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A diminuição dos peixes

O Globo, Planeta Terra, p. 12-13
07 de Fev de 2012

A diminuição dos peixes
Mais e maiores barcos fazem com que estoque de cavalinha caia 90%

CLÁUDIO MOTTA
claudio.motta@oglobo.com.br

Grandes pesqueiros asiáticos, europeus e latino-americanos estão devastando rapidamente os estoques de peixes do Pacífico Sul, um dos oceanos mais produtivos do planeta. O caso da cavalinha, rica em ômega 3, é emblemático. Sua quantidade anual caiu 90% em apenas duas décadas. As estimativas indicam que, em 1990, havia 30 milhões de toneladas; agora restam menos de três.
Depois de arrasarem outros oceanos, os barcos de arrasto agora rumam em direção à Antártica para disputar a cavalinha que ainda resta. Como o peixe é mais raro, os barcos precisam ir mais longe, gastam mais tempo e combustível. Pescadores relatam que levam dias para conseguir carregar seus barcos com a mesma quantidade de pescado que, antes, era obtida em algumas horas. E, apesar do desequilíbrio ambiental, muitos países ainda dão incentivos à atividade e diesel para grandes pesqueiros.
Pesquisadores alertam que a pesca predatória é um problema difícil de ser controlado ou combatido, uma vez que ocorre em águas internacionais. Especialista em vida marinha da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, Salvatore Siciliano explica que os peixes oceânicos são os mais vulneráveis.
- Todos os grandes peixes comerciais estão em colapso em função da pesca predatória. O problema acomete especialmente os que vivem em alto mar. É a famosa tragédia dos comuns: o pescado está em mares internacionais - diz Siciliano. - Quem tem barcos maiores pesca cada vez mais, com redes de tamanho crescente. Estes são os mais predatórios. O problema tem escala global, que afeta recursos que dizem respeito a todo mundo, mas ficam em águas que não são de ninguém.
Para tentar impor alguma ordem nos mares internacionais antes que os peixes desapareçam, delegados de pelo menos 20 países se reuniram na semana passada, em Santiago, no Chile. O encontro da Organização Regional de Regulamentação Pesqueira do Pacífico Sul (SPRFMO, em inglês), que ocorre desde 2006, tenta criar zonasde exclusão para proteger a pesca e evitar seu colapso.
As cavalinhas estão no centro da discussão do debate para elaborar medidas de proteção. Foram necessários quatro anos para que 14 países aceitassem assinar um documento com 45 artigos, com este objetivo. No entanto, apenas seis ratificaram o acordo, que, portanto, ainda não entrou em vigor. Faltam pelo menos oito assinaturas.
Por iniciativa própria, apenas algumas indústrias anunciaram a redução dos níveis de pesca. Na prática, no entanto, a quantidade de navios está aumentando. De 2006 a 2011, a redução estimada dos estoques de cavalinha foi de 63%, revela investigação coordenada pelo International Consortium of Investigative Journalists (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, em português).
Uma das propostas da SPRFMO é criar cotas anuais de pesca por nação em função da quantidade de barcos dos países membros entre 2007 e 2009. Por conta disso, várias embarcações navegaram para as águas do Pacífico Sul com o objetivo de garantir sua parte, incluindo navios da Ásia, Europa e América Latina.
Entre eles, o maior pesqueiro do mundo, o Atlantic Dawn, com capacidade para 14 mil toneladas. Suas redes têm mais de 25 metros de largura por 80 de comprimento. O peso de peixes presos é tão grande que são necessários aspiradores gigantes para colocá-los à bordo.
Uma das maiores empresas pesqueiras, com sede em Hong Kong, a Pacific Andes International Holdings (PacAndes) investiu cerca de cem milhões de dólares em 2008 para transformar um petroleiro de 228 metros em um navio com capacidade de receber 50 mil toneladas de peixe. Não se trata de um pesqueiro, mas de uma espécie de armazém em alto-mar. Com compartimentos refrigerados, usa aspiradores gigantes para armazenar o pescado de outras embarcações. Os peixes, congelados, podem ser levados para qualquer lugar do planeta. Sua capacidade operacional, de 547 mil toneladas de pescado por ano, é maior do que o volume limite aconselhado para a pesca da cavalinha em setembro de 2011, de 520 mil toneladas.
Relatório publicado em 1998 pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) diz que as frotas de navios pesqueiros são 2,5 vezes maiores do que o ideal. Desde então, as embarcações têm ficado ainda maiores e mais numerosas. O temor de especialistas é que, sem qualquer regulamentação internacional, a pesca comercial seja devastada pela retirada de mais do que a natureza é capaz de oferecer.
A aquicultura também é parte do problema. A cavalinha é largamente usada como alimento de salmão em criadouros. São necessários cinco quilos daquele peixe para produzir um quilo da espécie de maior valor comercial. - A cavala é usada para alimentar salmão criado em cativeiro. No Chile, há quase uma guerra. Fecham baías inteiras para implantar as salmoneiras. Isso afeta a pesca artesanal, gera muitos problemas. Também são usados antibióticos e a ração aumenta muito a carga orgânica nos mares - explica Siciliano.
Na altura dos mares brasileiros, a pesca de alto-mar não é tão atrativa. O especialista da Fiocruz afirma que o Atlântico Sul, por causa de sua biologia, é relativamente pobre em oferta de pescado:
- No Brasil, replicamos um modelo que está longe de ser ideal. O Ministério da Pesca e Aquicultura é um contrassenso, porque estimula a pesca. Assim, os estoques, que já são pequenos, se esgotam rapidamente.
A pesca excessiva não é um problema exclusivo do Pacífico. A costa oeste da África, denuncia a ONG Greenpeace, também têm atraído pesqueiros internacionais. São barcos europeus, russos e asiáticos.
Acordos com a União Europeia, que explora excessivamente 90% de seus próprios peixes, fazem com que esta pague taxas aos africanos para entrar em águas mais lucrativas. Pelo menos metade dos peixes servidos nas mesas europeias vêm de mares distantes.
Neste cenário, pescadores locais africanos, sobretudo em países como Senegal, Mauritânia e Cabo Verde, já enfrentam problemas. Eles não conseguem fazer frente aos grandes pesqueiros, e precisam cada vez mais navegar em águas profundas.

Os estoques de cavalinha caíram 90% em duas décadas; a redução foi mais acelerada nos últimos anos. Dois salmões pulam em uma área de criação do Chile. A cavala é usada para alimentar o peixe mais nobre.

O Globo, 07/02/2012, Planeta Terra, p. 12-13

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