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Deslocamentos dos Jaminawa entre aldeias e cidades preocupam liderança, no Acre

Amazônia Real - https://amazoniareal.com.br/
17 de abr de 2020

Coronavírus: Deslocamentos dos Jaminawa entre aldeias e cidades preocupam liderança, no Acre
Indígenas que recebem benefícios como o Bolsa Família precisam viajar de rabetas para irem aos bancos, ficando expostos ao contágio da Covid-19

Por Bruna Mello, especial para Amazônia Real

Rio Branco (AC) - O isolamento social dentro das aldeias para prevenir o novo coronavírus em indígenas do Acre é motivo de preocupação do líder do povo Jaminawa, José Correia da Silva, de 65 anos. Ele diz que muitas pessoas estão saindo e voltando das comunidades de rabetas (canoa com motor de popa) para receber benefícios como o Bolsa Família em bancos dos municípios de Assis Brasil, Sena Madureira e à capital Rio Branco.

No início de abril, um grupo de 100 indígenas, segundo Zé Correia, viajou para receber recursos em bancos de Sena Madureira. Com medo do contágio da Covid-19, esse grupo retornou às pressas à comunidade sem fazer uma quarentena de 14 dias, como é recomendado pelas organizações de saúde e atendida por outros povos como os Huni Kuin, do Acre.

As aldeias Jaminawa estão localizadas às margens dos rios Yaco, Purus e Caeté. De Sena Madureira, pessoas do grupo viajaram também para a capital Rio Branco, um percurso de 143 quilômetros feito em embarcação.

No Acre, o Ministério da Saúde registrou 115 casos confirmados de Covid-19 e cinco mortes até essa sexta-feira (17 de abril). A capital concentra 86 casos e quatro mortes da doença. Não há registro de casos entre indígenas.

O líder Jaminawa teme que a falta de orientação e de assistência médica coloquem em risco as aldeias, já que o grupo não fez exames antes do retorno ao território.

"Ninguém está com sintoma, mas tenho muito medo porque sabemos que é uma doença perigosa. Se não tem médico nem aqui [polo do Dsei] imagina nas aldeias. E se alguém estiver infectado?", questiona Correia, que é coordenador técnico da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Sena Madureira.

Segundo o coordenador, a Funai encaminhou verbas para a compra do combustível das embarcações do grupo de 100 indígenas. Mas o valor não suficiente para o transporte de todo o grupo que foi aos bancos nas cidades.

Além de Sena Madureira, os Jaminawa vivem também nos municípios de Assis Brasil e Brasileia. Os deslocamentos das aldeias para os centros urbanos se intensificaram nos anos 90, quando eles começaram a viver nas periferias e a esmolar nas ruas, conforme descreve estudo do Instituto Socioambiental (ISA).

Os Jaminawa também são conhecidos como Yaminawá, que significa "gente do machado". No Brasil, eles vivem nas terras indígenas Jaminawa, Cabeceira do Rio Acre e Mamoadate.

A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) diz que os Jaminawa somam mais de 1,4 mil pessoas.

Povos da mesma etnia habitam em territórios no Peru (mais de 600 pessoas) e na Bolívia (630), países que fazem fronteira do Acre. O tronco linguístico é o Pano.

O enfrentamento da pandemia

TI Cabeceira do Rio Acre, onde mora o Povos Jaminawá, em Assis Brasil
(Foto: Jardy Lopes)
A antropóloga Fátima Ferreira, que trabalhou com a etnia durante três anos, explicou à agência Amazônia Real os deslocamentos desse povo das comunidades para as cidades.

"Temos que falar de três formas de vida Jaminawa, que são: os que já moram na cidade e não querem voltar para a aldeia, os que estão em trânsito e os que estão aldeados. Esse trânsito é uma das características esse povo. Há uma intensa mobilidade entre as aldeias e centros urbanos, e essa é a parte mais preocupante. Não tem nenhum tipo de orientação nesse trânsito e nenhuma prevenção", disse a antropóloga.

É importante destacar, segundo ela, que os indígenas que vivem em trânsito são aqueles que têm negócios nas cidades ou se deslocam para receber algum tipo de benefício, como o Bolsa Família.

"Mesmo que recebessem algum tipo de orientação, os Jaminawa não teriam como manter o distanciamento social para evitar um possível contágio nas aldeias", disse Fátima.

Ela explicou que os indígenas dividem espaços nas moradias com familiares. A aglomeração é uma das causas da vulnerabilidade desses povos para o enfrentamento do novo coronavírus.

"São casas coletivas que ficam duas ou três famílias na mesma casa. São casas que geralmente não são divididas em cômodos. É uma vida coletiva que não permite um espaço para isolamento social", disse.

Para a antropóloga, é necessário criar uma didática específica para traduzir o significado de quarentena e distanciamento social para o povo. "Se para nós, não indígenas, existe dificuldade, imagina para eles. É preciso uma política de assistência de ação direta nesse momento", acrescentou.

Fátima Ferreira disse que há entre os Jaminawa grande divergências entre as comunidades e que cada aldeia possui uma liderança. "Não são um povo organizado como os Ashaninka ou Yawanawá".

A agência Amazônia Real procurou a coordenadora regional em exercício da Funai Alto Purus, Oldice Bortolini Somera. Ela disse que a fundação se manifestaria por meio de uma nota à imprensa. Porém, até o fechamento desta edição não houve retorno.

A reportagem não localizou um representante da coordenação do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Alto Rio Purus, do Ministério da Saúde, que atende os povos Jaminawa, para falar sobre a ações de prevenção do novo coronavírus. O distrito atende a sete etnias de 151 aldeias e uma população de 12.597 pessoas.

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