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Do satélite ao Rio Negro

O Globo, Ciência, p. 38
09 de Fev de 2012

Do satélite ao Rio Negro
Nova técnica permitirá melhores previsões de eventos extremos na Amazônia

RENATO GRANDELLE
renato.grandelle@oglobo.com.br

Uma nova medição do nível dos rios amazônicos promete melhorar a previsão de enchentes e secas, eventos extremos que têm ocorrido com frequência maior do que a esperada no bioma. O modelo, desenvolvido pela Coppe-UFRJ, tem como base a altimetria espacial - uma técnica em que um satélite, a 400 quilômetros da Terra, emite ondas para a superfície do rio; o tempo que demora para seu retorno ao espaço reflete a altura do curso d'água.
Os dados disponíveis por satélite são especialmente bem-vindos numa região como a Amazônia, onde existem, atualmente, apenas 0,14 estação fluviométrica a cada mil quilômetros quadrados. A baixa densidade destes postos, que medem o curso da água dos rios e sua velocidade, contribuem para que o comportamento da bacia hidrográfica seja um enigma. Nos últimos seis anos, o bioma foi palco de uma grande enchente, além das duas maiores estiagens de sua história.
- Parece que a frequência dos eventos extremos está aumentando - alerta Otto Corrêa Rotunno Filho, professor do Programa de Engenharia Civil da Coppe. - Esta é uma probabilidade que pode ser verdadeira se considerarmos as informações disponíveis entre 1980 e 2006. Foi este o período que usamos para construir o modelo. Agora, temos de testá-lo usando novos dados, e assim teremos certeza de que ele funciona.

Sem profissionais para estações
O Rio Negro foi escolhido como laboratório para o novo método. Com 712 mil quilômetros quadrados, ele é o segundo maior afluente em termos de vazão do Rio Amazonas. Sua área é maior do que as das bacias do São Francisco e do Paraíba do Sul somadas. Além disso, 21,5% dele está sujeito a inundações e secas, provocando grande impacto na população ribeirinha, e mesmo nas cidades por que passa, como Manaus.
Além da falta de postos de medição no curso d'água, a equipe esbarrou em outra dificuldade: a carência de especialistas em hidrometria. Seriam eles que relacionariam os dados obtidos no trabalho de campo àqueles vindos do satélite - aprimorando a interpretação do comportamento das bacias hidrográficas.
- Procuramos compensar a escassez de estações fluviométricas e de modelos matemáticos - explica Webe João Mansur, também coordenador do estudo e professor de Engenharia Civil da Coppe. - A altimetria fornece todas as ferramentas necessárias para avaliar se uma determinada chuva causará enchente ou não. Pode ser de grande ajuda para a região amazônica, mas, para que seja implantada além do Rio Negro, provavelmente precisaremos de mais investimentos.
Professor do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri-Unicamp), Hilton Silveira Pinto adverte que, nos últimos 30 anos, a Amazônia registra crescimento no índice de eventos extremos. Hilton, que não participou da pesquisa da Coppe, lembra que prognósticos mais pessimistas consideram que a temperatura média, em alguns trechos do bioma, pode aumentar em até 8 graus Celsius até 2050.
- O grande problema climático da Amazônia é no leste, próximo ao Maranhão e às áreas de fronteira agrícola - destaca. - Esta seria a região do país mais prejudicada pelo aquecimento global. Muitos modelos que acusam um processo de savanização desta parte do bioma.
A invasão da mata pela agricultura, segundo Hilton, ainda trará mais prejuízos ao país. No ritmo atual, o governo ainda precisa conter focos de desmatamento, ou terá dificuldades em cumprir metas estabelecidas por tratados internacionais. E, assim, não ganharia créditos de carbono, os recursos destinados a países que mantêm sua floresta em pé e contribuem para a redução de emissões de gases-estufa.

O Globo, 09/02/2012, Ciência, p. 38

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