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Devastação via internet

Veja, Ambiente, p. 110-111
24 de Ago de 2005

Devastação via internet
Pesquisa mostra que a rede se tornou um centro de comércio criminoso de animais silvestres

Gabriela Carelli

"Vende-se girafa de bom caráter e temperamento muito doce, criada em cativeiro, 2 anos de idade. Preço: 15.000 dólares." "Gorila de 7 anos precisa urgentemente de um lar. Seu dono está de mudança. Preço: 8.000 dólares." Anúncios como esses, publicados recentemente em sites americanos especializados na venda de bichos de estimação, revelam uma faceta até então pouco conhecida da internet: a comercialização de animais selvagens, especialmente aqueles de espécies ameaçadas de extinção. Com o mesmo ímpeto com que revolucionou a venda de livros, DVDs e passagens aéreas, a rede mundial de computadores ampliou de forma devastadora esse comércio, que até agora era relativamente restrito ou clandestino. A estimativa é que existam pelo menos 5.000 sites envolvidos nessa atividade.
Na semana passada, a ONG Fundo Internacional para o Bem-Estar dos Animais (Ifaw), que atua em treze países, divulgou um estudo que mostra a dimensão alcançada pela venda de animais na rede. Durante três meses, os pesquisadores do Ifaw rastrearam uma centena de sites e acompanharam a evolução das ofertas de animais selvagens e produtos derivados de sua caça na internet. Só em uma semana de pesquisa foram encontrados 9.000 bichos e mercadorias nos endereços vistoriados. Mais de 70% do total era referente a espécies protegidas. "Nossa pesquisa foi limitada a cinco espécies e a sites em língua inglesa. Isso prova que estamos diante de algo muito maior, difícil de dimensionar", disse Phyllis Campbell-McRae, diretora do Ifaw na Inglaterra. O monitoramento detectou 122 vendedores virtuais distribuídos entre salas de bate-papo, sites especializados em venda de pequenos animais e sites de leilões on-line. "Encontramos desde indivíduos querendo fazer dinheiro rápido até companhias bem estruturadas, com vários exemplares de um determinado animal", diz Phyllis.
Sem contar a devastação causada ao animal ao arrancá-lo de seu hábitat (a maioria deles, tratada como bicho de estimação, morre no primeiro ano de vida), a captura de espécies em extinção tem implicações desastrosas para o meio ambiente. Os danos são maiores quando o tráfico dos animais tem como objetivo final os mercados de produtos retirados de suas carcaças, como o marfim, no caso dos elefantes, e os testículos dos tigres, consumidos pelos chineses como afrodisíaco. Esse tipo de caça é feito em larga escala. Apenas em uma semana de rastreamento o Ifaw encontrou 5.500 diferentes produtos de marfim à venda na internet. De acordo com a ONG, desde os anos 80 o número de elefantes na África caiu de 1,3 milhão para 625.000.
No que diz respeito a animais vivos, a maioria dos compradores é formada por famílias que pretendem criá-los como bichos de estimação. De todos os animais pesquisados, incluindo aves, tartarugas, elefantes e répteis, os primatas são os mais procurados, e isso preocupa os especialistas. Em uma semana, os pesquisadores encontraram onze sites especializados em chimpanzés e gorilas, com um total de 146 animais à venda. Nos Estados Unidos, um número considerável de famílias escolhe macaquinhos para criar. Associações como Monkey Matters (Macacos São Importantes) auxiliam os donos de macacos nessa tarefa. Há até lojas virtuais especializadas em roupinhas, mamadeiras e coleiras para pequenos primatas, que geralmente são anunciados com fotos em que aparecem vestidos com roupas de bebê. Os filhotes são sempre os artigos mais cobiçados - e, portanto, os mais caros - à disposição na rede. Um filhote de tigre siberiano de 2 anos custa 70.000 dólares. Os bebês chimpanzés são vendidos por até 15.000 dólares, dependendo do tipo e do sexo. A ameaça de extinção de uma espécie também colabora para elevar o preço de seus exemplares. Estima-se que hoje existam apenas 5.000 tigres vivendo em liberdade, metade do total em cativeiro nos Estados Unidos. Calcula-se em 150.000 o número de chimpanzés no mundo - há um século eram 2 milhões. A ameaça de extinção dos animais silvestres ganha agora uma dimensão ainda mais assustadora com a ajuda da rede mundial de computadores.

Veja, 24/08/2005, Ambiente, p. 110-111

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