyuri" começa muito estranho. Uma mulher narra ao entrevistador atento e curioso cenas de sua infância. Ela fala em húngaro com visível dificuldade. Terá sido seu idioma natal, mas não se expressa tão bem nele. O entrevistador a ajuda, e, assim, penosamente, Claudia Andujar narra, entre outros, a história de seu primeiro beijo. Um único beijo que lhe deu o menino Gyuri. Ela lembra esse momento intensamente. Logo depois Gyuri e o pai da mulher foram levados a Auschwitz e mortos. A idosa, a fotógrafa Claudia Andujar, ainda guarda consigo a foto dos dois -o pai e o namorado.
O que intriga -por que o entrevistador, o filósofo Peter Pál Pelbart, quer ouvir essa história na língua em que ela ocorreu? Peter é húngaro de nascimento (como, em linhas gerais, Claudia Andujar), com formação francesa e há muito vivendo no Brasil.
A cena seguinte nos leva a uma trilha na selva, percorrida por Claudia Andujar penosamente, numa cadeira de rodas, ora puxada e ora empurrada por Carlo Zacquini. Eles chegam enfim a uma aldeia ianomâmi, onde ela (sobretudo) é festivamente recebida. Ali encontram Davi Kopenawa, líder indígena ianomâmi. Também xamã e escritor.
Eles conversam, os quatro, em português. Recordam momentos vividos em conjunto no exterior. Duas coisas chamam a atenção -a admiração de Kopenawa pela capacidade de compreender a alma do outro demonstrada por Andujar, e suas queixas em relação ao governo brasileiro, que nunca compreendeu, nem remotamente, a alma do índio. Dividiu o território ianomâmi em 19 ilhas, cercadas de branquitude por todos os lados. Não é um lugar de liberdade, são prisões. O inverso do que ele concebe como vida para seu povo.
Claudia Andujar, sabemos, há muitos anos se dedica a esse povo e à sua alma, que busca em cada fotografia. Carlo Zacquini é um missionário católico. Não brasileiro, notamos pelo sotaque. Sabemos que Zacquini é um defensor dos índios também há décadas e que chegou a escrever cartas ao papa intercedendo pelos direitos indígenas.
Mas não é disso que se trata aqui. Nem das fotos de Andujar. Sim, há rostos de índios. Alguns felizes pela presença de pessoas amigas, algumas indiferentes, outras francamente assustadas -não com as visitas, aparentemente, mas com o destino que vislumbram para si.
Mas o que, afinal, conduz "Gyuri"? Essa é uma história de perdas e deslocamentos. A perda brutal de Gyuri, primeiro amor, parece orientar o destino de Claudia Andujar. Criada numa parte da Hungria que depois se tornaria Romênia, fugida do nazismo, com outra nacionalidade, andanças pelo mundo. Zacquini é um missionário, nômade por natureza. Kopenawa nasceu ianomâmi e livre e foi aprisionado em uma das ilhas criadas pelo governo brasileiro (isso num tempo em que o genocídio não era uma política de Estado mais ou menos explícita).
O que agrupa todos os momentos de "Gyuri" é, precisamente, o fato de os quatro personagens centrais desse encontro se sentirem, de algum modo, em exílio. Todos se expressam em alguma língua estrangeira (é o que no início Pál Palbert parece querer enfatizar). Seu idioma comum é o da imagem, que pode ser precária, como a velha fotinho de Gyuri, que nem chegamos a ver.
Essas falas de exílio, de deslocamentos, constituem o filme de Mariana Lacerda -a tentativa de entender, entre pessoas, um mundo que se apresenta sempre hostil, e de, pela compreensão, sobreviver, evitar o naufrágio de um mundo cada vez mais à vontade no idioma da intolerância e da destruição (da floresta e seus povos, para começar).

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