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Discussão sobre uso de recursos é política, dizem especialistas

Valor Econômico, Especial, p. G4
30 de Out de 2013

Discussão sobre uso de recursos é política, dizem especialistas

Por Suzana Liskauskas
Para o Valor, do Rio

O cenário mundial diante da escassez dos recursos hídricos e seus desdobramentos, como oportunidades econômicas no ambiente corporativo e as mudanças de perspectivas sob o ponto de vista de governos, iniciativa privada e sociedade foram os principais pontos debatidos no painel "Gerenciamento Corporativo de Recursos Hídricos: Riscos Corporativos dos Recursos Hídricos". Os integrantes do painel, representantes da indústria brasileira e internacional e de organizações ligadas às questões da água e do desenvolvimento sustentável, mostraram que a discussão sobre o melhor uso dos recursos hídricos é essencialmente política e, como tal, precisa envolver igualmente o governo e os diversos representantes da sociedade. O uso consciente dos recursos hídricos também deve deixar de fazer parte exclusivamente da pauta de sustentabilidade e integrar a pauta econômica das nações, já que a ausência de recursos hídricos afeta o desenvolvimento em todo o mundo.
Anders Berntell, diretor-executivo do 2030 Water Resources Group - International Finance Corporation, alerta que o nível de consciência das empresas e organizações em todo o mundo, de um modo geral, com relação aos riscos corporativos associados à água, vem aumentando nos últimos anos, mas está ainda longe de ser suficiente. "Trabalhei muito tempo em instituições do governo ligadas às questões da água na Europa, mas percebi que as instituições privadas precisavam estar mais engajadas nessas discussões. Acho que o grande desafio do setor privado é entender mais sobre suas próprias pegadas hídricas e como isso impacta na economia", comentou Berntell.
Apesar de concordar com Berntell e afirmar que a incompreensão das questões relacionadas à falta de água no planeta prejudica qualquer tipo de crescimento, Ricardo Vescovi de Aragão, diretor-presidente da Samarco e presidente do Conselho de Administração do Instituto Brasileiro de Mineração, ressaltou no painel que a discussão da escassez do recurso natural e a sua boa utilização já são considerados assuntos estratégicos na maior parte da indústria, no Brasil, sobretudo na mineração.
"O Brasil é hoje um dos países de legislação mais severa e detalhada a respeito de captura de água. O comitê de bacias hidrográficas já é uma realidade no Brasil e a indústria é um dos seus parceiros mais presentes, mais atuantes", disse.
Com relação especificamente ao setor de mineração, ele ressaltou que há uma boa compreensão sobre o tema, sob o ponto de vista de todas as partes envolvidas. De acordo com Aragão, basta verificar que nos processos de licenciamentos ambientais o assunto entra sob a forma de condicionantes ao empreendimento. E, segundo ele, o setor empreendedor não só aceita as condicionantes, como elas fazem parte do negócio.
"Conseguimos trabalhar melhor com menos água. Nos últimos 30 anos aumentamos em 30% a recirculação da água. A cada tonelada de minério produzido no Brasil consumimos quase a metade da água gasta no passado para o mesmo procedimento. Há muito tempo, no Brasil, praticam-se os circuitos fechados, ou seja, a indústria pode captar uma única vez o recurso hídrico e precisa reutilizá-lo. Isso aumentou as taxas de reutilização no país, que hoje estão acima de 90%, como no caso do setor de mineração", detalhou Aragão.
Jon Freedman, vice-presidente de assuntos políticos e governamentais da General Electric, chamou a atenção para a oportunidade de negócios que a escassez de água oferece para a iniciativa privada. A reutilização da água e o uso consciente dos recursos hídricos além de ser um bom negócio também melhora a imagem corporativa diante dos investidores e facilita a obtenção de crédito.
Porém, todo esse processo é mais acessível para as grandes corporações. Joppe Cramwinckel, diretor do Projeto Água do Conselho Mundial Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, destacou a importância de educar as pequenas e médias empresas e capacitá-las para compreender a importância econômica do gerenciamento da utilização da água.
"O primeiro passo para inserir as pequenas empresas nesse contexto é simplificar a informação para que elas entendam a importância de ações, como a reutilização da água", disse Cramwinckel. Aragão chamou a atenção de que não se trata apenas de uma questão de conhecimento. Segundo o diretor-presidente da Samarco, o maior problema para as pequenas corporações é colocar a teoria em prática, porque diante da realidade delas, essa prática pode não ser econômica e demandar recursos financeiros que elas não dispõem.
"Introduzir esse conceito nas pequenas corporações exige um conjunto de incentivos e uma visão de longo prazo de que o esforço em evitar o desperdício de água torna a nação mais forte. Mas esse convencimento talvez tenha que ser um resultado das políticas governamentais", disse Aragão.
O painel também levantou a discussão em torno das responsabilidades dos governos, em todo o mundo, de adotar mecanismos para estimular o uso eficiente da água. Para Aragão, o mecanismo intersetorial de alocação de água é um dos pontos centrais no que se refere ao funcionamento de uma agência reguladora como a ANA.
Berntell chamou a atenção também para a necessidade de o tema fazer parte da pauta de energia das nações. Ele justificou a afirmação lembrando que a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu como tema do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março de 2014, " Água e Energia". De acordo com dados da ONU, cerca de 8% da energia gerada no planeta é usada para bombear, tratar e levar a água para o consumo das pessoas. "Espero que a escolha da ONU motive essa discussão tanto pelo poder público quanto na esfera privada", disse Berntell.

Valor Econômico, 30/10/2013, Especial, p. G4

http://www.valor.com.br/empresas/3320896/discussao-sobre-uso-de-recurso…

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