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Do lixo à riqueza

O Globo, Economia, p. 28
Autor: VIEIRA, Agostinho
27 de Fev de 2014

Do lixo à riqueza

Agostinho Vieira

Não é um enredo de carnaval, mas poderia ser. Aliás, algumas escolas de samba já vêm ensaiando fazer desfiles mais sustentáveis, doando fantasias velhas e reaproveitando plumas. Mas o movimento ainda é tímido. Evolui lentamente, segue o compasso da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que deveria estar implantada em 2014, mas se arrasta como um carro alegórico quebrado.

Lembra um pouco aquelas emocionantes partidas de batalha naval. Acabar com todos os lixões do país. Água. Quase 50% dos resíduos continuam sendo dispostos de forma inadequada. Criar programas de reciclagem nas prefeituras. Água. Apenas 1,4% de todo o lixo produzido no Brasil é reciclado. Produzir campanhas de educação ambiental e incentivar o consumidor a separar o lixo domiciliar. Água e água. Basta olhar a situação da sua rua ou do seu prédio. Adotar um ou mais sistemas de logística reversa. Pedaço de um hidroavião.

É verdade que o pedaço é pequeno, mas já justifica aquele ditado que fala de guerras e batalhas. Há quatro anos, governo e empresários de vários seguimentos vêm discutindo alternativas para que o setor privado assuma a responsabilidade pelo lixo que produz. Pelo menos parte dela, já que a lei fala em responsabilidade compartilhada. Hoje, a chamada logística reversa funciona satisfatoriamente com baterias de automóveis, pneus, óleos lubrificantes, embalagens de agrotóxicos e embalagens de lubrificantes. Esta última adotada no final de 2012.

O que há de comum entre estes produtos é que os resíduos podem ser recolhidos em alguns poucos endereços. Quem troca uma bateria, um pneu ou o óleo do carro, normalmente deixa o que não serve na oficina ou no posto de gasolina. Com remédios, geladeiras, fogões e embalagens de um modo geral não é assim. O que torna o processo mais complexo. Por isso, ao longo deste ano serão assinados quatro acordos setoriais, para medicamentos, lâmpadas, eletrônicos e embalagens.

Cada um com seus problemas e peculiaridades. As lâmpadas, por exemplo, têm fabricantes nacionais e importadores. Ambos esperam que o governo controle melhor as importações. Não querem pagar pelo recolhimento de um lixo que não produziram. Faz sentido. As negociações estão avançadas e o acordo deve ser assinado antes do meio do ano. O mesmo deve acontecer com o setor de embalagens, apesar de algumas divisões e da preocupação com a concorrência.

Atualmente, três propostas estão na mesa. Uma do Cempre (Compromisso Empresarial para a Reciclagem), que reúne as maiores indústrias e recicladoras, outra dos fabricantes de embalagens de aço e a última das embalagens de vidro. As duas primeiras são muito parecidas, mas a terceira propõe a criação de uma grande empresa nacional que gerenciaria todos os resíduos do país.

A sugestão do Cempre se baseia em três itens: criação de pontos de coleta em supermercados e outros locais, treinamento e apoio às cooperativas de catadores e o compromisso de comprar e pagar o melhor preço do mercado pelos resíduos recicláveis. Eles esperam começar o trabalho logo, nas 12 cidades sede da Copa do Mundo, que respondem por 22% dos resíduos gerados no país.

A indústria de medicamentos deveria ter apresentando a sua proposta no dia 5 de fevereiro, mas pediu que o prazo fosse prorrogado para abril. Algumas farmácias já recolhem frascos, embalagens e comprimidos, mas a tendência é de que isso se torne obrigatório para todos os pontos de venda. A contaminação da água por medicamentos, especialmente anticoncepcionais, é um problema de saúde pública.

Mas a grande questão a ser enfrentada é como transformar a reciclagem num negócio rentável. Como criar uma cadeia produtiva que funcione de forma azeitada. Não adianta incentivar a reciclagem se não há quem compre os resíduos e os transforme em matéria prima. Um estudo do IPEA calcula que o tamanho deste mercado no Brasil seria de R$ 8 bilhões, mas só estaríamos capturando R$ 3 bilhões.

O melhor exemplo é o das latinhas de alumínio. Bastam dez minutos num bloco de carnaval para ver que elas nem chegam a quicar no chão. São logo recolhidas. Têm valor. São disputadas pela indústria de bebidas e de automóveis. Mas essa não é a regra. Hoje, só existe uma empresa em São Paulo capaz de retirar o gás de uma geladeira usada. Viramos exportadores de celulares velhos. Falta uma política industrial para o setor de reciclados. Uma que evite o pagamento duplicado de impostos. É preciso incentivar a transformação do nosso "lixo" em riqueza.

O Globo, 27/02/2014, Economia, p. 28

http://oglobo.globo.com/blogs/ecoverde/posts/2014/02/27/do-lixo-riqueza…

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