Veja, Página Aberta, p. 108-109
Autor: BRAUNGART, Mivhael
07 de Dez de 2016
Do berço ao berço
Em vez de ficar sempre batendo na tecla da redução de danos ao meio ambiente, por que não projetar desde o início produtos que possam ser reutilizados infinitamente?
Michael Braungart
PRESERVAR O MEIO AMBIENTE é urgente e necessário, mas a maneira como isso vem sendo feito está ultrapassada. A linguagem empregada pelos programas de sustentabilidade tradicionais é negativa e insuficiente, ao bater nas teclas de minimização, redução, prevenção e compensação. O objetivo de quase todos os métodos usuais de proteção ambiental é fazer produtos mais eficientes e, ao mesmo tempo, menos nocivos à natureza. Mas isso não está dando certo - ser menos ruim não é suficiente. Por exemplo: quanto mais modernos ficam os telefones celulares, mais eles aceleram o consumo de recursos, pois são vendidos aos bilhões. Cada aparelho contém uma média de 41 elementos químicos, e nenhum país recicla mais do que nove deles. Todos os metais raros são desperdiçados. É a predominância da lógica "do berço ao túmulo".
A proposta que defendemos vai em outra direção, a começar pelo nome: cradle to cradle, ou "do berço ao berço". O objetivo é a circulação de todos os materiais como se fossem nutrientes, em ciclos biológicos ou técnicos. Produtos de consumo que entram em contato com sistemas naturais, como cosméticos e detergentes, devem ser formulados desde o início tendo-se em mente um retorno seguro à biosfera. Equipamentos que contêm elementos raros, não renováveis ou potencialmente tóxicos, por sua vez, devem ser desenhados para reutilização contínua na esfera tecnológica, sem contaminações e sem desvalorização.
Isso exige o estímulo a modelos de negócios inovadores, baseados não só na simples venda de manufaturados, mas também na prestação de serviços. Dentro do conceito cradle to cradle, o cliente adquire um produto, mas o material com o qual ele é manufaturado pertence ao fabricante. No fim de sua vida útil, ele volta para a fábrica original. Cabe então ao produtor pensar mais à frente e garantir opções de reutilização. Isso requer um design criativo, que se preocupe em recuperar componentes de alto valor, tornando a obsolescência programada uma ideia obsoleta. Redesenhar produtos e sistemas para que sejam saudáveis para os seres humanos e a biosfera não é uma questão de ética, de ser "ecologicamente correto". É uma questão de inteligência e qualidade.
Empresas em todo o mundo estão usando o conceito de design "do berço ao berço" para melhorar as suas receitas e a competitividade de seus produtos. A mesma ideia vem sendo aplicada com frequência na construção de edifícios e áreas urbanas planejados desde o princípio para resultar em espaços que beneficiem o meio ambiente e seus usuários.
Surpreendentemente, o Brasil é pioneiro em algumas tecnologias do tipo "do berço ao berço", fato que a maioria dos brasileiros desconhece. Um exemplo é a tecnologia de reciclagem de nutrientes biológicos para o reúso de esgoto - isso mesmo, esgoto - por meio de biodigestores, desenvolvida nos anos 1990 numa colaboração entre o grupo de pesquisa Epea, ligado ao cradle to cradle, e a ONG Instituto Ambiental. Aplicado com sucesso em locais onde não existe saneamento público, o sistema recupera o metano presente na decomposição orgânica para produzir gás doméstico, e ainda aproveita o lodo resultante como fertilizante. Além das vantagens econômicas, a água que sobra e vai parar nos rios é bem mais limpa. Essa tecnologia foi exportada com sucesso para o Haiti e a Nicarágua, entre outros países, e deveria ser mais disseminada no Brasil, onde o déficit de saneamento é significativo.
O aproveitamento em ampla escala do metano e também do CO2, gases do efeito estufa, pode mudar completamente o debate sobre mudanças climáticas, e para melhor. Uma nova tendência, que chamamos the new organic, trata resíduos humanos e gases do efeito estufa como recursos para a fabricação de novos produtos. Há quem receie que essa abordagem acabe servindo de desculpa para travar as iniciativas em prol da redução das emissões de gases poluentes. É unia preocupação compreensível, mas o fato é que vale a pena, em termos econômicos e de preservação do meio ambiente, recuperar e dar uma utilidade às emissões de poluentes atuais enquanto se trabalha para substituí-las por tecnologias mais limpas.
Em relação à energia renovável, o enorme potencial brasileiro de geração de energia solar começa a ser explorado. Mas qual a necessidade de importar da China painéis solares que, quando forem descartados, acabarão como resíduos tóxicos em solo brasileiro? O Brasil pode produzir painéis de qualidade desenhados para ser reciclados. O custo inicial seria compensado por ganhos em eficiência e na comercialização como serviço, em vez de produto. Outro potencial de inovação no Brasil, grande produtor de embalagens. é desenvolver papel e tinta seguros e compostáveis, a partir de novas tecnologias. Qualquer empresa capaz de suprir a alta demanda por papel impresso "saudável"' terá enorme vantagem competitiva no mercado de exportação.
O conceito "do berço ao berço"- está na base da economia circular, um sistema que vem sendo muito abordado na mídia e em uma série de estudos recentes. Mas não se trata de sinônimos. Os proponentes da economia circular nem sempre reconhecem a importância do uso de materiais saudáveis. Algumas empresas europeias adicionam cinzas tóxicas de incineradores aos tijolos e acham que estão integradas ao sistema. Longe disso. A incineração é uma resposta linear, míope e deselegante ao problema do acúmulo de resíduos, porque elimina qualquer possibilidade de revalorização de preciosos materiais descartados.
Para que a circularidade seja segura e efetiva, devemos selecionar criteriosamente as substâncias químicas na formulação de qualquer produto, de forma que, desde a sua concepção, ele empregue materiais e componentes saudáveis e reutilizáveis continuamente, com alta qualidade. Neste momento é preciso ir além do conceito atual de sustentabilidade e celebrar os desafios ambientais como motores da inovação em sentido positivo. O Brasil, com sua diversidade cultural e abundância de recursos, é campo fértil para essa nova mentalidade ambiental.
Veja, 07/12/2016, Página Aberta, p. 108-109
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