O Globo, Amanhã, p. 7
27 de Ago de 2013
Documentar para preservar
Pesquisa feita por universidades públicas cataloga diversidade surpreendente na fauna da região do talude continental, vulnerável à forte atividade sísmica e à exploração de óleo e gás
Bolívar Torres
bolivar.correa@oglobo.com.br
A porção final da plataforma externa atlântica do Sul e Sudeste do Brasil e do talude continental entre o Cabo de São Tomé, no litoral de Campos dos Goytacazes (RJ), é de grande interesse econômico para a indústria pesqueira e de óleo e gás. Mas embora tenha forte atividade de exploração, a região ainda é muito pouco conhecida do ponto de vista ecossistêmico. Ou seja, é preciso investigar o seu valor biológico e ecológico para saber exatamente quais são os riscos que sua exploração traz à fauna local.
Chegando agora à sua segunda fase, o Projeto Talude, iniciado em 2009 por universidades públicas brasileiras, coleta dados do ambiente oceanográfico, os quais incluem informações sobre as propriedades físicas e biológicas da água do mar. Em cruzeiros de pesquisa no navio oceanográfico Atlântico Sul, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), o projeto tenta compreender os fatores que determinam os padrões de distribuição e abundância de cetáceos (baleias e golfinhos) e aves marinhas. O objetivo é identificar áreas biológicas e ecologicamente relevantes para poder preservá-las. A pesquisa vai até 2015, mas a riqueza catalogada até aqui já é muito maior do que se esperava.
- O mais surpreendente é a diversidade de espécies de cetáceos e aves marinhas que encontramos nesta região, comprovando sua importância para a biodiversidade do ecossistema marinho brasileiro - explica o pesquisador Eduardo Secchi, professor do Instituto de Oceanografia da FURG.
O talude continental é a porção dos fundos marinhos com declive pronunciado, localizado entre a plataforma continental e a margem continental. Os principais riscos à fauna desta região estão relacionados às capturas acidentais em equipamentos de pesca e à contaminação decorrente de potenciais vazamentos de óleo. Em relação às atividades de pesca, tanto os cetáceos, as aves e tartarugas marinhas, bem como espécies de tubarões são vulneráveis.
- Outros riscos menores estão associados a colisões com embarcações velozes, poluição sonora decorrente do tráfego de embarcações e atividades sísmicas para prospecção de óleo e gás - avalia Secchi.
Realizado em parceira com a BG Brasil, a Chevron, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o projeto já documentou 20 espécies de cetáceos, incluindo algumas pouco conhecidas do Oceano Atlântico Sul como, por exemplo, o golfinho listrado, a falsa-orca, a baleia-fin e a baleia-sei. Aproximadamente 25 espécies de aves foram registradas. Estes registros incluem o petrel de Bulwer (Bulweria bulwerii), documentado pela primeira vez no Brasil.
Dentre estas espécies, as que apresentam maior risco de extinção são o albatroz-viajante (Diomedea exulans) o albatroz-de-tristão (D. dabbenena) o albatroz-real (D. epomophora), o albatroz-de-sobrancelha (Thalassarche melanophrys) e o de-nariz-amarelo (T. chlororhynchos) e o petrel-de-óculos (Procellaria conspicillata). Também foram registrados encontros com grupos mistos de baleiaspiloto e golfinhos-nariz-de-garrafa e flagrantes de alimentação cooperativa entre golfinhos e aves. Outra surpresa foi a grande concentração de cachalotes (Physeter macrocephalus), observadas em todos os seis cruzeiros realizados pela equipe. Caçadas durante muito tempo, especialmente no Atlântico Norte e Pacífico Sul, os cachalotes são grandes baleias que ficaram famosas pelo romance "Moby Dick", de Herman Melville. Embora sejam estudadas em muitas partes do mundo, ainda pouco se conhece sobre a espécie no Atlântico Sul.
- Os cachalotes se alimentam predominantemente de lulas, portanto, imaginamos que esta área seja muito rica para sustentar grandes concentrações de cachalotes - diz Secchi.
O Globo, 27/08/2013, Amanhã, p. 7
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