OESP, Vida, p. A22
Autor: COLLI, Walter
09 de Ago de 2006
'Divisão reflete falta de acordo do governo'
Entrevista: Walter Colli, Presidente da CTNBio
Lígia Formenti
O presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), Walter Colli, perdeu o bom humor para "chutar o balde", como ele mesmo disse. Indignado com os resultados da reunião de ministros, na semana passada, no Palácio do Planalto sobre a crise da CTNBio - para a qual não foi nem mesmo alertado -, avisou: "Vou seguir os conselhos da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e colocar na reunião de setembro todas as pautas de liberação comercial de transgênicos. Vamos ver como os representantes da comissão vão se comportar. Se o julgamento será técnico".
No encontro da semana passada, ministros atribuíram a lentidão das reuniões da comissão à forma como a reunião era conduzida, centrada em temas burocráticos. "Não admito assumir a culpa (por isso). O que acontece na CTNBio é reflexo da divisão do governo", desabafou. Dizendo-se desiludido e indignado, concedeu a seguinte entrevista ao Estado.
O que o senhor achou da reunião?
Anunciaram uma tempestade, veio uma bombinha de festa junina. Mas a intenção do governo não era chegar a um entendimento. Era fazer barulho ante a insatisfação cada vez maior do setor agrícola com a lentidão dos trabalhos da comissão. Mas ficou só nisso. E não sabemos se algum dia haverá uma medida que de fato resolva o problema.
As sugestões são inócuas?
A idéia de fazer três dias de reunião eu já havia sugerido. E a história da pauta? Senti-me ofendido. Fui diretor do Instituto de Química, do Instituto Butantã, sei fazer muito bem isso. Liberações de transgênicos nunca haviam sido incluídas na pauta por sugestão de alguns integrantes. Eles diziam: 'Para que colocar na pauta se não vai ser discutido agora?' Pois bem, agora vou seguir o conselho da ministra. Vou colocar em votação os dez pedidos de liberação comercial. E vamos ver como o grupo de ambientalistas vai se sair.
Por que as análises não andam?
Porque há um grupo que trabalha contra. O que acontece na CTNBio é reflexo da divisão do governo. Há visões antagônicas sobre os transgênicos no governo. E isso se repete na comissão. O próprio secretário João Paulo Capobianco, que diz não haver problemas ideológicos na análise desses processos, subscreveu um recurso para que a comissão submetesse novamente à votação a liberação do algodão transgênico. A solução viria somente se houvesse uma linha condutora sobre esse assunto. Mas acho que dificilmente isso ocorrerá até o fim deste mandato. Outro exemplo: ministros da Agricultura, do Desenvolvimento e Comércio fizeram críticas antes da reunião. Mas o que eles propuseram no encontro? Não fui informado de nada. O ônus da lentidão não é meu.
Pensa em sair da CTNBio?
Estou cansado, mas posso "ser saído" antes. Pode ser que o ministro ache que eu fale demais, sou muito transparente. Além disso, há toda uma polêmica sobre a minha indicação (que não teria sido bem divulgada na época, desrespeitando o regulamento). Recentemente o ministro recebeu um pedido de uma procuradora do Meio Ambiente para meu afastamento embasado na indicação. Estou com a Espada de Dâmocles na cabeça. Se for decapitado, tudo o que ocorreu durante minha gestão ficará sob risco de ser anulado. Tem muita gente que vai aplaudir.
A quem isso interessaria?
Tem gente que, por questões psicológicas, não aceita transgênico. Fico torcendo para que esses radicais se tornem dependentes de insulina, um produto transgênico. Eu sou diabético, uso insulina. O País perde uma oportunidade e tanto de progresso. De economia.
OESP, 09/08/2006, Vida, p. A22.
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