CB, Brasil, p. 12
30 de Ago de 2008
Destruição reduzida
Desmatamento da Amazônia em julho foi o menor desde 2004.
Mesmo assim, o equivalente a 40 campos de futebol foi devastado
Papoma Oliveto
Da equipe do Correio
A devastação da floresta amazônica está em queda acelerada. É o que mostram dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados ontem. Os satélites registraram redução de 68% no desmatamento em julho, comparado com o mesmo período do ano passado. Em relação ao mês anterior, a queda foi de 62,8%.
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, considerou o registro de 332km² de área desmatada como histórico. Foi o menor desde julho de 2004, quando o sistema Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) entrou em operação. Tradicionalmente, junho, julho e agosto, seja por causa do clima seco ou porque os agricultores preparam a terra para a produção, são os meses com mais ocorrência de queimadas.
De acordo com o ministro, uma conjunção de fatores contribuiu para a queda do desmatamento: mais fiscalização por parte do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal; o corte de crédito do Banco do Brasil e do Banco da Amazônia para agropecuaristas irregulares; e a parceria com a cadeia produtiva. De janeiro a julho, o Ibama aplicou 4.247 multas, totalizando R$ 1 bilhão. É quase o total de todo o ano passado, quando foram emitidos 5.745 autos de infração. A capacidade de organizar operações simultâneas aumentou de 20 para 40 por dia.
Os efeitos da resolução do Banco Central (Bacen) que corta o crédito para fazendeiros que desmatam ou ocupam áreas de proteção ambiental (em vigor desde 1o de julho) já pode ser sentido, segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA). Embora ainda não existam números consolidados, Carlos Minc anunciou que o número de pedidos de crédito caiu em relação ao ano passado.
"Também houve aumento muito grande, em alguns estados de mais de 40%, no acesso de agricultores às secretarias de meio ambiente para regularizar suas situações. Não sabemos quanto atribuir dessa queda (do desmatamento) à resolução do Bacen, mas podemos dizer que está dando resultado", afirmou o ministro. Para não fugir ao costume de fazer piadas quando está cercado pela mídia, ele emendou: "Carlinhos Minc é pé quente".
Insatisfação
Apesar da redução na destruição da floresta, o ministro, mais sério, disse que ainda está insatisfeito: "Não dá para comemorar ainda. O desmatamento é muito grande" - os 332km² de devastação observados em julho são equivalentes a 40 campos de futebol. "É incerta a tendência (de queda) para o resto do ano.
Nós precisamos de mais recursos para manter esse ritmo heróico que o Ibama está enfrentando junto com a PF e a PRF", disse o ministro.
O Pará lidera o ranking dos estados da Amazônia Legal que mais desmatou em julho: foram 235,6km², ou 72,9% do total devastado. Como a cobertura de nuvens estava baixa - apenas 10% do céu paraense foi tomado por nebulosidade - a detecção pode ser considerada bastante próxima do real. Em toda a floresta, os satélites captaram 81% das imagens da Amazônia, índice considerado excelente.
Quando considerados os últimos 12 meses, porém, é Mato Grosso que ocupa o topo da lista de destruição. Dos 8.147km² de floresta desmatados entre 31 de agosto de 2007 e 31 de julho de 2008, o estado, maior produtor de soja do país, foi responsável por 4.544,9km² de destruição. Em seguida vem o Pará, com 1.688,5km². Minc, porém, promete apertar o cerco contra os devastadores da Amazônia. Para isso, conta com o apoio das cadeias produtivas, que assinaram acordos com o ministério se comprometendo a não comprar matéria-prima - madeira, soja, carne e minério - de produtores ilegais. O sistema de consulta pública a áreas embargadas, disponível no site do MMA, que lista empresas e propriedades flagradas pelo ministério, recebeu 1 milhão de acessos, desde que foi criada, em fevereiro.
Sustentabilidade
O ministro alertou ainda que os esforços serão insuficientes caso não seja aplicado um plano de desenvolvimento sustentável na região. "Queremos avançar com as ações do Arco Verde, ou seja, criar condições para que os 24 milhões de pessoas que residem na região vivam com mais dignidade. O ritmo da fiscalização e da repressão é mais rápido que o ritmo de criar empregos sustentáveis", disse.
"Você, em 45 minutos, fecha uma ferraria.
Mas você não cria os 40 empregos em 45 minutos", completou.
Anunciada em 5 de junho, a Operação Arco Verde, à qual o ministro se referiu, tem como finalidade atender os municípios da Amazônia Legal com altos índices de desmatamento.
Entre as ações, está a linha de crédito para recuperação de imóveis rurais e o pagamento de benefícios da Previdência Social e de programas assistenciais à população carente.
Com queda no desmatamento não é possível ainda prever a taxa anual de degradação da Amazônia em 2008. Minc calcula que, de agosto de 2007 até julho deste ano, 12 mil quilômetros quadrados devem ter sido perdidos. É uma área maior que a registrada de agosto de 2006 a julho de 2007, mas fica longe dos 18 mil quilômetros quadrados previstos em janeiro.
Minc avisou que a proteção ambiental não vai ficar restrita à Amazônia. Disse que os próximos biomas a serem fiscalizados são o cerrado e o pantanal. Ele aproveitou para afirmar que a semana foi bastante produtiva para o ministério. "A semana começou preocupante porque parecia que a gente ia transformar o pantanal num canavial, mas conseguimos esclarecer às ONGs que isso nunca passou pela nossa cabeça. Também destruímos 80 fornos de carvão na caatinga de Pernambuco e ontem (quinta-feira) finalmente conseguimos vender os bois piratas", disse, referindo-se ao leilão de 3.046 cabeças de gado apreendidas em pasto irregular. Os animais foram arrematados pelo lance mínimo, de R$ 1,25 milhão.
CB, 30/08/2008, Brasil, p. 12
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