OESP, Economia, p.B12
26 de Set de 2004
Design em madeira conquista Primeiro Mundo
Com resgate de técnicas antigas, artesãos exportam e ajudam a preservar florestas
Carlos Franco
Das raízes de árvores gigantescas, derrubadas para dar espaço a pastos, ele fez mesas e bancadas; de canoas talhadas por índios pataxós, abandonadas por pescadores, ele fez bancos; dos gravetos recolhidos na devastada Mata Atlântica da Costa do Descobrimento, na Bahia, ele fez esculturas. É com esse trabalho ecologicamente correto e com um design brasileiríssimo que o engenheiro gaúcho Hugo França, de 49 anos, ajuda o Brasil a melhorar a imagem no mercado internacional.
No ano passado, o País exportou US$ 661,5 milhões em móveis. A previsão para este ano é chegar a US$ 800 milhões. Móveis de dormitório em madeira maciça são mais procurados por importadores, especialmente dos Estados Unidos, da França, da Alemanha e do Reino Unido, principais mercados do País, mas há um nicho a ser explorado, de design, onde atua Hugo França.
A participação dele nesse fluxo é ínfima. Do total de 15 peças que produz por mês, apenas 5 seguem para o exterior, mas são essas vendas que ajudam o País a consolidar a imagem de produtor de móveis de design, por meio do resgate de técnicas artesanais de produção que pareciam perdidas.
"Nosso papel é mostrar o Brasil que preserva as florestas e aproveita melhor a madeira". França acha um absurdo: das 4 mil espécies da Mata Atlântica, apenas 200 são usadas comercialmente e 30 são as mais usadas. "Há uma monocromia grande no uso da madeira e nosso tipo de design, eu diria escultural, quebra isso ao usar as árvores e raízes devastadas e sem uso."
França é engenheiro. Veio para São Paulo em 1979, para trabalhar na Cisco. A produção de móveis começou quando comprou casa em Trancoso, no litoral Sul da Bahia. Ali, começou a produzir a própria mobília. Depois vieram as encomendas dos amigos e, afinal, as encomendas maiores, para o exterior.
Hoje, ele mantém um ateliê na Bahia, onde está a madeira que recolhe, "como um garimpeiro das matas e fazendas da região", e outro em São Paulo, onde as peças são finalizadas.
Feliz com a exposição de seus móveis no Museu da Casa Brasileira - até o próximo domingo -, França prepara o embarque de peças para exposição em Paris, em janeiro. E hoje, quem inaugura uma exposição em Londres é a designer Etel Carmona, mineira de Paraisópolis, mãe de três filhos, que há 20 anos se dedica ao ofício de transformar madeira certificada, como a imbuia e a sucupira, em móveis cobiçados, como os que estão no Instituto Fernando Henrique Cardoso, do ex-presidente, no centro de São Paulo.
Etel, como a maioria dos designers da madeira do País, começou por acaso no mercado. Ao decorar uma casa de campo em Louveira, interior de São Paulo, teve dificuldade de achar o que queria. Decidiu então comprar móveis antigos e recauchutá-los. Para isso, usou um galpão em Valinhos, cidade vizinha a Louveira. Hoje, ela conta com o apoio de 90 funcionários na produção de cerca de 1.500 peças por mês, além de acessórios que compra com exclusividade de uma comunidade de Xapuri, no Estado do Acre.
Reflorestamento - Etel conta que, ao ampliar a produção dos móveis que pensava fazer apenas para casa, achou que precisaria de um mestre para ensinar o ofício a cinco órfãos de empregados da fazenda.
Até hoje, Moacir Tozzo é sócio dela e fica com 10% do valor das vendas, com o compromisso de ensinar aos novatos o ofício de mestre artesão. "Passei a desenhar com mais desenvoltura e a criar mais peças a partir do momento em que pessoas como o moveleiro Fúlvio Nani me garantiram que o que estava fazendo era realmente novo, com cara de Brasil."
