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Desinformação gera impasse


Autor: MELQUÍADES JÚNIOR
21 de Ago de 2007

COMUNIDADE QUILOMBOLA
Desinformação gera impasse

Galeria

Benjamim Assis é natural da comunidade Bastiões, situada no município de Iracema. A sua família é de ancestralidade quilombola
Falta de um estudo científico e de maiores esclarecimentos causa tumulto entre moradores de Bastiões, em Iracema
Limoeiro do Norte. Falta de estudo antropológico validado pelo Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) gera impasses na comunidade de Bastiões, município de Iracema, no Vale do Jaguaribe. A notícia de que na região existe uma comunidade quilombola e que, a partir daí, seriam demarcadas terras de direito para aqueles que se reconhecem da ancestralidade negra, os não-negros” temem a perda dos territórios que há muitos anos ocupam naquela comunidade.

Uma audiência pública realizada no último dia 17 reuniu vereadores municipais, Incra, representantes de movimentos quilombolas no Ceará e a própria comunidade de Bastiões para serenar” os ânimos de quem teme perder terras.

Impasse

O suposto clima de paz na comunidade serrana de Bastiões, em Iracema, foi quebrado há pouco mais de dois anos, quando estudos antropológicos, realizados na localidade - reconhecida pela Fundação Nacional Palmares como remanescente de quilombos – deram impulso à idéia de que a comunidade negra de lá deve ter o direito de demarcar a posse daquela região, que também é habitada por famílias brancas, ou pessoas que não se reconhecem como negras. A questão gerou um impasse entre negros e não-negros”, estes que ocupam 70% do local e ficaram temerosos de perder as terras onde vivem há várias décadas.

Conforme os estudos feitos na comunidade, a chegada dos negros no local dataria de mais de 200 anos. Luzineide Magalhães, integrante da comunidade negra, diz que aquela comunidade é de todos, mas principalmente dos negros que lá chegaram há muito tempo”.

A dona de casa reclama do clima” que há atualmente entre a população. Se perguntar, as pessoas vão negar, mas está havendo uma troca de insultos dos dois lados, já vi gente que se considera branca dizer que agora vamos ficar dependendo da vontade dos negros?”, conta dona Luzineide, que preferiria que não houvesse conflito entre os moradores e todo mundo ficasse com seu pedaço, sem confusão”.

Falta informação

Até mesmo várias famílias negras são contrárias à demarcação do Incra. Um morador ouvido pela reportagem disse que nem que seja com violência eu defendo minhas terras”. Mas a audiência de ontem com a comunidade deixou claro que o principal problema nos impasses seria a falta de informação e de um estudo antropológico na comunidade, que seria feito pelo próprio Incra. Começaram aqui pela metade, o Incra vem falar em demarcar terra e não foi feito nenhum trabalho com toda a população para saber de que forma ela se auto-reconhece”, afirma Genilson Nogueira Candido, de 31 anos, que nasceu em Bastiões. Ele conta que o estudo antropológico já realizado na localidade restringiu-se a poucas famílias.

Sem a informação correta, as pessoas ficam no senso comum e terão dificuldade de se reconhecerem negras se não tiverem todos aqueles traços fenotípicos, mas sabemos que o ser negro vai além do físico, mas do histórico familiar e vivências da opressão”, explica Genilson. Eu mesmo possuo traços negros, mas sem saber os critérios não sei como me identificar. Faltou justamente esse trabalho com a comunidade, que somente agora, após a audiência, está ciente de que não é só demarcar e dizer quem é negro ou não”, acrescenta.

Mapeamento

Conforme matéria do Diário do Nordeste, no último dia 5, o Incra no Ceará não possui um antropólogo para fazer o mapeamento inicial de todas as comunidades quilombolas no Estado.

O chefe da divisão de Ordenamento Fundiário do Incra/CE, Flávio José de Sousa, esteve ontem na comunidade de Bastiões. Mas ele informou que nada, além de prestar esclarecimentos, poderá fazer na comunidade, sem que haja um antropólogo para estudar a região, estudo que deverá ser realizado ainda neste ano.

MELQUÍADES JÚNIOR
Repórter

SAIBA MAIS

Fundação
Conta a memória local que a comunidade de Bastiões, localizada em Iracema, foi ocupada inicialmente por duas escravas, Maria Feliciana e Bribiana, fugidas da exploração que sofriam na Bahia. Migraram para a atual Bastiões, situada numa serra alta de clima ameno.

Mestiços
As duas fizeram família em laços de mestiçagem com migrantes da região jaguaribana. 200 anos depois, a comunidade está em impasse com questões como a identidade negra e a demarcação territorial.

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