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Desmatamento e ocupações agravam danos

O Globo, O País, p. 5
28 de Nov de 2008

Desmatamento e ocupações agravam danos
Estudos realizados nos últimos anos apontaram mudança climática e intensificação de chuvas em Santa Catarina

Soraya Aggege

Pesquisas recentes produzidas em Santa Catarina indicam que está ocorrendo uma mudança nos padrões climáticos do estado. Desde 2006, os levantamentos mostravam evidências de aumento das chuvas torrenciais e dos períodos de seca. Os efeitos em Santa Catarina são compatíveis com o aquecimento global, somados a outros dois fatores, já comprovados: crescimento urbano desordenado e desmatamento.

- O que vemos em Santa Catarina é um espelho do futuro das nossas cidades. As indicações são de extremos de chuvas torrenciais e grandes secas - disse o cientista Carlos Nobre, do Inpe (Instituto de Pesquisas Aeroespaciais), coordenador dos estudos sobre mudanças climáticas no país.

De acordo com Nobre, não há estudos no Brasil que permitam aos cientistas pôr definitivamente "o dedo na ferida" do aquecimento global, mas as evidências são fortes: - Seriam necessários estudos com dados de cem anos. Mas já é possível dizer que, se o aquecimento continuar, as cenas de Santa Catarina serão muito repetidas - disse.

Segundo Nobre, a ocupação de áreas de risco e o desmate de encostas devem ser somados ao fenômeno climático e às evidências do aquecimento global.

Estudo desenvolvido pelo Centro de Informações de Recursos Ambientais de Hidrometeorologia de Santa Catarina (Epagri/Ciram), sobre os impactos das mudanças climáticas, mostrava que a temperatura subiu até 3oC em várias cidades do estado, e previa chuvas torrenciais intensas, entremeadas por períodos de seca.

O engenheiro agrônomo e ex-secretário de Agricultura de Santa Catarina Glauco Olinger, consultor do Epagri, fez um levantamento sobre os últimos 50 anos e afirma que não houve alteração na quantidade de chuvas (média anual de 1.800 mm no litoral, 1.500 mm nos campos e 2.000 mm no Oeste catarinense), mas sim na freqüência e na intensidade. Ele constatou que os períodos de seca ficaram mais agudos. A expectativa é de uma seca entre dezembro e fevereiro em Santa Catarina.

- Os períodos das chuvas estão mudando, e elas têm se concentrado mais. Defendemos um programa de irrigação agrícola para contornar os efeitos na agricultura. Nossa perspectiva é que essa situação piore. Esses desastres devem se ampliar - disse Olinger, para quem o aquecimento global está ligado ao fenômeno, assim como o desmatamento e o crescimento desordenado das cidades.

O climatologista do Ciram Daniel Calearo avalia que faltam mais pesquisas sobre o aquecimento global. Mas diz que a tragédia no estado tem duas causas comprovadas: o desmatamento e a ocupação irregular do solo.

Os impactos climáticos

Impactos previstos para Santa Catarina por causa do aquecimento global, em estudo de pesquisadores do Epagri/Ciram: l Elevação da temperatura do ar, acelerada a partir dos anos 90. Em São Joaquim, de 1955 a 2006, o aumento foi de 3oC.

Aumento das precipitações desde a década de 90. Em Chapecó, o aumento foi de 37,7 mm ao longo de 38 anos, até 2006.

Ocorrência de eventos extremos de chuvas: as acima de 100 mm têm aumentado, mas intercaladas por períodos de seca.

Previstos sérios impactos sociais e na agricultura.

Maior instabilidade e variabilidade térmica e hídrica, tanto diárias quanto mensais e sazonais l Maiores impactos e riscos aos setores agropecuário e agrícola, por causa das incertezas térmicas e hídricas.

Ondas de calor intensas no inverno, alternadas por eventos extremos de frio e estiagens mais longas.

Aumento da evapotranspiração, requerendo sistemas de reservatórios de água para abastecimento humano, agrícola e pecuário.

O Globo, 28/11/2008, O País, p. 5

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