No ateliê da Rua Gabriel Monteiro da Silva, onde está há 14 anos, Etel também abriu as portas para a design de mobiliário de Claudia Moreira Salles e Isay Weinfeld, que, com ela, ajudam a fixar o nome do Brasil no exterior, onde têm representação em Nova York, Amsterdã, Londres, Lisboa e Zurique. E qual o segredo do sucesso? Etel responde sem pestanejar: "Só uso madeira certificada, como a imbuia, que é muito utilizada. Por isso, comprei um trecho da Mata Atlântica para fins de reflorestamento. Ali, planto a imbuia que usamos, mantendo o ecossistema com outras espécies que também estudo o uso".
O fluminense de Macaé Maurício Azeredo, de 55 anos, há 30 anos se dedica a projetar móveis que levem em conta a policromia das madeiras. No seu ateliê, na cidade goiana de Pirenópolis, ele desenvolve um mobiliário de forte conteúdo cultural, buscando levar para bancos e mesas o folclore brasileiro.
Assim como Etel e Hugo França, a trajetória de Azeredo começou do acaso.
Arquiteto, foi dar aula na Universidade de Brasília, logo após a construção da capital, nos anos 60. No campus, conheceu o pessoal do então Instituto Brasileiro de Florestas (IBF), hoje Ibama. "Conheci outros tipos de madeira e comecei a projetar móveis, levando em conta a diversidade e só trabalhando com madeira certificada, que respeita o desenvolvimento sustentável."
Desde então, produz mensalmente entre 12 e 15 peças, que fazem sucesso nas galerias de Los Angeles e Nova York. Dali vêm os compradores externos. "É uma produção pequena, mas cria um conceito de Brasil lá fora e mostra que somos capazes de produzir móveis que respeitam e têm compromisso com a natureza."
Azeredo está ciente de que designers como ele, Etel, Hugo França e Carlos Motta seguem a trilha dos irmãos Fernando e Humberto Campana que, nos anos 70, abriram as portas do exterior para o mobiliário brasileiro. Hoje, num pequeno ateliê no bairro paulistano de Santa Cecília, eles vão além da madeira e aperfeiçoam as técnicas de papel ondulado, que transformam em cadeiras expostas em museus como o MoMa, de Nova York.
Exportação de móveis cresceu 16 vezes em dez anos
Vendas saltaram de US$ 40 milhões em 1993 para US$ 661,5 milhões no ano passado
As exportações brasileiras de móveis deram um salto nos últimos 10 anos: de US$ 40 milhões em 1993 para US$ 661,5 milhões no ano passado. O consultor de Marketing da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), Marco Aurélio Lobo Júnior, atribui esse aumento das exportações a atrativos dos móveis brasileiros como qualidade, design e preço. Desde que o câmbio ficou flutuante, a partir de 1998, o País pôde retomar as exportações com mais fôlego.
Na ponta do design, a Abimóvel mantém centros de desenvolvimento e criação em sete dos principais pólos moveleiros do País: Ubá (MG), Arapongas (PR), Bento Gonçalves (RS), Linhares (ES), Mirassol (SP), Votuporanga (SP) e São Bento do Sul (SC). A intenção é que o País, conhecido por exportar madeira, seja conhecido e respeitado como exportador de móveis. O principal pólo do País está em São Bento do Sul, e deve responder por US$ 250 milhões das exportações brasileiras este ano. O Pará vive uma situação atípica: chega a exportar mais de US$ 500 milhões em madeira e não chega a exportar US$ 5 milhões em móveis.
Para o designer Maurício Azeredo, é preciso que ações de governo estimulem o uso sustentado da madeira e melhor aproveitamento das árvores. Etel Carmona se orgulha de ter ensinado a comunidade de Xapuri, que produz acessórios para a sua grife, a trabalhar melhor as sobras na floresta. Hugo França também deu um exemplo com esculturas de troncos que valorizam os ambientes dos 30 apartamentos residenciais do edifício Ara Pacis Residenza, em São Paulo, que tem outras três esculturas em baraúna no lobby.
O mercado externo prefere a madeira maciça, embora a maioria dos móveis brasileiros seja produzida com madeira aglomerada, o MDF. Daí a preocupação da Abimóvel na defesa da madeira certificada, que abre espaço em mercados preocupados com o ecologicamente correto. (C.F.)
OESP, 26/09/2004, p. B12
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.