OESP, Economia, p.B7
28 de Out de 2004
Dilma: apagão, só se governo não exercer seu papel
Ministra considera exagerada avaliação e feita pela AIE em seu relatório anual
José Ramos
A ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, elogiou o relatório anual da Agência Internacional de Energia (AIE), divulgado anteontem, mas fez ressalvas a determinados pontos do conteúdo e criticou a leitura feita por alguns analistas que viram no documento um sinal de alerta ao Brasil.
Segundo Dilma, a AIE não previu no texto nenhum risco de racionamento de energia no País. Até porque, segundo ela, esse não era o objetivo do estudo, que trabalhou com um horizonte até 2030. A ministra também afirmou que não há no documento nenhuma sugestão de que seja alterado o marco regulatório do setor de energia elétrica no Brasil. De acordo com ela, o relatório, ao contrário, ressalta que o governo brasileiro mudou o marco regulatório para atrair investidores para o setor. O documento constata o que o Brasil já vem fazendo há muito anos, que é a parceria entre o capital privado e o investimento público.
A ministra considerou precipitadas as avaliações de que há risco de ocorrer um racionamento antes de 2008. "Só haveria risco de apagão se o governo não exercesse seu papel de governo", afirmou Dilma, que afastou esse risco no horizonte até 2010. As previsões da AIE foram feitas com base nos relatórios do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que, por exigência legal, não levaram em conta 1.966 (megawatts) MW de usinas que já estão prontas para operar, mas que estão ainda com alguma pequena restrição.
"Uma usina que está pronta, não entrar em operação no horizonte de cinco anos, só matando alguém. Só me matando", desabafou Dilma. Ela explicou que, pelas regras atuais, podem estar com sinal amarelo tanto uma usina que nem começou, mas que está no seu cronograma, quanto uma usina que está pronta mas está com o cronograma atrasado. Um exemplo dessa diferença, explica Dilma, é o da Usina de Aimorés, em Minas Gerais, que já está pronta mas paralisada por dificuldade de reassentamento de pessoas. "Do ponto de vista da segurança do País, eu não posso tratar a usina de Estreito, que nem começou ainda, como trato a de Aimorés".
Dilma disse ainda que diferentemente de países desenvolvidos, principalmente os europeus, o Brasil ainda pode ampliar a oferta de energia com o uso de biomassa, gerada principalmente pela agroindústria e com a integração continental, que já ocorreu na Europa e entre Estados Unidos e Canadá. Essas opções, segundo ela, permitem que o Brasil não dependa, diferentemente de outros países, do hidrogênio e da energia nuclear para suprir o seu mercado nos próximos 30 anos.
A ministra também elogiou a seriedade do relatório, mas questionou a previsão de que a energia hidrelétrica terá sua participação na matriz brasileira reduzida de 83% para 65%, até 2030, perdendo espaço para gás natural e energia nuclear. Ela lembrou que o País só usa 24% do seu potencial hidrelétrico, e que há espaço para crescer nessa área.
Os países vizinhos também são alternativa de suprimento, segundo Dilma. Só o Rio Caroni, na Venezuela, teria potencial para gerar 16.400 MW. Ela disse que essas alternativas não estarão disponíveis até 2010, mas estarão em 30 anos. "No horizonte de 30 anos, abrir mão da interligação, é abrir mão do papel estratégico do Brasil na América do Sul."
Os parâmetros usados pela AIE ao traçar o panorama mundial até 2030, são diferentes dos utilizados pelo governo brasileiro. Mas isto, segundo Dilma, não torna melhor nem pior o trabalho da Agência.
OESP, 28/10/2004, p. B7
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