O Globo, Ciência, p. 50
29 de Set de 2007
A disputa pelo Norte
Nova geopolítica e aquecimento global reavivam a exploração do Ártico
Vivian Oswald
Correspondente
Moscou
Centenas de desbravadores de todos os cantos do mundo perderam a vida nos últimos séculos em busca da tão sonhada rota comercial que encurtaria o percurso entre o Pacífico e o Atlântico. A idéia era descobrir uma passagem navegável através da imensa barreira de gelo do Ártico para facilitar o transporte de cargas e pessoas entre as Américas, a Europa e a Ásia. A corrida ao Ártico teria começado por volta do século XVI. Desde então, expedições sucumbiram aos desafios impostos pelo frio e o gelo.
Mal sabiam os aventureiros do passado que o aquecimento global poderia abrir o caminho que tanto almejaram encontrar. Na semana passada, a Agência Espacial Européia (ESA) divulgou que a redução da camada de gelo do Ártico precipitou um fenômeno que se esperava para daqui a muitos anos: permitiu, pela primeira vez, que se visualizasse totalmente a rota até então bloqueada entre a Europa e Ásia. A Passagem Noroeste ficou totalmente aberta em setembro.
Navegar até o fim do mundo
A mudança do clima esquentou, literalmente, a velha disputa pela região. Em 2 de agosto passado, uma expedição de minissubmarinos russos liderada pelo parlamentar da Duma, a câmara baixa da Rússia, Artur Chilingarov fincou a 4.200 metros de profundidade no Oceano Ártico a bandeira do país.
Em 1905, o explorador norueguês Roald Amundsen (18721928) teria sido a primeira pessoa a navegar pela chamada Passagem Noroeste, em um barco de madeira. Mas a disputa pelo Ártico tem vários heróis de diferentes nacionalidades. Cada país faz questão de apontar o seu. O britânico John Franklin (1786-1847) mapeou dois terços da costa norte da América do Norte. Sua última expedição desapareceu enquanto tentava navegar a Passagem Noroeste na altura do Canadá.
Os americanos teriam sido os primeiros a chegar "onde não havia qualquer longitude". Com poucos dias de diferença, os exploradores Frederick Cook (1865-1940) e Robert Peary (1856-1920) teriam descoberto o Pólo Norte. Oficialmente, Peary ficou com as honras.
Mas nem isso está certo. Há pesquisadores que especulam que Cook pode ter sido o primeiro a chegar lá ou nenhum dos dois.
- Há quem diga que não existem provas suficientes de quem chegou primeiro. Só o que foi comprovado é que a primeira pessoa a pisar no gelo do Pólo Norte foi um russo em 1948 - disse em entrevista ao GLOBO o diretor do Museu Estatal Russo sobre o Ártico e a Antártica, Victor Boyarsky.
Segundo o especialista, a Rússia tem uma relação histórica e estreita com o Ártico por conta dos mais de 10 mil quilômetros de fronteira.
Os russos teriam sido os pioneiros na navegação nos mares que levariam à Passagem Nordeste, no século XVI. Fragmentos de embarcações e equipamentos polares estão em exibição no museu estatal comprovando que os russos chegaram muito antes do que se pensa. No início do século XVIII, sob as ordens do czar Pedro, o Grande, expedições partiram da Rússia com o objetivo de mapear o Ártico.
Na Grande Expedição do Norte quase toda a costa norte da Rússia foi mapeada - disse Boyarsky.
Mais petróleo e novas rotas
Parte do trabalho foi feita sob o comando do dinamarquês comissionado na marinha russa, Vitus Bering (1681-1741), que depois viria dar nome ao Estreito de Bering. Entre 1878 e 1879, observou o diretor do museu russo, o sueco Nils Nordenskjold (1832-1901) foi o primeiro a completar a viagem pela Passagem Nordeste. A travessia levou dois anos.
Após muitas iniciativas de exploração da região, em 1937, no governo Stalin, os russos estabeleceram a primeira estação científica do mundo baseada no gelo flutuante do Ártico. Há uma semana, os russos estabeleceram a sua 35ª estação científica na região. A expedição Pólo Norte 35 acaba de levar 21 cientistas para o gelo.
- A dificuldade foi encontrar uma camada de gelo confiável para estabelecer a estação. Com a mudança do clima, isto é cada vez mais difícil - contou Boyarsky.
Durante séculos, nações disputaram a navegação até o Pólo Norte.
Agora, querem águas que são de toda a Humanidade. Um dos principais motivos para tamanho interesse está no fato de a comunidade científica acreditar que pelo menos um quarto das reservas de petróleo e gás natural do mundo está no fundo do Ártico. Além disso, as passagens Nordeste e Noroeste encurtariam muito as rotas de navegação. Se hoje, por exemplo, a distância entre Londres e Yokohama (Japão) é de 23.300 km pelo Canal do Panamá e 21.200 km pelo Canal de Suez, ela cai para 14.062 km pela Passagem Nordeste e 15.930 km, pela Noroeste.
Por trás da atual empreitada da Rússia, está o desejo de provar que uma parte significativa do Ártico estaria ligada ao território do país e que, portanto, pertenceria aos russos. A missão submarina saiu em busca de indícios geológicos que sustentem a reivindicação. A expedição foi motivo de orgulho nacional. Durante semanas não se falava em outro assunto. Em Moscou, os integrantes foram saudados como heróis. Havia até calendários distribuídos em supermercado com a foto da equipe.
Poucos dias após a empreitada russa, o Canadá confirmou planos de sua presença no Ártico. Os canadenses também pretendem criar um centro de treinamento para as forças nacionais na região e ampliar os Rangers - corpo paramilitar formado pelos inuit (esquimós), do norte do país. O Canadá reivindica a Passagem Noroeste como parte de suas águas territoriais, mas a comunidade internacional rejeita a reivindicação. A Dinamarca, a Noruega e os Estados Unidos também reclamam uma porção do leito do mar ártico.
Tecnologia fará diferença
Em 2001, a Rússia se tornou o primeiro país a entregar à ONU um pedido de expansão dos limites externos da sua plataforma continental.
Com isso, conseguiria ampliar a sua área de exploração no mar. Se demonstrar que a Dorsal Lomonosov (cadeia submarina de dois mil quilômetros) é geologicamente russa, Moscou poderá explorar o fundo marinho. Para Victor Boyarsky, mais que uma disputa comercial, a corrida ao Ártico deve servir de base para uma discussão séria sobre a exploração da região.
- O Tratado da Antártica deixa muito claro o que pode ser feito na região. Não há nada igual para o Ártico, o que acaba abrindo espaço para muito barulho e tensão.
O especialista diz ainda que não faz diferença a quem pertence o Ártico. O que importa, segundo ele, é quem tem condições tecnológicas de explorá-lo.
- Os dinamarqueses disseram recentemente que uma parte da região era deles. Mas eles não têm quebra-gelos confiáveis como os russos - frisou ele.
O Globo, 29/09/2007, Ciência, p. 50
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